- Nem que me fizesses diabruras por debaixo das rendas.
- Pois, as tuas rendas…
- O que é que querias! Pensavas-me incondicionalmente tua? Eu disse-te que estava fugida de mim. Eu avisei, eu não te enganei.
- Pensei que gostasses de brincar com as palavras. “Fugida de mim!”, o que querias que eu entendesse com “fugida de mim”?
- Que eu não era eu. Que naquele momento não era eu.
- E agora estás a ser tu?
- Agora estou a ser eu.
(silêncio)
- Então porque aceitaste jantar comigo?
(silêncio)
- Tentei de novo a transmutação mas não consegui. Hoje estou agarrada a mim, não consigo despegar-me do eu que normalmente habito.
- Deixa-me amar esse eu.
- Não suportarias o outro eu de que gostaste.
(silêncio)
- Essa dualidade existe mesmo ou é só uma conveniência estratégica?
- Conveniência estratégica! Uma estratégia pressupõe um fim. Eu não tenho princípio nem acabo, como diria o outro.
- Quem?
(silêncio)
- Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí.
- Ah esse? Não és assim tão negra…
(risos)
- Sou mais negra do que pensas, daquelas retorcidas a rondar o macabro.
- Lá estás tu…
- É verdade, já o meu ex dizia que eu era insuportavelmente verdadeira.
- Tu és é insuportavelmente bonita.
- Já cá faltava o piropo fácil. Escusas que não há rendas para ninguém.
- Pois, é mais rendilhados…
- Se não te agrada podemos mudar de assunto.
- Não. Adoro ouvir-te, com ou sem rendas, com ou sem rendilhados.
- Ó homem! Com ou sem, assim ou assado… ninguém gosta assim tão pouco.
- Tu és demais. Estás sempre na retranca. Mas o facto é que vieste e não me interessa qual dos eus trouxeste.(pausa) Gostava de amar-te no permeio dos teus eus… sempre sonhei ter duas mulheres na cama.
(risos)
- Seria catastrófico. Os meu eus não se dão bem, são incompatíveis, existem mas não coexistem.
- E hoje estás com o eu que se recusa aceitar-me. Já sei, já disseste.
- Que recusa trair-te.
- O quê!
- Que recusa trair-te, meu querido. Que recusa trair-te.
quarta-feira, maio 02, 2007
segunda-feira, abril 30, 2007
Provocação 2
- Sabes querido, quando falas fazes-me lembrar o mar...
- Ena, amor. Não sabia que te impressiono tanto.
- Não é que me impressiones. Enjoas-me.
terça-feira, abril 24, 2007
Evocativo

A data de 25 de Abril de 1974 traz-me à memória deslumbramentos de tenra idade. Por essa altura tive uma paixão platónica pelo professor de Ciências Sociais. Recordo-lhe as guedelhas de intelectual, que talvez não fosse, as calças de ganga justas e as sapatilhas brancas. Não teria mais que 26, 27 anos. Para mim as palavras capitalismo ou proletariado, pronunciadas pela boca dele, eram autênticas e apaixonantes palavras de amor.
Era da nova geração, urbano, “pra frentex”, como se diria agora, e não faço ideia como foi cair na Escola Técnica do Dão. Perante a desorganização pedagógica instalada e o novo ideário político que a revolução semeara, o prof. não se deixava apoquentar. Ao contrário dos professores mais antigos, angustiados com o “poder popular” dos alunos que, a cada reunião académica, queimavam simbolicamente todo e qualquer tipo de poder instituído, em fogueiras ateadas com palavras como reaccionário, fascista ou ditador, o meu prof. de Ciências Sociais movimentava-se descontraidamente naquele clima de excessos. Transmitia serenidade e cativava os alunos mais alvoroçados pelo calor da revolução com o seu método moderno (à altura) de lidar connosco. Tratava-nos por “tu”, ouvia-nos atentamente e respeitava as nossas opiniões, deliberava democraticamente após consultar a opinião geral, organizava actividades extracurriculares ligadas à arte e ao desporto, deixava-nos escolher temas que depois debatíamos na aula, incentivava-nos a defender os nossos pontos de vista, falava abertamente de sexo, de Deus, das religiões, do Homem, mas acima de tudo ensinava-nos a democracia e a vivê-la no respeito pelos outros.
E eu, completamente absorvida pelo homem e pelo professor, não conseguia arrumar um pensamento de cada vez que ele me dirigia a palavra. Sentia-me vítrea, no limite do pudor, receosa que ele detectasse o desejo indisfarçável. Ainda hoje me questiono se alguma vez percebeu que era ele que eu aconchegava nas minhas transgressões sexuais de adolescente despontada. Tenho quase a certeza que sim.
Um dia, data inesquecível, uma aragem vinda da serra invadiu a sala de aulas. Estão a ver as arcadas do edifício principal da escola? Era uma dessas salas, cujas janelas davam para o campo onde praticávamos ginástica, contíguo à antiga casa do pessoal da CPFE. A janela que estava próxima da minha carteira era a responsável pelo sopro de vento que se fazia sentir. Tentei-a fechar mas em vão. O ferrolho não funcionava. Diligente, o professor veio em meu auxílio, mas para chegar à janela teve que debruçar-se todo sobre mim. Ali ficámos durante segundos naquela posição embaraçosa, ele em equilíbrio periclitante, a esforçar-se para trancar a janela e eu, deliciosamente paralisada pelo conforto do toque do seu corpo, tentando controlar o desmaio eminente.
Não ousei mexer-me. O professor persistia com o ferrolho, até que este cedeu repentinamente, entalando-lhe um dedo. Não controlou a dor e deixou sair baixinho, de forma ininteligível para os restantes alunos, mas não para mim, um inconveniente “daaa-se”. Olhou-me íntimo, buscando na cumplicidade do nosso olhar a minha compreensão pelo descuido. E eu percebi naquele preciso momento que tinha acabado de partilhar o olhar dos amantes que nunca seríamos mas que, por breves momentos logrei entrever.
É por isto que o dia 25 de Abril me faz sempre lembrar o meu professor de Ciências Sociais e os meus verdes anos passados na extinta Escola Técnica do Dão.
Era da nova geração, urbano, “pra frentex”, como se diria agora, e não faço ideia como foi cair na Escola Técnica do Dão. Perante a desorganização pedagógica instalada e o novo ideário político que a revolução semeara, o prof. não se deixava apoquentar. Ao contrário dos professores mais antigos, angustiados com o “poder popular” dos alunos que, a cada reunião académica, queimavam simbolicamente todo e qualquer tipo de poder instituído, em fogueiras ateadas com palavras como reaccionário, fascista ou ditador, o meu prof. de Ciências Sociais movimentava-se descontraidamente naquele clima de excessos. Transmitia serenidade e cativava os alunos mais alvoroçados pelo calor da revolução com o seu método moderno (à altura) de lidar connosco. Tratava-nos por “tu”, ouvia-nos atentamente e respeitava as nossas opiniões, deliberava democraticamente após consultar a opinião geral, organizava actividades extracurriculares ligadas à arte e ao desporto, deixava-nos escolher temas que depois debatíamos na aula, incentivava-nos a defender os nossos pontos de vista, falava abertamente de sexo, de Deus, das religiões, do Homem, mas acima de tudo ensinava-nos a democracia e a vivê-la no respeito pelos outros.
E eu, completamente absorvida pelo homem e pelo professor, não conseguia arrumar um pensamento de cada vez que ele me dirigia a palavra. Sentia-me vítrea, no limite do pudor, receosa que ele detectasse o desejo indisfarçável. Ainda hoje me questiono se alguma vez percebeu que era ele que eu aconchegava nas minhas transgressões sexuais de adolescente despontada. Tenho quase a certeza que sim.
Um dia, data inesquecível, uma aragem vinda da serra invadiu a sala de aulas. Estão a ver as arcadas do edifício principal da escola? Era uma dessas salas, cujas janelas davam para o campo onde praticávamos ginástica, contíguo à antiga casa do pessoal da CPFE. A janela que estava próxima da minha carteira era a responsável pelo sopro de vento que se fazia sentir. Tentei-a fechar mas em vão. O ferrolho não funcionava. Diligente, o professor veio em meu auxílio, mas para chegar à janela teve que debruçar-se todo sobre mim. Ali ficámos durante segundos naquela posição embaraçosa, ele em equilíbrio periclitante, a esforçar-se para trancar a janela e eu, deliciosamente paralisada pelo conforto do toque do seu corpo, tentando controlar o desmaio eminente.
Não ousei mexer-me. O professor persistia com o ferrolho, até que este cedeu repentinamente, entalando-lhe um dedo. Não controlou a dor e deixou sair baixinho, de forma ininteligível para os restantes alunos, mas não para mim, um inconveniente “daaa-se”. Olhou-me íntimo, buscando na cumplicidade do nosso olhar a minha compreensão pelo descuido. E eu percebi naquele preciso momento que tinha acabado de partilhar o olhar dos amantes que nunca seríamos mas que, por breves momentos logrei entrever.
É por isto que o dia 25 de Abril me faz sempre lembrar o meu professor de Ciências Sociais e os meus verdes anos passados na extinta Escola Técnica do Dão.
Boas minhocas
sexta-feira, abril 20, 2007
Correspondência
Desde que este galinheiro abriu as portas ao público e os primeiros mails nos foram chegando, foi sempre com alguma expectativa que os abrimos, esperançadas que daí pudessem surgir matérias publicáveis no berloque ou conversas interessantes sobre os assuntos referenciados.
