quinta-feira, maio 11, 2006

Crónicas da Galinha Riça - O Peru

Na minha crónica anterior abordei a incontornável obsessão dos habitantes do Galinheiro pela reconquista do extenso Quintal, quimera perseguida ao longo das últimas três décadas e transmitida de geração em geração por várias e consecutivas sublevações populares.
O Quintal, durante este período, foi administrado por aves insensíveis, que, a contento de alguns, sempre se revelaram adversas à causa do Galinheiro, impedindo a sua emancipação e dificultando a legítima pretensão de também debicarmos as apetecíveis dádivas da natureza que aquele espaço promete. Dessas aves, porém, uma se destacou: O Peru Corrécio.
Determinado a resolver definitivamente o conflito que se arrastava com o nosso Galinheiro e que comprometia a sua liderança e o exercício do domínio absoluto do Quintal- desaguisado que já tive oportunidade de abordar em crónica anterior - o Peru dedicou especial atenção ao problema da restauração do coito.
Embora da mesma ordem que os demais conterrâneos, os Galliformes, esta abjecta ave distinguia-se por pertencer à família dos Meleagrididae, o que lhe conferia a insolência e a vaidade de se pavonear arrogante acima dos outros da sua espécie. Ostentava orgulhosamente a sua indiferença pelos vários galinheiros da sua jurisdição, mas, pelas razões atrás apontadas, preocupava-o particularmente a insatisfação que reinava na nossa capoeira.
Decidido a pôr cobro às reclamações emergentes da perda do coito, institui, na legitimidade que a Lei lhe conferia, o “Direito de Pernada” sobre o Galinheiro. Perguntam os incólumes o que é o Direito de Pernada. O Direito de Pernada é um legado medieval criado por D. Pedro I, o Justiceiro, aquele da Inês, que conferia ao senhor feudal o direito de passar a primeira noite com as nubentes do seu feudo. Pensava o Peru que, com tal medida, restituía por caminhos tortos o que nos era devido por direito.
Instigado pela volúpia da sua missão e legitimado pela condição de suserano avassalou-se indiscriminadamente de nubentes, pitas impúberes, frangas, galinhas feitas e outras por fazer, não olhando a meios nem a métodos para reintroduzir o reclamado coito no Galinheiro.
No início, gerou-se um clima de tolerância expectante perante aquelas investidas indulgentes, no entanto, com o passar do tempo, acometido por uma ambiguidade de apetites e não satisfeito com o espírito da Lei, decidiu alterá-la a seu belo prazer e tirar satisfações púbicas de tudo quanto mexia em desenfreada fornicação. Está bom de ver que tamanha actividade acabou por afectar física e psicologicamente toda a comunidade.
Ora, come se sabe, de coitados a fornicados pouca diferença dista e, mal por mal, mais nos valia sucumbir aos inconvenientes da escravidão doméstica do que à vil tirania do Peru e dos seus apetites insaciáveis. Foi neste contexto que se reafirmou a vontade de tomar o Quintal e que o galo Luísio, perante a passividade de todos, quem sabe se tolhidos pelos hábitos do Direito de Pernada, acedeu à liderança do MRQ (Movimento de Restauração do Quintal).
Neste particular, bendita a hora em que o galo Luísio assumiu os destinos do Galinheiro, pois a ele se deve o fim do esfregulhanço a que nos sujeitámos durante anos e anos. Inconformado com o nosso destino, e aproveitando o cansaço e o desgaste do Peru Corrécio na sua cruzada pagã, tratou de derrubar o desavergonhado, substituindo-o por doutorada galinha, Isa Pedrês de seu nome, argumentando que, pelo menos com esta, dada a natureza do género e a inerente inviabilidade anatómica para o efeito, o Direito de Pernada seria definitivamente abolido, e mesmo que por embuste ou trapaça política, isso não acontecesse, ele próprio, Luísio Cantorias, se entregaria, qual aio Afonsino, em sacrifício penitencioso, ao folguedo requerido.
A História está cheia de casos em que as intenções se confundem com os factos e vice-versa. Neste caso, fosse subliminar intenção ou facto previamente acordado, a verdade é que o galo Luísio se viu obrigado a condescender aos caprichos da doutora em doces arrulhos e outros compromissos de pernada e, agora, por força do fogoso aviamento prometido, da tempestade fez bonança e da contenda conformismo e pesaroso lamenta, citando aquele não menos desconsolado general romano - que raio de Galinheiro este que não se governa nem se deixa governar!
Contudo, o espírito da nossa capoeira não perde o pio facilmente. Se as andanças políticas são armadilhas efémeras, as verdadeiras mudanças, as de atitude e de mentalidade, essas parecem continuar vivas e inquietas para agitar o galinheiro; se o Movimento de Restauração se encontra em estado comatoso ou de letargia, isso não significa o fim das nossas reivindicações. Vindo do mais fundo desejo de conquistar definitivamente a dignidade das nossas penas, um novo movimento emerge, agora, na voz do Mulherio. Mas desse movimento ocupar-me-ei noutras crónicas. Queira deus se tornem factos históricos.

