sexta-feira, abril 13, 2007

Ao meu estagiário


Fiz ontem 40 anos. Acordei com uma telha digna de viga reforçada.
Isto passar dos “inta” para os “enta” tem o seu quê. Habitua-te, pensei eu. Senti uma sensação de inconformismo atávico e a plena convicção de que o espelho começava a trair-me. O raio do espelho não me era fiel. Hoje reflectia alguém que não era eu.
Desci as escadas indisposta e dirigi-me à cozinha onde o meu marido e os miúdos já tomavam o pequeno-almoço.
Fiquei na expectativa que me saudassem efusivamente: “feliz aniversário querida”, “feliz aniversário mãe”. Para meu assombro ninguém se pronunciou. Só os bons-dias do costume e uma vaga alusão à gata que não deixa ninguém dormir por causa do cio.
Fui para o trabalho verdadeiramente desapontada. Já não bastava a angústia da “quarentona”, ainda por cima a indiferença do marido.
Cheguei à escola. Sou mais uma daquelas vítimas preferenciais das grandes opções do governo para diminuir o défice. Funcionária pública, professora do secundário, acedi ser orientadora de estágio para ver se colmatava, com os míseros 80€ que tal função remunera, a galopante subida da taxa de juro do crédito à habitação; já para não falar do congelamento da progressão na carreira e a estagnação do vencimento base que, em três anos, foi alvo de um aumento de 1,5%.
Tenho um estagiário simpático e inteligente. Depois de várias atribulações profissionais decidiu seguir a via do ensino e acabou colocado na minha escola, sobre a batuta cá da menina. Fui encontrá-lo sorridente junto à máquina do café.
- Bom dia e feliz aniversário – cumprimentou-me afectuoso.
Finalmente alguém se lembrou dos meus anos! Ainda que o facto não me trouxesse grande alegria a expressão dele conseguiu animar-me e a má disposição desvaneceu-se ligeiramente.
Tinha acabado o último tempo da manhã quando o estagiário se me dirigiu delicadamente anunciando um surpreendente convite para almoçar, “só a C. e eu”, sussurrou ele.
Embora ele me trate com deferência considero-o praticamente como um colega de trabalho. Tanto assim que, desde o início, fiz questão que me tratasse pelo meu nome, sem títulos nem salamaleques. Achei a observação “só a C. e eu” um pouco despropositada, mas esta malta nova tem códigos próprios e desvalorizei a impressão. Fomos a um lugar bastante reservado escolhido por ele. Para afastar a sensação de desconforto que ainda pairava sobre mim desde que tomei consciência da minha "nova" idade, bebi vinho. Divertimo-nos muito e, no caminho de volta, ele sugeriu:
- E se fossemos a minha casa? É mesmo aqui. Tenho um projecto sobre os currículos pedagógicos e gostava de ouvir a sua opinião.
Fosse pelo vinho ou por não ter nada de mais interessante para fazer, acedi. Enquanto saboreava um Porto e avaliava o trabalho ao computador, ele disse:
- Se não se importa, vou até o meu quarto vestir uma roupa mais confortável.
Pronunciou a frase com um sorriso terno e sedutor, reforçando com o olhar a sugestão atrevida que, pensava eu, lhe tinha escrutinado na intenção.
Pasmei. Passou-me um turbilhão de coisas pela cabeça. Mas a verdade é que me cresceu um ímpeto físico incontrolável, ao qual as palavras deram, inconscientemente, aprovação.
- Tudo bem. Fica à vontade - concedi cúmplice.
Arrependi-me imediatamente. As implicações no trabalho seriam negativas e o meu comportamento reprovável, quer à luz da minha consciência moral e profissional, quer no respeito que o meu marido e os meus filhos merecem. Por outro lado, a possibilidade de nos enrolarmos esgotar-se-ia aqui, nesta sala. O ano lectivo está a acabar, nunca mais o vejo e o corpo urge. Que raio, como o corpo urge! Isto devem ser ânsias da nova idade, gracejei interiormente.
Quarenta anos, um sofá e um estagiário! Busquei explicação que servisse de pilar a esta vontade censurável: estás fragilizada com esta coisa da idade e encontraste neste jovem sedutor a salvação para o envelhecimento. Afinal ainda és desejada. Este rapaz devolve-te o reflexo da vaidade que o espelho te nega, não é? Pois, pois…
Que se lixe. É a bem do ego, convenci-me, ainda que ciente de quão o corpo engana a mente. Conferi mentalmente o estado da depilação, a decência da roupa interior e ajeitei-me.
Decorridos mais ou menos cinco minutos, ele saiu do quarto. Carregava um bolo enorme. Atrás, vinha o meu marido seguido pelos meus filhos, amigos e alguns colegas da escola. Entoavam entusiásticos “ Parabéns a você…!!!”
E eu... lá estava, sentada no sofá da sala, em cuecas e sutiã, aguardando a minha iniciação de quarentona.
Nunca me hei-de esquecer. Estagiário, mesmo simpático e inteligente, só faz merda!