Tivemos imensas mensagens brincalhonas, umas provocantes, outras ternurentas, mas a maior parte de mau gosto. A partir de determinada altura um imbecil qualquer decidiu encher-nos a caixa de correio com pornografia. Recentemente demos conta que determinados mails estavam armadilhados com vírus e outras processos de infiltração. Eu ainda me safei mas a Cris teve que formatar o disco com os inconvenientes que isso traz. Não sei se isto é comum acontecer convosco, mas no nosso caso pensamos que tais comportamentos foram deliberados. Perdoai-lhes Senhor… aos fracos de espírito.
Embora desgostosa, porque no meio de muita porcaria apareciam coisas interessantes e pessoas engraçadas, decidi acabar com o e-mail. Aos “bem-intencionados” que nos têm enviado mensagens pedimos desculpa por não respondermos, pois com a passagem do tempo fomos descurando a consulta da caixa de e-mail. Ao pessoal de confiança oportunamente será dado conta do novo e-mail, o qual agradeço que não incluam em mensagens colectivas ou transmitam a terceiros.
Para animar a malta deixamos um dos melhores exemplares de pornografia que nos foi endereçado.
Boas bicadas, a presidente Achadiça.
Tivemos imensas mensagens brincalhonas, umas provocantes, outras ternurentas, mas a maior parte de mau gosto. A partir de determinada altura um imbecil qualquer decidiu encher-nos a caixa de correio com pornografia. Recentemente demos conta que determinados mails estavam armadilhados com vírus e outras processos de infiltração. Eu ainda me safei mas a Cris teve que formatar o disco com os inconvenientes que isso traz. Não sei se isto é comum acontecer convosco, mas no nosso caso pensamos que tais comportamentos foram deliberados. Perdoai-lhes Senhor… aos fracos de espírito.
Embora desgostosa, porque no meio de muita porcaria apareciam coisas interessantes e pessoas engraçadas, decidi acabar com o e-mail. Aos “bem-intencionados” que nos têm enviado mensagens pedimos desculpa por não respondermos, pois com a passagem do tempo fomos descurando a consulta da caixa de e-mail. Ao pessoal de confiança oportunamente será dado conta do novo e-mail, o qual agradeço que não incluam em mensagens colectivas ou transmitam a terceiros.
Para animar a malta deixamos um dos melhores exemplares de pornografia que nos foi endereçado.
Boas bicadas, a presidente Achadiça.
quinta-feira, abril 19, 2007
Divorciados(as)
Ninguém se consegue divorciar realmente em Canas. Pode-se oficialmente adquirir esse estatuto, agora divórcio pleno, não me parece. Não será uma situação exclusiva da nossa terra pois o problema é transversal às terras de pequena dimensão, mas das outras não conheço os meandros, por isso fiquemos pela nossa.
A percentagem de divórcios vem, à semelhança dos índices nacionais, aumentando significativamente. As razões são muitas e variadas, desde a mais ténue insatisfação à extrema violência que se instala no seio familiar. Se, noutros tempos os elementos do casal se sujeitavam a uma vivência dolorosa, mantendo aparências e conveniências materiais, hoje em dia, o direito ao inconformismo impõe novas regras e precipita o casal para a separação, a bem da sanidade mental de ambos, a bem dos filhos e da dignidade pessoal de cada um.
Mudaram muitas coisas, mas o que basicamente tornou possível a quebra das regras de outrora foi a mudança de mentalidade e a autonomia financeira que as mulheres entretanto conquistaram.
A idade em que maior parte dos divórcios ocorre situa-se entre os trinta e os quarenta anos. E aqui é que as coisas se complicam para os divorciados(as) canenses. Não ignorando as dificuldades que os homens divorciados também sentem, sinto-me mais à vontade para falar delas, de nós, mulheres.
Uma mulher com cerca de 35 anos divorcia-se. Ultrapassada a fase emocional da questão pensa reorganizar a cabeça e relançar a sua vida amorosa, mas logo verifica que isso não é simples. Como a distância é pequena, o ex-marido não lhe sai da porta, ou à caça de uma sopita, ou porque quer ver o filho, ou porque teima em não levar a tralha e a cada necessidade invade a casa.
Isto aplica-se a quase todos. A casa, que ainda é dos dois, embora o usufruto seja dela e do filho, dá-lhes direitos de visitas repentinas, isto quando não vêm de mansinho matar saudades do sofá predilecto. Aparecem sem um telefonema, um aviso e sempre com fome. Às vezes fome de amor, estampada no rosto e nas mãos. E nós, eternamente maternais, condescendemos.
Menos frequentes mas de igual modo confrangedoras são as visitas dos avós paternos. A avó debita o discurso do costume, “olha o que cresceu o nosso netinho! E está cada vez mais parecido com o pai. Ó rapariga, nem imaginas como ele anda triste… ó João dá aí 20 euros p’ró menino”, o avô tira contrariado o dinheiro da carteira e continua a sondar os cantos à casa, na expectativa de encontrar rasto de macho cobridor. Sai-se de casa angustiada, a perguntarmo-nos quando cortamos definitivamente com estas visitas, mas lá fora a situação não melhora. Na rua, nos cafés, no mercado, enfim, em todo o lado, lá estão os cunhados, os amigos dele e, inevitavelmente, o próprio, o ex-marido. O puto corre para o pai e lá ficamos nós penduradas, na incerteza do gesto a adoptar: sentarmo-nos ao pé do ex-marido, como se o divórcio fosse um capricho, ou aguardarmos estupidamente de pé pelo fim dos afagos que o pai faz questão em eternizar? Preserve-se acima de tudo o rebento - Sr. Ilídio, uma bica dupla… por acaso não tem por aí o jornal? – ou então, em desespero, a desculpa esfarrapada do costume – anda, vamos embora que ainda tens que fazer os trabalhos de casa. E o puto que não, que não tem TPC. E nós à beira de um ataque de nervos.
Mas há mais. Canas é uma terra em que habitualmente os jovens casam cedo. Por volta dos vinte seis, vinte e sete anos, está tudo despachado. Os que restam ou são cromos ou algum problema devem ter, logo estão dispensados. Ora, digam-me lá para onde se vira uma divorciada com trinta e poucos anos? Pois, não se vira nem há quem a vire. Homens casados estão fora de questão, os divorciados trazem para a cama a ex-mulher, os filhos e até o cão, enfim, a nostalgia do casamento falhado; e os rapazitos novos, ainda que apetecíveis, não possuem a discrição recomendada. Mesmo assim, se porventura arranjarmos alguém concertado, sentimos logo os olhares censuráveis da populaça e o juízo crítico dos familiares, já para não falar da birra ciumenta do ex-marido. Perante isto, digam-me lá qual a solução para uma divorciada canense com trinta e poucos anos?
É por isso que amanhã vou a Lisboa ter com o meu homem da pizza. Isto se o meu ex-marido ficar com o miúdo e não ler este texto.
Boas minhocas e bom fim de semana para vocês também.
A percentagem de divórcios vem, à semelhança dos índices nacionais, aumentando significativamente. As razões são muitas e variadas, desde a mais ténue insatisfação à extrema violência que se instala no seio familiar. Se, noutros tempos os elementos do casal se sujeitavam a uma vivência dolorosa, mantendo aparências e conveniências materiais, hoje em dia, o direito ao inconformismo impõe novas regras e precipita o casal para a separação, a bem da sanidade mental de ambos, a bem dos filhos e da dignidade pessoal de cada um.
Mudaram muitas coisas, mas o que basicamente tornou possível a quebra das regras de outrora foi a mudança de mentalidade e a autonomia financeira que as mulheres entretanto conquistaram.
A idade em que maior parte dos divórcios ocorre situa-se entre os trinta e os quarenta anos. E aqui é que as coisas se complicam para os divorciados(as) canenses. Não ignorando as dificuldades que os homens divorciados também sentem, sinto-me mais à vontade para falar delas, de nós, mulheres.
Uma mulher com cerca de 35 anos divorcia-se. Ultrapassada a fase emocional da questão pensa reorganizar a cabeça e relançar a sua vida amorosa, mas logo verifica que isso não é simples. Como a distância é pequena, o ex-marido não lhe sai da porta, ou à caça de uma sopita, ou porque quer ver o filho, ou porque teima em não levar a tralha e a cada necessidade invade a casa.
Isto aplica-se a quase todos. A casa, que ainda é dos dois, embora o usufruto seja dela e do filho, dá-lhes direitos de visitas repentinas, isto quando não vêm de mansinho matar saudades do sofá predilecto. Aparecem sem um telefonema, um aviso e sempre com fome. Às vezes fome de amor, estampada no rosto e nas mãos. E nós, eternamente maternais, condescendemos.
Menos frequentes mas de igual modo confrangedoras são as visitas dos avós paternos. A avó debita o discurso do costume, “olha o que cresceu o nosso netinho! E está cada vez mais parecido com o pai. Ó rapariga, nem imaginas como ele anda triste… ó João dá aí 20 euros p’ró menino”, o avô tira contrariado o dinheiro da carteira e continua a sondar os cantos à casa, na expectativa de encontrar rasto de macho cobridor. Sai-se de casa angustiada, a perguntarmo-nos quando cortamos definitivamente com estas visitas, mas lá fora a situação não melhora. Na rua, nos cafés, no mercado, enfim, em todo o lado, lá estão os cunhados, os amigos dele e, inevitavelmente, o próprio, o ex-marido. O puto corre para o pai e lá ficamos nós penduradas, na incerteza do gesto a adoptar: sentarmo-nos ao pé do ex-marido, como se o divórcio fosse um capricho, ou aguardarmos estupidamente de pé pelo fim dos afagos que o pai faz questão em eternizar? Preserve-se acima de tudo o rebento - Sr. Ilídio, uma bica dupla… por acaso não tem por aí o jornal? – ou então, em desespero, a desculpa esfarrapada do costume – anda, vamos embora que ainda tens que fazer os trabalhos de casa. E o puto que não, que não tem TPC. E nós à beira de um ataque de nervos.