Bons repenicos

11 comentários:

Cingab disse...

:P

Achadiça disse...

bem aparecida professora doutora. gostei particularmente do último parágrafo.vejo que a amiga continua entusiasmada com o nosso movimento mesmo que insista na moderação. reunião no próximo fim de semana a não esquecer

B:»

Cingab disse...

O avatar é fascina-me

Achadiça disse...

galo cingab não diga isso que a cris tem uma opinião muito própria a propósito desse fascínio pelo meu virtual aspecto.aqui entre nós eu acho que ela tem é um fraquinho pelo rico...bem, eu compreendo-a, também é o único a deixar umas bicaditas, não sei o que é que se passa com estes homens, será timidez como diz a qda dona da prima, será que os intimidamos com estas conversas comprometedoras, ou só sabem bicar politiquices de bairro. mas não são só os homens a recear-nos, as mulheres, já nem digo galinhas porque tenho receio que seja algum problema de crise de identificação, dizia eu que mulheres por aqui nem vê-las!!!o que é que vocês fazem às meninas que, com a honrosa excepção das criadoras deste espaço e da dona da prima, não acedem à blogosfera nem partilham posições nem insatisfações. trazem-nas amordaçadas. ocupadas na cama não é de certeza. uma vez que o querido se permite e muito bem a opinar sobre tudo o que lhe vai na alma, tente lá explicar esta ausência do mulherio, opss, mulheres, pois parece que "mulherio" também não se quaduna, com o elevado estatuto que algumas pindéricas querem aparentar, que nem distinguem ironia, mesmo que pretensiosa, do verdadeiro sentido de ser mulher. desculpe galo cingab mas hoje chegou-me aos ouvidos que algumas, essas sim galinhas de bico penas e asas, não alinhavam no mulherio porque o seu conteúdo era ridículo e desprestigiava as mulheres. fiquei possessa, podiam criticar as bicadas, aliás os textos, podiam não concordar com o tema, agora que desprestigiava as mulheres!!! é com estas moralistas da treta que tenho que conviver em sorrisos hipócritas de café. gostava que este blog tivesse sucesso para ver a fronha dessas doutoras empertigadas. sei que a cris e a riça me vão matar por vir pr'aqui choramingar portanto se não voltar a aparecer peça-lhes explicações. adeus

B:»

Cingab disse...

Mas, esse avatar dá cabo de mim!
Se quer uma critica, os post's são muitos longos!

Achadiça disse...

o que eu queria mesmo era que me explicasse porque é que as mulheres não participam nos berloques

Achadiça disse...

...como longas são as penas que nós padecemos

Fernando_Vilarinho disse...

boas!

apreciei muitas as palavras que deixaram no meu blogue. vejo que as bloguistas de Canas dão uma excelente réplica ao blogueiros da mesma, em deliciosos e bens afiados tons de prosa, condimentados com um humor qb.
O Hércules tinha doze trabalhos em mão,eu já devo ter agora uns doze milhões pendentes. podia reformar-me ;-) que acho que nem 1% deles os conseguiria concretizar. mas agradeço e fico muito sensibilizado pela sugestão que me deixaram.

Desejos do melhor para este blogue e para todo o MULHERio de Canas de Senhorim!!

btw eu não sou de todo académico, a par de trabalhar também estudo.

donadaprima disse...

@ Achadiça
Não se apoquente, ouvi dizer que o "mulherio" de Canas pediu o autocarro á câmara e foi ver o Tony Carreira a Lisboa, por isso é que não têm tempo para "berlocarem"

:»~~

Achadiça disse...

traição!, qda dona da prima, traição! porque eu desconfio que a cris e a riça também alinharam no grupo excursionista.nem uma bicadita deixaram por aqui este fim de semana. olhe se é como diz, façam bom proveito e já agora não percam a oportunidade de visitar o hipópotamo o elefante ou o jaleco que a animália agradece.

Achadiça disse...

ó nando quem agradece sou eu, somos nós (acho que posso falar pelo resto da galinhagem). já sabe, a nossa especialidade é cabidela, por isso terá sempre cabimento entre as nossas miudezas, que é como quem diz, entre o coração e a moela. Volte sempre, bique e sirva-se à vontade. pena não ter disponibilidade para analisar este fenómeno, aliás, desfenómeno que por cá não se arrasta. bem tentamos que a rapaziada arraste a asa pelo nosso berloque e que nos amacie devidamente as penas, mas não...é só política, diz que disse, conversa de poleiro… enfim! com a honrosa excepção do galo luísio e do galo da dona da prima, preocupações gaiteiras nada! como diz a riça, uma ralação púbica é o que é. pois querido nando que a força esteja consigo e quanto à cabidela é só fazer anunciar-se.

B:» (Boas bicadas)