Boas minhocas

15 comentários:

Cingab disse...

Uma boa estória, muito bem escrita!

Cristalinda disse...

Olá Cingab. Ainda me há-de explicar como faz para detectar imediatamente que um novo texto foi editado no Mulherio. Já reparei que às vezes ainda ando à volta com correcções ao modelo (não raras vezes isto afecta o template... consigo corrigir mas não percebo como lol) e já o Cingab deixou a sua mui prestimoso comentário. Deve ser um programa não é? Isso é óptimo para não estarmos sempre a ver se há novidades...
Se não for cioso partilhe aqui com as amigas.
Boas minhocas
Já agora obrigada pelas palavras.

Cingab disse...

De facto, não sei bem porquê (talvez um serviço que ás vezes por aí aparecem na net e eu adiro), sempre que há alterações no Mulherio, no Voando e no Municipio, aparece-me um mail... Como tenho o mail sempre aberto, por motivos profissionais...
Mas não sei bem como!... Talvez o @farpas tenha ideia do que isso será!...

Cingab disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cingab disse...

Uma outra explicação, que poderia indicar era que tenho o seu computador controlado com um Trojan... Era um bonito enredo, mas é mentira!

Cristalinda disse...

Era um enredo aproveitável para uma bela história. Quem sabe.
Mas o seguro morreu de velho. Por ordem da presidente acabaram-se os mails... e ela lá sabe porquê.
É verdade, se não sabiam fica aqui a info. Não vale a pena escrever para o Mulherio. Estou proibida de abrir qualquer mail.
Bom fim de semana e boas minhocas (boa pesca)... para quem anda à pesca :)

Achadiça disse...

Cris
Vai-te preparando para assumir a presidência que o meu tempo já era...

Cingab disse...

Cristalinda,
Há muitas maneiras de apanhar peixe!...

Achadiça disse...

Aqui não há peixe... só carne e da dura, que as galinha já são entradotas. Quanto muito uns "caldos" de galinha, mas esses reservo-os a paladares adequados. Não me parece que o Cingab ande metido em "caldos"... já estou como a outra: caldos! o meu marido nem gosta de sopa... é mais de limonadas :)
Boas bicadas

Cristalinda disse...

Calma. Até Julho ainda falta muito. Vai é arranjando maneira de saíres em beleza. De caldos de galinha não reza a história, por mais que a Riça a deturpe :)
Pó-Pó---Póó lol

Cingab disse...

Carne da dura!... Hummmmmmmmmmm... Não acredito que seja toooooooooooda dura... Deve haver alguma coisa mole!...
Eu, no prato, sou sincero, gosto mais das de aviário!... Claro... são gostos!

Cingab disse...

è que este post, nun dia como hoje para mim, é a uma antitese

Mr Kunami disse...

A história está excelente!
Só espero que apezar da barracada o seu estagiário não seja penalizado na nota. :)

Cristalinda disse...

Cingab
Antítese! Não apanhei.

Kunami
Penalizado?! Não. Saíu-se muito bem academicamente. Deve andar por aí a dar aulas, algures...

Cristalinda disse...

O meu, não o da história ;)