Mas há mais. Canas é uma terra em que habitualmente os jovens casam cedo. Por volta dos vinte seis, vinte e sete anos, está tudo despachado. Os que restam ou são cromos ou algum problema devem ter, logo estão dispensados. Ora, digam-me lá para onde se vira uma divorciada com trinta e poucos anos? Pois, não se vira nem há quem a vire. Homens casados estão fora de questão, os divorciados trazem para a cama a ex-mulher, os filhos e até o cão, enfim, a nostalgia do casamento falhado; e os rapazitos novos, ainda que apetecíveis, não possuem a discrição recomendada. Mesmo assim, se porventura arranjarmos alguém concertado, sentimos logo os olhares censuráveis da populaça e o juízo crítico dos familiares, já para não falar da birra ciumenta do ex-marido. Perante isto, digam-me lá qual a solução para uma divorciada canense com trinta e poucos anos?
É por isso que amanhã vou a Lisboa ter com o meu homem da pizza. Isto se o meu ex-marido ficar com o miúdo e não ler este texto.
Boas minhocas e bom fim de semana para vocês também.
sexta-feira, abril 13, 2007
Ao meu estagiário
Fiz ontem 40 anos. Acordei com uma telha digna de viga reforçada.
Isto passar dos “inta” para os “enta” tem o seu quê. Habitua-te, pensei eu. Senti uma sensação de inconformismo atávico e a plena convicção de que o espelho começava a trair-me. O raio do espelho não me era fiel. Hoje reflectia alguém que não era eu.
Desci as escadas indisposta e dirigi-me à cozinha onde o meu marido e os miúdos já tomavam o pequeno-almoço.
Fiquei na expectativa que me saudassem efusivamente: “feliz aniversário querida”, “feliz aniversário mãe”. Para meu assombro ninguém se pronunciou. Só os bons-dias do costume e uma vaga alusão à gata que não deixa ninguém dormir por causa do cio.
Fui para o trabalho verdadeiramente desapontada. Já não bastava a angústia da “quarentona”, ainda por cima a indiferença do marido.
Cheguei à escola. Sou mais uma daquelas vítimas preferenciais das grandes opções do governo para diminuir o défice. Funcionária pública, professora do secundário, acedi ser orientadora de estágio para ver se colmatava, com os míseros 80€ que tal função remunera, a galopante subida da taxa de juro do crédito à habitação; já para não falar do congelamento da progressão na carreira e a estagnação do vencimento base que, em três anos, foi alvo de um aumento de 1,5%.
Tenho um estagiário simpático e inteligente. Depois de várias atribulações profissionais decidiu seguir a via do ensino e acabou colocado na minha escola, sobre a batuta cá da menina. Fui encontrá-lo sorridente junto à máquina do café.
- Bom dia e feliz aniversário – cumprimentou-me afectuoso.
Finalmente alguém se lembrou dos meus anos! Ainda que o facto não me trouxesse grande alegria a expressão dele conseguiu animar-me e a má disposição desvaneceu-se ligeiramente.
Tinha acabado o último tempo da manhã quando o estagiário se me dirigiu delicadamente anunciando um surpreendente convite para almoçar, “só a C. e eu”, sussurrou ele.
Embora ele me trate com deferência considero-o praticamente como um colega de trabalho. Tanto assim que, desde o início, fiz questão que me tratasse pelo meu nome, sem títulos nem salamaleques. Achei a observação “só a C. e eu” um pouco despropositada, mas esta malta nova tem códigos próprios e desvalorizei a impressão. Fomos a um lugar bastante reservado escolhido por ele. Para afastar a sensação de desconforto que ainda pairava sobre mim desde que tomei consciência da minha "nova" idade, bebi vinho. Divertimo-nos muito e, no caminho de volta, ele sugeriu:
- E se fossemos a minha casa? É mesmo aqui. Tenho um projecto sobre os currículos pedagógicos e gostava de ouvir a sua opinião.
Fosse pelo vinho ou por não ter nada de mais interessante para fazer, acedi. Enquanto saboreava um Porto e avaliava o trabalho ao computador, ele disse:
- Se não se importa, vou até o meu quarto vestir uma roupa mais confortável.
Pronunciou a frase com um sorriso terno e sedutor, reforçando com o olhar a sugestão atrevida que, pensava eu, lhe tinha escrutinado na intenção.
Pasmei. Passou-me um turbilhão de coisas pela cabeça. Mas a verdade é que me cresceu um ímpeto físico incontrolável, ao qual as palavras deram, inconscientemente, aprovação.
- Tudo bem. Fica à vontade - concedi cúmplice.
Arrependi-me imediatamente. As implicações no trabalho seriam negativas e o meu comportamento reprovável, quer à luz da minha consciência moral e profissional, quer no respeito que o meu marido e os meus filhos merecem. Por outro lado, a possibilidade de nos enrolarmos esgotar-se-ia aqui, nesta sala. O ano lectivo está a acabar, nunca mais o vejo e o corpo urge. Que raio, como o corpo urge! Isto devem ser ânsias da nova idade, gracejei interiormente.
Quarenta anos, um sofá e um estagiário! Busquei explicação que servisse de pilar a esta vontade censurável: estás fragilizada com esta coisa da idade e encontraste neste jovem sedutor a salvação para o envelhecimento. Afinal ainda és desejada. Este rapaz devolve-te o reflexo da vaidade que o espelho te nega, não é? Pois, pois…
Que se lixe. É a bem do ego, convenci-me, ainda que ciente de quão o corpo engana a mente. Conferi mentalmente o estado da depilação, a decência da roupa interior e ajeitei-me.
Decorridos mais ou menos cinco minutos, ele saiu do quarto. Carregava um bolo enorme. Atrás, vinha o meu marido seguido pelos meus filhos, amigos e alguns colegas da escola. Entoavam entusiásticos “ Parabéns a você…!!!”
E eu... lá estava, sentada no sofá da sala, em cuecas e sutiã, aguardando a minha iniciação de quarentona.
Nunca me hei-de esquecer. Estagiário, mesmo simpático e inteligente, só faz merda!
Boas minhocas
segunda-feira, abril 09, 2007
Crónicas da Galinha Riça - O Silêncio dos Inocentes
Impera um silêncio generalizado por estas bandas. Eu, por hábito e rigor profissionais, preciso de factos devidamente comprovados para exercer o mister que assumi aqui no Mulherio. No entanto, ultimamente, só algum juízo especulativo torna possível manter estas crónicas.
O pacto de silêncio entre a “presidente de lá” e o “presidente de cá” a que serenamente vamos assistindo foi tacitamente acordado depois de salvaguardadas duas cláusulas fundamentais na relação entre ambos e que basicamente determinam: eu vou fazendo, tu calas.
Não pensem que a assinatura deste pacto foi pacífica. O nosso presidente, intrépido como ele é, não é homem para ficar calado, muito menos a rogo de mulher. Reconhecendo que este acordo, baseado no silêncio e condicionado pela expressão vaga constante no documento “eu vou fazendo” não vinculava a presidente a qualquer compromisso tangível, exigiu que lhe fossem dadas garantias de que efectivamente o seu silêncio teria como contrapartida obra feita e da grande. Nada de passeios, rotundas, lâmpadas ou alcatrão. Queria algo que calasse não unicamente a sua pessoa mas que embasbacasse definitivamente os canenses. Era este o preço do silêncio.
Os preâmbulos do acordo foram diligenciados pelo gabinete jurídico da presidente que, susceptível à exigência do autarca, solicitou que este elaborasse um memorando com os grandes objectivos que ele tinha em mente para a sua freguesia. Seriam devidamente avaliados e por certo alcançar-se-ia um acordo favorável para ambas as partes.
Não levantou grande dificuldade enumerar as grandes obras e os projectos que o presidente ambicionava para Canas. A saber:
- Uma central de biomassa (em alternativa uma central atómica).
- O aeroporto, previsto para a OTA, a implementar entre Canas de Senhorim e a Aguieira.
- A passagem do TGV na linha da Beira-Alta.
- A realização da final da Liga dos Campeões no complexo desportivo de CS.
O nosso presidente apensou o rol de projectos ao protocolo da mudez e remeteu-o à presidente. Esta leu-o incrédula. Depois de fazer uns telefonemas a solicitar aconselhamento, ponderou a estratégia e chamou o presidente ao seu gabinete. Foi directa.
- Sr. presidente, algumas destas possibilidades estão fora de questão. É o caso da central de biomassa que já está planeada para a sede do município; o TGV, cujo traçado já está determinado e a final da Liga dos Campeões, que está fora do âmbito institucional do estado. Quanto à central nuclear, como sabe, o governo excluiu essa via do plano energético do país… portanto resta-lhe, aliás, resta-nos a construção do aeroporto que está previsto para a OTA.
O nosso presidente ficou mudo, mesmo antes de assinar o pacto de silêncio. Por esta é que ele não esperava. Tinha inscrito alguns exageros no "memo" para que, por obvia eliminação, a presidente cedesse a central de biomassa que lhe parecia bastante acessível. Agora deparava-se com a possibilidade megalómana de um aeroporto. Bem, se isto fosse avante recolhia à clausura da ordem das Carmelitas e fazia votos de silêncio para toda a vida. A voz da presidente tirou-o da estupefacção.
- Claro que será difícil demover o actual governo da intenção de o construir na OTA. Porém tive a confirmação das mais altas entidades do principal partido da oposição que envidarão todos os esforços para que a decisão sobre a localização do aeroporto seja revista. Para além disso receberam com bom grado a sugestão que aponta a sua fixação no interior beirão e prontificaram-se a enviar técnicos para iniciar os estudos preliminares... mas o que dava mesmo jeito era uma palavra de apoio do Presidente da República.
Ó que carago! Outra vez o Presidente da República. Será que hei-de ser eternamente perseguido por esta figura. Tudo se faz neste país, de bom e de mau, sem um ai do PR, mas quando nos toca a nós lá está o supra-sumo da nação de veto em riste a reclamar a cabeça dos inocentes – remoeu em pensamento o nosso presidente.
Destas reflexões não deu conta à presidente. Confiou nas suas boas intenções e, com alguma apreensão mas consciente que pouco mais poderia fazer, assinou o pacto e colocou a mordaça.
Adivinhando-lhe as preocupações a presidente serenou-o:
- Não se preocupe, este Presidente da República é cá dos nossos. Vai ver que não interfere. O importante é cumprir o tratado, portanto bico calado.
Nos últimos tempos temos assistido a grandes controversas sobre a localização do novo aeroporto, estimuladas exclusivamente por iniciativa do partido que apoia a presidente. Ainda é cedo para festejar, até porque “festejos antecipados dão sempre maus resultados”, como muito bem nós sabemos, mas agrada-me a ideia de que o mutismo do nosso presidente está a dar os seus frutos. Parece-me para breve o fim do silêncio dos inocentes. Já ouço o barulho das turbinas dos aviões lá para os lados do Paçal. Vrrruuuum. Vrrrruuummm. Ou serão as Bruxas do Paitor?
Bons repenicos
O pacto de silêncio entre a “presidente de lá” e o “presidente de cá” a que serenamente vamos assistindo foi tacitamente acordado depois de salvaguardadas duas cláusulas fundamentais na relação entre ambos e que basicamente determinam: eu vou fazendo, tu calas.
Não pensem que a assinatura deste pacto foi pacífica. O nosso presidente, intrépido como ele é, não é homem para ficar calado, muito menos a rogo de mulher. Reconhecendo que este acordo, baseado no silêncio e condicionado pela expressão vaga constante no documento “eu vou fazendo” não vinculava a presidente a qualquer compromisso tangível, exigiu que lhe fossem dadas garantias de que efectivamente o seu silêncio teria como contrapartida obra feita e da grande. Nada de passeios, rotundas, lâmpadas ou alcatrão. Queria algo que calasse não unicamente a sua pessoa mas que embasbacasse definitivamente os canenses. Era este o preço do silêncio.
Os preâmbulos do acordo foram diligenciados pelo gabinete jurídico da presidente que, susceptível à exigência do autarca, solicitou que este elaborasse um memorando com os grandes objectivos que ele tinha em mente para a sua freguesia. Seriam devidamente avaliados e por certo alcançar-se-ia um acordo favorável para ambas as partes.
Não levantou grande dificuldade enumerar as grandes obras e os projectos que o presidente ambicionava para Canas. A saber:
- Uma central de biomassa (em alternativa uma central atómica).
- O aeroporto, previsto para a OTA, a implementar entre Canas de Senhorim e a Aguieira.
- A passagem do TGV na linha da Beira-Alta.
- A realização da final da Liga dos Campeões no complexo desportivo de CS.
O nosso presidente apensou o rol de projectos ao protocolo da mudez e remeteu-o à presidente. Esta leu-o incrédula. Depois de fazer uns telefonemas a solicitar aconselhamento, ponderou a estratégia e chamou o presidente ao seu gabinete. Foi directa.
- Sr. presidente, algumas destas possibilidades estão fora de questão. É o caso da central de biomassa que já está planeada para a sede do município; o TGV, cujo traçado já está determinado e a final da Liga dos Campeões, que está fora do âmbito institucional do estado. Quanto à central nuclear, como sabe, o governo excluiu essa via do plano energético do país… portanto resta-lhe, aliás, resta-nos a construção do aeroporto que está previsto para a OTA.
O nosso presidente ficou mudo, mesmo antes de assinar o pacto de silêncio. Por esta é que ele não esperava. Tinha inscrito alguns exageros no "memo" para que, por obvia eliminação, a presidente cedesse a central de biomassa que lhe parecia bastante acessível. Agora deparava-se com a possibilidade megalómana de um aeroporto. Bem, se isto fosse avante recolhia à clausura da ordem das Carmelitas e fazia votos de silêncio para toda a vida. A voz da presidente tirou-o da estupefacção.
- Claro que será difícil demover o actual governo da intenção de o construir na OTA. Porém tive a confirmação das mais altas entidades do principal partido da oposição que envidarão todos os esforços para que a decisão sobre a localização do aeroporto seja revista. Para além disso receberam com bom grado a sugestão que aponta a sua fixação no interior beirão e prontificaram-se a enviar técnicos para iniciar os estudos preliminares... mas o que dava mesmo jeito era uma palavra de apoio do Presidente da República.
Ó que carago! Outra vez o Presidente da República. Será que hei-de ser eternamente perseguido por esta figura. Tudo se faz neste país, de bom e de mau, sem um ai do PR, mas quando nos toca a nós lá está o supra-sumo da nação de veto em riste a reclamar a cabeça dos inocentes – remoeu em pensamento o nosso presidente.
Destas reflexões não deu conta à presidente. Confiou nas suas boas intenções e, com alguma apreensão mas consciente que pouco mais poderia fazer, assinou o pacto e colocou a mordaça.
Adivinhando-lhe as preocupações a presidente serenou-o:
- Não se preocupe, este Presidente da República é cá dos nossos. Vai ver que não interfere. O importante é cumprir o tratado, portanto bico calado.
Nos últimos tempos temos assistido a grandes controversas sobre a localização do novo aeroporto, estimuladas exclusivamente por iniciativa do partido que apoia a presidente. Ainda é cedo para festejar, até porque “festejos antecipados dão sempre maus resultados”, como muito bem nós sabemos, mas agrada-me a ideia de que o mutismo do nosso presidente está a dar os seus frutos. Parece-me para breve o fim do silêncio dos inocentes. Já ouço o barulho das turbinas dos aviões lá para os lados do Paçal. Vrrruuuum. Vrrrruuummm. Ou serão as Bruxas do Paitor?
Bons repenicos
quinta-feira, abril 05, 2007
Desafio Pascal
A matemática é uma coisa fantástica, como se pode comprovar se forem bem sucedidos na resolução deste problema. Os cálculos não exigem grandes conhecimentos. Um aluno razoável a matemática que frequente o 9º ano tem obrigação de o resolver.
Eu tenho mais 21 anos que o meu filho.
Daqui a seis anos terei 5 vezes a idade dele.
Pergunta: Onde é que está o pai?
Aproveito para desejar a todos uma boa Páscoa.
Boas bicadas e bons cálculos
Eu tenho mais 21 anos que o meu filho.
Daqui a seis anos terei 5 vezes a idade dele.
Pergunta: Onde é que está o pai?
Aproveito para desejar a todos uma boa Páscoa.
Boas bicadas e bons cálculos
quarta-feira, abril 04, 2007
Interioridade
Canas sufoca. Não há serras nem aragens que lhe valham. Fechada sobre si mesma, esta vila só pode contar com os seus habitantes. Não é local privilegiado de passagem, não possui qualquer infra-estrutura cultural ou comercial que motive visitantes ou curiosos e disso se ressente a malta mais nova.
Lá vamos tendo esporadicamente uns eventos, como o Carnaval, o Canas em Movimento, a Feira Medieval, mas o dia a dia não tem soluções lúdicas ou culturais de relevo. Isto, se aos mais velhos, não traz grande preocupação, já aos mais novos, ávidos de animação e novidade, cria uma sensação de angústia e claustrofobia.
Chega o fim-de-semana e as soluções repetem-se: se estiver calor, vai-se até à piscina; se estiver frio arrastamo-nos pelos cafés. Não há alternativas, a não ser que a idade o permita e o diligente carrito do papá se faça à estrada (isto se o papá para aí estiver virado). Mas à noite! À noite é que a porca torce o rabo. Um único bar e sempre igual na frequência, nas músicas, nos vídeos, nos bêbados. Uf! Deprimente não é? O pior é que à noite o pai não cede a viatura, não vá algum maganão “afalfar” a menina e conspurcar os preciosos estofos.
Mas o pior de tudo é sobreviver ao Inverno. O clima não ajuda e a actividade mais excitante que se vislumbra é assar uma chouriça à lareira, regada com o tinto da casa. Do mal, o menos. Entretanto anseia-se pelo Verão e com ele a procissão festivaleira. Mochila às costas, corda aos sapatos que Vilar de Mouros, a Zambujeira ou outro qualquer lugar de culto, propiciam abençoadas fugas à monotonia. Aproveitar ao máximo pois outro Inverno se anuncia. Canas fica deserta, no Verão por ausência, no Inverno por recolhimento.
Chega-se por volta dos dezoito anos e se tudo correu bem os estudos clamam por outras paragens. Finalmente algum movimento. Pode ser Viseu, Coimbra, Guarda, Aveiro, Braga ou outra terra qualquer. Vai-se de muito boa vontade, fazer pela vida e pela diversão. Agora há que ter juizinho. Equilibrar muito bem o tempo dos estudos com os da borga para não se dar o caso de, logo no primeiro ano, começarem as cadeiras a acumular-se. Tem que se atinar, essa é que é essa, e quando damos conta estamos atulhados em exames, trabalhos, frequências, sem tempo para nos coçarmos, quanto mais para a folia. Ironicamente começamos a ter saudades dos tempos e da indigência da piscina e do Quebra. Olha que uma destas!
Depois, quando vamos a Canas pelo fim-de-semana ou pelas férias comentamos o facto com aqueles que por lá ficaram e damos connosco numa conversa de parvos. Eles a dizerem que nós devemos estar malucos, que aquilo lá pela cidade é que é bom, e nós a contra-argumentarmos que aqui é que se está bem. Claro que acabamos por perceber que ambas as interpretações são válidas pela diferente perspectiva que encerram. Mas não deixa de ser curioso.
O ideal era Canas desenvolver-se um pouco mais, mesmo correndo o risco de perdermos um pouco de tranquilidade. Isso traria mais população e provavelmente mais animação. Então justificar-se-iam ou pelo menos seriam economicamente viáveis investimentos lúdicos que multiplicassem as opções para a juventude e para os habitantes em geral. Estou a falar de um Cinema, de uma Discoteca, de um ou outro Bar, de mais actividades nocturnas ao fim de semana, eventos musicais, espectáculos, concertos, teatro… já estou a delirar! Mas como eu gostava de ter tudo isto na minha terra. Já agora um espaço multi-media… então é que os berloques se animavam!
Lá vamos tendo esporadicamente uns eventos, como o Carnaval, o Canas em Movimento, a Feira Medieval, mas o dia a dia não tem soluções lúdicas ou culturais de relevo. Isto, se aos mais velhos, não traz grande preocupação, já aos mais novos, ávidos de animação e novidade, cria uma sensação de angústia e claustrofobia.
Chega o fim-de-semana e as soluções repetem-se: se estiver calor, vai-se até à piscina; se estiver frio arrastamo-nos pelos cafés. Não há alternativas, a não ser que a idade o permita e o diligente carrito do papá se faça à estrada (isto se o papá para aí estiver virado). Mas à noite! À noite é que a porca torce o rabo. Um único bar e sempre igual na frequência, nas músicas, nos vídeos, nos bêbados. Uf! Deprimente não é? O pior é que à noite o pai não cede a viatura, não vá algum maganão “afalfar” a menina e conspurcar os preciosos estofos.
Mas o pior de tudo é sobreviver ao Inverno. O clima não ajuda e a actividade mais excitante que se vislumbra é assar uma chouriça à lareira, regada com o tinto da casa. Do mal, o menos. Entretanto anseia-se pelo Verão e com ele a procissão festivaleira. Mochila às costas, corda aos sapatos que Vilar de Mouros, a Zambujeira ou outro qualquer lugar de culto, propiciam abençoadas fugas à monotonia. Aproveitar ao máximo pois outro Inverno se anuncia. Canas fica deserta, no Verão por ausência, no Inverno por recolhimento.
Chega-se por volta dos dezoito anos e se tudo correu bem os estudos clamam por outras paragens. Finalmente algum movimento. Pode ser Viseu, Coimbra, Guarda, Aveiro, Braga ou outra terra qualquer. Vai-se de muito boa vontade, fazer pela vida e pela diversão. Agora há que ter juizinho. Equilibrar muito bem o tempo dos estudos com os da borga para não se dar o caso de, logo no primeiro ano, começarem as cadeiras a acumular-se. Tem que se atinar, essa é que é essa, e quando damos conta estamos atulhados em exames, trabalhos, frequências, sem tempo para nos coçarmos, quanto mais para a folia. Ironicamente começamos a ter saudades dos tempos e da indigência da piscina e do Quebra. Olha que uma destas!
Depois, quando vamos a Canas pelo fim-de-semana ou pelas férias comentamos o facto com aqueles que por lá ficaram e damos connosco numa conversa de parvos. Eles a dizerem que nós devemos estar malucos, que aquilo lá pela cidade é que é bom, e nós a contra-argumentarmos que aqui é que se está bem. Claro que acabamos por perceber que ambas as interpretações são válidas pela diferente perspectiva que encerram. Mas não deixa de ser curioso.
O ideal era Canas desenvolver-se um pouco mais, mesmo correndo o risco de perdermos um pouco de tranquilidade. Isso traria mais população e provavelmente mais animação. Então justificar-se-iam ou pelo menos seriam economicamente viáveis investimentos lúdicos que multiplicassem as opções para a juventude e para os habitantes em geral. Estou a falar de um Cinema, de uma Discoteca, de um ou outro Bar, de mais actividades nocturnas ao fim de semana, eventos musicais, espectáculos, concertos, teatro… já estou a delirar! Mas como eu gostava de ter tudo isto na minha terra. Já agora um espaço multi-media… então é que os berloques se animavam!
Boas bicadas
sexta-feira, março 30, 2007
1º Aniversário. A história de um berloque
*****

O Mulherio faz hoje um ano de vida. Tudo começou quando o meu Juvenal, entusiasmado com a blogosfera canense e pressionado por mim, conseguiu vislumbrar alguma vantagem para benefício próprio em instalar a NET cá em casa. Somítico como ele é, não pensem que foi de ânimo leve. Só com o ultimato de que lhe cortava a SporTV é que o consegui convencer.
Nos primeiros tempos ninguém o despegava da secretária. Andava tão encantado com o novo brinquedo que ia para a cama às tantas da madrugada, ainda por cima, para meu desconforto, extenuado de tanto bicar no teclado.
Claro que esta situação agastava o dia a dia da nossa relação, pois de que é que me servia um homem agarrado permanentemente ao computador! Isto para não falar do mau estar que se me instalara na alma. Trocada por uma maquineta e sei lá por quem mais – rancorava eu na solidão do quarto. Sim comecei a ficar ciumenta, pois bem sabia que não era a máquina que o prendia mas sim quem do lado de lá mo estava a prender.
A minha mãe sempre me disse que aos homens não se pode dar um palmo de terreno, que é como quem diz, um palmo de mulher alheia. Têm uma tendência inata para desbravar, dizia ela, enquanto me aconselhava terapias sexuais que a experiência lhe tinha ensinado e que surtiram pleno efeito com o meu pai, pese embora a hérnia discal que o atormentava desde os tempos da Guiné.
Foi com esta convicção que me comecei a sentar amiúde ao lado do meu Juvenal enquanto ele lá escrevinhava os seus comentários nos berloques. Para minha surpresa constatei que por aquelas bandas mulheres vestidas nem vê-las. Muito homem, ou pelo menos assim parecia pela forma como escreviam. Canas para aqui, Canas para ali, Zé Corrécio para além… enfim, muita política, mas ditada no masculino. Ainda me lembro dos saudosos Ironia, Pai Mouro, Granito, Mineiro, Bancadas (por onde andarão estas almas) e tantos outros que por lá masturbavam o intelecto. O meu Juvenal pode ter muitos defeitos mas posso jurar que não é de afinidades suspeitas com homens. Fiquei mais descansada. Era só mais um a quem tinha dado a doença do Concelho.
Como sou irrequieta das duas uma, ou o deixava em paz na sua saga blogueira ou alinhava no jogo e aprendia as artes de navegação requeridas para poder gozar daquele prazer virtual. Se o pensei, melhor o fiz. Com a ajuda do meu galo registei-me e comecei a debicar provocações e outros disparates por todos os berloque canenses que me tinham sido dados conhecer. Nasceu uma estrela, lol. A Achadiça.
Já não me lembro bem, mas parece que ao registar-me ficou desde logo criado o espaço que mais tarde ganharia os contornos do que hoje é o Mulherio.
O facto é que com o andar da carruagem, à medida que o meu entusiasmo pelos berloques crescia, o do meu Juvenal ia-se desvanecendo. Como nós mulheres temos o dom da ubiquidade viu-se assim concertada a nossa vida amorosa sem mais atropelos dignos de registo. Pode assim concluir-se com alguma maldadezinha que o Mulherio nasceu da minha insatisfação afectiva…
Aquando da primeira bicada no Mulherio, a 30 de Março de 2006, e uma vez que a presença feminina era quase nula, a minha ideia era cativar as mulheres canenses para este género de praça pública, onde pudéssemos, também nós, dizer de nossa justiça, falar das nossas preocupações, das nossas vivências… provocar, brincar, gozar, rir. Em suma, abordar tudo o que nos apetecesse. Já tinha falado do assunto à Riça e à Cris que alinharam na ideia e desde logo se disponibilizaram para contribuir, embora não muito convictas de que o projecto resultaria, especialmente porque me precipitei na estética do berloque, atribuindo-lhe referências que à partida poderiam condicionar alguns espíritos femininos mais sensíveis a estas coisas de galináceos. Mas já não dava para voltar atrás. Ficámos por iniciativa minha conotadas às galinhas e coladas ao galinheiro, mesmo depois de reformulado o design do berloque. Mas disto já dei conta em texto anterior, numa resposta a um mail de uma galinha nossa conterrânea mais indignada (ou brincalhona).
Depois de uma conversa com o meu Juvenal, rogando-lhe pela alma da mãezinha (é remédio santo) que mantivesse absoluto sigilo sobre a identidade das galinhas e se abstivesse de comentários comprometedores, arrancámos com o estilo ligeiro que inicialmente caracterizava as nossas bicadas.
Cedo nos apercebemos que os nossos receios eram fundados e que efectivamente a ideia inicial não vingaria. Tal facto não nos dissuadiu, até porque a Cris e a Riça começaram a delinear um trajecto bastante mais interessante que viria a consolidar a linha actual do Mulherio. Libertas do folclore genital inicial parece termos encontrado o rumo ideal para que este projecto ganhe consistência.
Hoje, passado um ano, as mulheres de Canas, com uma ou outra excepção, não aderiram à berlocosfera e muito menos visitam ou comentam o Mulherio. Creio, contudo, termos ao longo deste ano deixado marcas indeléveis no panorama da berlocosfera canense. Não sei o que o futuro nos reserva, mas posso assegurar-vos que nos divertimos e tentámos divertir todos aqueles que nos deram a graça da sua visita durante este nosso primeiro aninho. Obrigada a todos e a todas que nos acompanham. Boas bicadas, muitas minhocas e bons repenicos.
A presidente Achadiça, Galinha Riça e Cristalinda
Nos primeiros tempos ninguém o despegava da secretária. Andava tão encantado com o novo brinquedo que ia para a cama às tantas da madrugada, ainda por cima, para meu desconforto, extenuado de tanto bicar no teclado.
Claro que esta situação agastava o dia a dia da nossa relação, pois de que é que me servia um homem agarrado permanentemente ao computador! Isto para não falar do mau estar que se me instalara na alma. Trocada por uma maquineta e sei lá por quem mais – rancorava eu na solidão do quarto. Sim comecei a ficar ciumenta, pois bem sabia que não era a máquina que o prendia mas sim quem do lado de lá mo estava a prender.
A minha mãe sempre me disse que aos homens não se pode dar um palmo de terreno, que é como quem diz, um palmo de mulher alheia. Têm uma tendência inata para desbravar, dizia ela, enquanto me aconselhava terapias sexuais que a experiência lhe tinha ensinado e que surtiram pleno efeito com o meu pai, pese embora a hérnia discal que o atormentava desde os tempos da Guiné.
Foi com esta convicção que me comecei a sentar amiúde ao lado do meu Juvenal enquanto ele lá escrevinhava os seus comentários nos berloques. Para minha surpresa constatei que por aquelas bandas mulheres vestidas nem vê-las. Muito homem, ou pelo menos assim parecia pela forma como escreviam. Canas para aqui, Canas para ali, Zé Corrécio para além… enfim, muita política, mas ditada no masculino. Ainda me lembro dos saudosos Ironia, Pai Mouro, Granito, Mineiro, Bancadas (por onde andarão estas almas) e tantos outros que por lá masturbavam o intelecto. O meu Juvenal pode ter muitos defeitos mas posso jurar que não é de afinidades suspeitas com homens. Fiquei mais descansada. Era só mais um a quem tinha dado a doença do Concelho.
Como sou irrequieta das duas uma, ou o deixava em paz na sua saga blogueira ou alinhava no jogo e aprendia as artes de navegação requeridas para poder gozar daquele prazer virtual. Se o pensei, melhor o fiz. Com a ajuda do meu galo registei-me e comecei a debicar provocações e outros disparates por todos os berloque canenses que me tinham sido dados conhecer. Nasceu uma estrela, lol. A Achadiça.
Já não me lembro bem, mas parece que ao registar-me ficou desde logo criado o espaço que mais tarde ganharia os contornos do que hoje é o Mulherio.
O facto é que com o andar da carruagem, à medida que o meu entusiasmo pelos berloques crescia, o do meu Juvenal ia-se desvanecendo. Como nós mulheres temos o dom da ubiquidade viu-se assim concertada a nossa vida amorosa sem mais atropelos dignos de registo. Pode assim concluir-se com alguma maldadezinha que o Mulherio nasceu da minha insatisfação afectiva…
Aquando da primeira bicada no Mulherio, a 30 de Março de 2006, e uma vez que a presença feminina era quase nula, a minha ideia era cativar as mulheres canenses para este género de praça pública, onde pudéssemos, também nós, dizer de nossa justiça, falar das nossas preocupações, das nossas vivências… provocar, brincar, gozar, rir. Em suma, abordar tudo o que nos apetecesse. Já tinha falado do assunto à Riça e à Cris que alinharam na ideia e desde logo se disponibilizaram para contribuir, embora não muito convictas de que o projecto resultaria, especialmente porque me precipitei na estética do berloque, atribuindo-lhe referências que à partida poderiam condicionar alguns espíritos femininos mais sensíveis a estas coisas de galináceos. Mas já não dava para voltar atrás. Ficámos por iniciativa minha conotadas às galinhas e coladas ao galinheiro, mesmo depois de reformulado o design do berloque. Mas disto já dei conta em texto anterior, numa resposta a um mail de uma galinha nossa conterrânea mais indignada (ou brincalhona).
Depois de uma conversa com o meu Juvenal, rogando-lhe pela alma da mãezinha (é remédio santo) que mantivesse absoluto sigilo sobre a identidade das galinhas e se abstivesse de comentários comprometedores, arrancámos com o estilo ligeiro que inicialmente caracterizava as nossas bicadas.
Cedo nos apercebemos que os nossos receios eram fundados e que efectivamente a ideia inicial não vingaria. Tal facto não nos dissuadiu, até porque a Cris e a Riça começaram a delinear um trajecto bastante mais interessante que viria a consolidar a linha actual do Mulherio. Libertas do folclore genital inicial parece termos encontrado o rumo ideal para que este projecto ganhe consistência.
Hoje, passado um ano, as mulheres de Canas, com uma ou outra excepção, não aderiram à berlocosfera e muito menos visitam ou comentam o Mulherio. Creio, contudo, termos ao longo deste ano deixado marcas indeléveis no panorama da berlocosfera canense. Não sei o que o futuro nos reserva, mas posso assegurar-vos que nos divertimos e tentámos divertir todos aqueles que nos deram a graça da sua visita durante este nosso primeiro aninho. Obrigada a todos e a todas que nos acompanham. Boas bicadas, muitas minhocas e bons repenicos.
A presidente Achadiça, Galinha Riça e Cristalinda
Provocação 1
O prazer de uma mulher inteligente é fazer de idiota perante um idiota que faz de inteligente.
quarta-feira, março 28, 2007
O dia A
Aproxima-se o dia A
Será o dia da Amizade
Será o dia do Atrasado
Será o dia do Amor
Será o dia do Anormal
Será o dia da Angústia
Será o dia do Alcoólico
Será o dia da Árvore
Será o dia da Afeição
Será o dia da Afecto
Será o dia da Arte
Do Alimento
Do Ácaro
Da Alface
Da Amiba
Não!
Será o dia da Amizade
Será o dia do Atrasado
Será o dia do Amor
Será o dia do Anormal
Será o dia da Angústia
Será o dia do Alcoólico
Será o dia da Árvore
Será o dia da Afeição
Será o dia da Afecto
Será o dia da Arte
Do Alimento
Do Ácaro
Da Alface
Da Amiba
Não!
é o dia de Aniversário do Mulherio
no dia 30 de Março o Mulherio faz um ano
para breve toda a história deste berloque
contada na primeira pessoa
finalmente a verdade dos factos
revelações fantásticas que o deixarão surpreendido
não perca a queda de um mito
um depoimento assombroso
um testemunho arrepiante
inédito na berlocosfera
terça-feira, março 27, 2007
Alfa Pendular. Amores-perfeitos
20 anos de estarmos juntos
esta tarde se hão cumprido
para ti flores , perfumes
para mim, alguns livros
(...)
quis compor, para ti, uma canção
para cantar devagarinho
como o sono de meninos
e, e já vês, apenas palavras
sobre notas me hão saído
que tal e qual tu e eu
nem se importam, nem se estorvam
suportam-se amistosas
mas não são uma canção
Que gelada está esta casa!
(...)
Patxi Andion (adapt.)


esta tarde se hão cumprido
para ti flores , perfumes
para mim, alguns livros
(...)
quis compor, para ti, uma canção
para cantar devagarinho
como o sono de meninos
e, e já vês, apenas palavras
sobre notas me hão saído
que tal e qual tu e eu
nem se importam, nem se estorvam
suportam-se amistosas
mas não são uma canção
Que gelada está esta casa!
(...)
Patxi Andion (adapt.)

Foi assim, noites dentro: o som roufenho do antigo gira-discos debitava langores bem mais profundos que o sono dos amantes. Langores oceânicos, como diria Brell.
Já desisti de amores perfeitos, à excepção das flores de mesmo nome que só não curam os males que lhe estão na designação - os de amor.
Os atenienses usavam uma infusão de amores-perfeitos como calmante e eu, crente em mezinhas, usei-os por breve momento como extensão de mim própria no parapeito da janela do teu quarto. Talvez para que te aplacassem a incerteza de estares vivo, a urgente necessidade de constatares a existência do teu corpo no corpo dos outros. Fui eu que tas ofereci. Lembras-te? Não, já não te lembras que fui eu que te ofereci os amores-perfeitos.
Quando passo na tua rua suspendo o olhar por sobre os pináculos oitocentistas que arrematam a fachada apalaçada do n.º 42. Tenho ânsias de deixar ir o olhar mais além. Sei que basta desfocar o olhar desse plano para entrever ao fundo a janela do teu quarto. A janela onde deixei uma extensão de mim, o quarto onde trocámos prendas, o quarto onde me desembrulhei premente, mesmo sabendo quão éramos imperfeitos.
Para mim um livro, envergonhado. Notei na tua exagerada explicação o débito da oferta. Ou talvez fosse o título que te desconfortasse. Que ironia da tua parte ofereceres-me “Memórias das Minhas Putas Tristes”! Está bem, tens o benefício da dúvida. Fui eu que te fiz a apologia do Gabriel Garcia Márquez e ainda me sinto suficientemente menina para te agradar disfarçada de virgem. Não percebeste o sarcasmo nem podias perceber, pois, ao contrário de ti, eu já tinha lido o livro - antes me amasses em vigília, tudo não passaria de um sonho bom - pensei.
Há muito que a janela do teu quarto não se abre. O nosso amor já não mora ali. Com alguma imaginação entrevejo por detrás da vidraça uma adolescente virgem com flores a despontar do farto penteado. Ia jurar que eram amores-perfeitos, mas não, são saudades. São só saudades.
O gira-discos calou langores. Amanhecia. Ela desabraçou-se dele. Abriu a janela do quarto de par em par e apoiou-se no parapeito. Os amores-perfeitos na sua perfeição pareciam escarnecer dos amantes. Apeteceu-lhe amarfanhá-los. Uma sensação glacial percorreu-lhe todo o corpo. Fechou repentinamente a janela e correu para o conforto da cama. Que gelada está esta casa.
Já desisti de amores perfeitos, à excepção das flores de mesmo nome que só não curam os males que lhe estão na designação - os de amor.
Os atenienses usavam uma infusão de amores-perfeitos como calmante e eu, crente em mezinhas, usei-os por breve momento como extensão de mim própria no parapeito da janela do teu quarto. Talvez para que te aplacassem a incerteza de estares vivo, a urgente necessidade de constatares a existência do teu corpo no corpo dos outros. Fui eu que tas ofereci. Lembras-te? Não, já não te lembras que fui eu que te ofereci os amores-perfeitos.

Quando passo na tua rua suspendo o olhar por sobre os pináculos oitocentistas que arrematam a fachada apalaçada do n.º 42. Tenho ânsias de deixar ir o olhar mais além. Sei que basta desfocar o olhar desse plano para entrever ao fundo a janela do teu quarto. A janela onde deixei uma extensão de mim, o quarto onde trocámos prendas, o quarto onde me desembrulhei premente, mesmo sabendo quão éramos imperfeitos.
Para mim um livro, envergonhado. Notei na tua exagerada explicação o débito da oferta. Ou talvez fosse o título que te desconfortasse. Que ironia da tua parte ofereceres-me “Memórias das Minhas Putas Tristes”! Está bem, tens o benefício da dúvida. Fui eu que te fiz a apologia do Gabriel Garcia Márquez e ainda me sinto suficientemente menina para te agradar disfarçada de virgem. Não percebeste o sarcasmo nem podias perceber, pois, ao contrário de ti, eu já tinha lido o livro - antes me amasses em vigília, tudo não passaria de um sonho bom - pensei.
Há muito que a janela do teu quarto não se abre. O nosso amor já não mora ali. Com alguma imaginação entrevejo por detrás da vidraça uma adolescente virgem com flores a despontar do farto penteado. Ia jurar que eram amores-perfeitos, mas não, são saudades. São só saudades.
O gira-discos calou langores. Amanhecia. Ela desabraçou-se dele. Abriu a janela do quarto de par em par e apoiou-se no parapeito. Os amores-perfeitos na sua perfeição pareciam escarnecer dos amantes. Apeteceu-lhe amarfanhá-los. Uma sensação glacial percorreu-lhe todo o corpo. Fechou repentinamente a janela e correu para o conforto da cama. Que gelada está esta casa.
sexta-feira, março 23, 2007
Crónicas da Galinha Riça - A Linhagem
A linhagem está em perigo. Uma das galinhas-mor que, contrariando tendências, usurpa de poleiro considerável, foi, alegadamente, alvo de uma bicada insidiosa por parte de um correligionário atrevido. No calor da disputa pelo poleiro, à galinha Maria José de nada lhe valeu o apelido Pinto. O agressor não se deixou comover por referências infantis e arrancou-lhe umas quantas penas, tal foi a violência do confronto. E logo das mais lustrosas. As da dignidade.
Parece ter havido tamanha escaramuça naquele galinheiro que muitos dos galináceos residentes, independentemente dos privilégios que dispõem, ameaçam abandonar o prostíbulo. Embora poucos, ou talvez por isso, demonstram um forte sentido de competição por posições altaneiras na capoeira, até agora liderada por um galo de fraca competência, facto que abriu “portas” a outros voos rapineiros.
Esta herança competitiva ficou-lhes do nacionalismo expansionista aquando da domesticação do território, bandeira de que ainda hoje se orgulham e da qual julgam ser os verdadeiros herdeiros. Saudosos de questiúnculas monárquicas a propósito de direitos sucessórios ao trono, bastou o galo Portas, que alguns apelidam de “raposa”, voltar a abanar a cauda e desatou tudo a espavonear-se desenfreadamente, reformulando posições e alianças internas no intuito de melhor se servirem da gamela.
Veio em sua defesa, o suposto agressor, declarar que tudo não passou de uma questão de colorido. As suas penas não eram da mesma cor que as da ofendida e daí a razão da escaramuça - se eu não tivesse estas penas nada disto tinha acontecido – declarou, expondo o seu penar. Logo se gerou uma confusão de argumentos e insinuações que descambaram numa trapalhada com contornos racistas.
A linhagem desta família assegura aos seus membros um colorido generoso e as múltiplas colorações que detêm são comummente objecto de disputas preferenciais. Ou não fosse este galinheiro de direita, reduto de algumas tradições aristocratas pouco recomendáveis. Ora, segundo a linha que eles próprios advogam, as variantes cromáticas podem perfeitamente favorecer a natureza de determinado exemplar, em detrimento de outros cuja penugem se evidencie menos brilhante. Então se for monocromática e em tons pouco comuns ao género, o exemplar certamente não corresponde à linha genética desta família, circunstância que por certo pesou no desaguisado.
O que não entendo é a presença permitida daquele exemplar duvidoso no seio daquela família. Então tantos anos de afinação genealógica de tão dignos membros não foram suficientes para acautelar misturas inconvenientes? Andou o Mouzinho de Albuquerque na sua campanha por terras de África, a apurar a espécie livrando-os de gungunhanas e outros bijagós, para agora serem aviltados por infiltrações de elementos de ascendência suspeita e outros que, embora de casta aceitável, revelam comportamentos injustificáveis. Ele é o raposa Portas, habilidoso palaciano; ele é um tal galaró Monteiro, doninha destemperada; e agora, para cúmulo, um servo, aio da raposa, acaba por comprometer seriamente a linhagem familiar e corromper irreversivelmente a estirpe. Hilariante.
Quanto a este elemento destabilizador parece que houve negligência grosseira aquando da apreciação do seu processo de admissão. Foi-lhe concedido o benefício da dúvida por ter alegado que um seu antepassado pertenceu ao bando de saqueadores liderado por Viriato, estatuto que, após o Estado Novo ter reescrito a história e atribuído a Viriato honras de general, lhe conferiu de imediato acesso a posição privilegiada. Tal suposição carece de confirmação, mas desde já indicia falhas graves de recrutamento que, a bem do grupo familiar, convém corrigir.
Ainda assim, folgo saber que a galinha-mor optou pelo silêncio, resguardando-se da vergonha que a contenda prometia. No entanto, pondera renegar a família, gesto assaz curioso para quem, como ela, sabe que o suposto agressor sabe aquilo que ela sabe que ele sabe.
Bons repenicos
Parece ter havido tamanha escaramuça naquele galinheiro que muitos dos galináceos residentes, independentemente dos privilégios que dispõem, ameaçam abandonar o prostíbulo. Embora poucos, ou talvez por isso, demonstram um forte sentido de competição por posições altaneiras na capoeira, até agora liderada por um galo de fraca competência, facto que abriu “portas” a outros voos rapineiros.
Esta herança competitiva ficou-lhes do nacionalismo expansionista aquando da domesticação do território, bandeira de que ainda hoje se orgulham e da qual julgam ser os verdadeiros herdeiros. Saudosos de questiúnculas monárquicas a propósito de direitos sucessórios ao trono, bastou o galo Portas, que alguns apelidam de “raposa”, voltar a abanar a cauda e desatou tudo a espavonear-se desenfreadamente, reformulando posições e alianças internas no intuito de melhor se servirem da gamela.
Veio em sua defesa, o suposto agressor, declarar que tudo não passou de uma questão de colorido. As suas penas não eram da mesma cor que as da ofendida e daí a razão da escaramuça - se eu não tivesse estas penas nada disto tinha acontecido – declarou, expondo o seu penar. Logo se gerou uma confusão de argumentos e insinuações que descambaram numa trapalhada com contornos racistas.
A linhagem desta família assegura aos seus membros um colorido generoso e as múltiplas colorações que detêm são comummente objecto de disputas preferenciais. Ou não fosse este galinheiro de direita, reduto de algumas tradições aristocratas pouco recomendáveis. Ora, segundo a linha que eles próprios advogam, as variantes cromáticas podem perfeitamente favorecer a natureza de determinado exemplar, em detrimento de outros cuja penugem se evidencie menos brilhante. Então se for monocromática e em tons pouco comuns ao género, o exemplar certamente não corresponde à linha genética desta família, circunstância que por certo pesou no desaguisado.
O que não entendo é a presença permitida daquele exemplar duvidoso no seio daquela família. Então tantos anos de afinação genealógica de tão dignos membros não foram suficientes para acautelar misturas inconvenientes? Andou o Mouzinho de Albuquerque na sua campanha por terras de África, a apurar a espécie livrando-os de gungunhanas e outros bijagós, para agora serem aviltados por infiltrações de elementos de ascendência suspeita e outros que, embora de casta aceitável, revelam comportamentos injustificáveis. Ele é o raposa Portas, habilidoso palaciano; ele é um tal galaró Monteiro, doninha destemperada; e agora, para cúmulo, um servo, aio da raposa, acaba por comprometer seriamente a linhagem familiar e corromper irreversivelmente a estirpe. Hilariante.
Quanto a este elemento destabilizador parece que houve negligência grosseira aquando da apreciação do seu processo de admissão. Foi-lhe concedido o benefício da dúvida por ter alegado que um seu antepassado pertenceu ao bando de saqueadores liderado por Viriato, estatuto que, após o Estado Novo ter reescrito a história e atribuído a Viriato honras de general, lhe conferiu de imediato acesso a posição privilegiada. Tal suposição carece de confirmação, mas desde já indicia falhas graves de recrutamento que, a bem do grupo familiar, convém corrigir.
Ainda assim, folgo saber que a galinha-mor optou pelo silêncio, resguardando-se da vergonha que a contenda prometia. No entanto, pondera renegar a família, gesto assaz curioso para quem, como ela, sabe que o suposto agressor sabe aquilo que ela sabe que ele sabe.
Bons repenicos
terça-feira, março 20, 2007
Correio Registado
Escreve minha querida, escreve. Fosse eu tão bom a amar como tu a escrever.
Podes sempre derramar a espaços estorias do teu dia a dia, ornadas pela tua extraordinária capacidade de reflexão. Também podes aproveitar esse espaço para falares sobre coisas fúteis, ou outras, de que supões estar mal informada. Ligas-te à net e matas dois coelhos de uma cajadada... ou três: criação, informação e conhecimento... quase um tratado.
A tempos podes falar de mim, ou sobre mim. Com ou sem contemplação. Agradece a máquina, que perfilha novas páginas para consumir nas entranhas da mother board, entre bits e bytes de vocação lógica... será menino ou menina, homem ou mulher?(E Deus! Onde guarda a máquina Deus? Sim porque se somos feitos à Sua imagem deveria a percepção da máquina por nós criada reconhecer a simbiose e aconchegar no desktop um shortcut divino que nos levasse imediatamente a Ele, uma espécie de altar cibernético onde pudéssemos reclamar da sua distracção); agradeço eu, que me encontraria no alinhamento das tuas palavras escritas.
As palavras escritas são mais intensas, pausadas e pensadas, logo, reclamam mais atenção nas entrelinhas. A quantidade de coisas que se podem dizer nas entrelinhas de uma opinião escrita. Se a opinião for criativa e a estética sincopada está-se próximo da poesia. A poesia é quase isso, sistematizar as emoções por forma que o muito que lá não está é induzido pelo suficiente que lá está. Mas a narrativa pode fluir sem preocupações poéticas, ganhando assim a humanidade de quem as escreve e de quem as lê. Sem arte, só pelo prazer de reter e ser retido num momento de escrita, num momento de leitura.
Nunca é compremetedora esta máquina onde depositas horizontalmente as tuas vivências e preocupações. Vendo bem não passa de um depositário pseudo-inteligente que atenta erros de escrita. Fosse o Woord um pidesco manancial programático de virtudes e teríamos ondinhas a vermelho por todo o texto. Mas não é! Podemos sempre despejar verborreia nestas plataformas cor de leite cego, como no romance, e achar que ninguém nos lê. É um descanso.
(Ass. O homem da pizza)
PS: Quem não conhecer o meu homem da pizza recomendo a leitura, pela ordem indicada, das seguintes bicadas:
1ªO meu homem da pizza
2ªMexericos
3ªAinda o meu homem da pizza
segunda-feira, março 19, 2007
Homenagem ao Pai
Com a devida concordância da Rosalinda republicamos um poema da sua autoria como forma de homenagear todos os pais.
ANIVERSÁRIO
Hoje o meu pai fez 75 anos. Telefonei-lhe. O resto correu...
Tenho medo de perder a noção do tempo, de não ver a diferença...
Hoje marquei finalmente consulta num psiquiatra
Tenho 38 anos. Não conheço a minha máscara
Já tomei decisões difíceis, realizei, filosofei
Chorei
Como todas as histórias, esta também tem um começo.
Sempre tive o vício de procurar justificação para as coisas
Coisas simples como ir ao psiquiatra, sim,
Ou como ir à Fnac e sair de lá com ‘Mais Platão menos prozac’
Num daqueles sacos tipo ‘eu consumo cultura’...
De repente lembro-me que me pagam há 15 anos
Para ensinar filosofia
E não pagam o suficiente para livros
que servem apenas para me lembrar que essa terapia já a faço há anos.
Vou ao psiquiatra
É a minha primeira vez!
De repente lembro-me da justificação...
‘então diga lá, porque vem cá’, ou outra coisa qualquer
e percebo que é por não o saber que lá estou
assalta-me então o terror do discurso
tenho de ser coerente, cuidadosa, senão ele pensa que sou completamente louca
e receita-me ‘incapacidade total para gerir a minha vida’
ou acha-me suficientemente equilibrada e não me leva a sério.
Entre uma coisa e outra , uma profusão de medos e memórias
38 anos, dum extremo ao outro
da incerteza, à natureza morta no canto da lareira
do inesperado, à triste certeza de que nem sempre o que é esperado acontece
entre a fé e a força das apostas difíceis
e o fascínio dos abismos fáceis.
Quer que lhe faça um relatório? De quanto tempo é que disponho?
Falo-lhe desde quando?
da primeira vez que tive medo, da iniciação sexual, da estudante temerária
activista sindical, grevista (deixei-me disso),
profissional do ensino português há quinze anos.
Aviso-o já que não tenho dinheiro para muitas consultas
Se quiser salto já para o ensino e você diagnostica ‘esgotamento’
Sabe, mas eu gostava de ser levada mais a sério.
Fiz dois filhos. Um sobreviveu.
Fiz uma casa, várias... foram-se.
Casamento, divórcio, a perda, pouco dinheiro...
Já deve ter percebido porque é que eu marquei a consulta.
Porque o meu pai fez hoje 75 anos e está mais vivo do que eu.
Rosalinda
ANIVERSÁRIO
Hoje o meu pai fez 75 anos. Telefonei-lhe. O resto correu...
Tenho medo de perder a noção do tempo, de não ver a diferença...
Hoje marquei finalmente consulta num psiquiatra
Tenho 38 anos. Não conheço a minha máscara
Já tomei decisões difíceis, realizei, filosofei
Chorei
Como todas as histórias, esta também tem um começo.
Sempre tive o vício de procurar justificação para as coisas
Coisas simples como ir ao psiquiatra, sim,
Ou como ir à Fnac e sair de lá com ‘Mais Platão menos prozac’
Num daqueles sacos tipo ‘eu consumo cultura’...
De repente lembro-me que me pagam há 15 anos
Para ensinar filosofia
E não pagam o suficiente para livros
que servem apenas para me lembrar que essa terapia já a faço há anos.
Vou ao psiquiatra
É a minha primeira vez!
De repente lembro-me da justificação...
‘então diga lá, porque vem cá’, ou outra coisa qualquer
e percebo que é por não o saber que lá estou
assalta-me então o terror do discurso
tenho de ser coerente, cuidadosa, senão ele pensa que sou completamente louca
e receita-me ‘incapacidade total para gerir a minha vida’
ou acha-me suficientemente equilibrada e não me leva a sério.
Entre uma coisa e outra , uma profusão de medos e memórias
38 anos, dum extremo ao outro
da incerteza, à natureza morta no canto da lareira
do inesperado, à triste certeza de que nem sempre o que é esperado acontece
entre a fé e a força das apostas difíceis
e o fascínio dos abismos fáceis.
Quer que lhe faça um relatório? De quanto tempo é que disponho?
Falo-lhe desde quando?
da primeira vez que tive medo, da iniciação sexual, da estudante temerária
activista sindical, grevista (deixei-me disso),
profissional do ensino português há quinze anos.
Aviso-o já que não tenho dinheiro para muitas consultas
Se quiser salto já para o ensino e você diagnostica ‘esgotamento’
Sabe, mas eu gostava de ser levada mais a sério.
Fiz dois filhos. Um sobreviveu.
Fiz uma casa, várias... foram-se.
Casamento, divórcio, a perda, pouco dinheiro...
Já deve ter percebido porque é que eu marquei a consulta.
Porque o meu pai fez hoje 75 anos e está mais vivo do que eu.
Rosalinda
quinta-feira, março 15, 2007
O recado
Levava o passo estugado. Ia fazer compras à mãe e matraqueava interiormente o rol de aquisições – 10 papo-secos uma broa e dois quilos de açúcar, 10 papo-secos uma broa e dois quilos de açúcar. Se fosse a correr, talvez conseguisse tempo para dar uma perninha no adro da igreja – 10 papo-secos uma broa e dois quilos de açúcar, 10 papo-secos uma broa e dois quilos de açúcar.
Chegou ofegante mas de pouco lhe serviu o esforço. Ninguém à vista lá no sítio costumeiro, onde, entre golos, fintas e caneladas, se prestava a contrariar as recomendações maternas. Tinha 10 minutos de divertimento e nada para fazer deles.
Estampou-se-lhe o sorriso na face ao ver surgir, não os companheiros do adro, mas, vinda em idêntico recado, a avaliar pela caderneta de fiado, a Zeca do Lívio, toda de mansinho, numa eternidade de aproximação. O que fazer? Entrar ou não entrar no estabelecimento... se entrasse não se sentiria à vontade para falar com ela e o mais provável era ficarem por um cumprimento seco, como os 10 papo-secos encomendados – 10 papo-secos uma broa e dois quilos de açúcar; se não entrasse como iria justificar a sua inquieta presença ali no umbral da porta. Raios, que já lhe adivinhava a gozação – olha que a porta não cai - ou ainda pior, - às compras à mamã! - ou então, muito pior, a indiferença do costume. Estes pensamentos corriam-lhe vertiginosos e o embaraço crescia na proporção contrária à distância que o separava do inesperado encontro.
Zeca era moça despachada mas insensível aos atrevimentos dos rapazes, mesmo dos mais velhos. Já não era menina. A meninice tinha-lhe escapado no desconforto de um socalco de vinha em fim de Verão. Tarefeira ocasional, perdeu a curiosidade junto a cepa de videira anciã, vindima do fruto e do corpo. Não ficaram boas recordações dessa iniciação e, talvez por isso, a incomodassem os rapazes e os namoros.
Mas destas coisas não sabia o rapaz, que a julgava tão menina como as outras. Com ela sempre reprimiu fantasias ousadas e os próprios sonhos recusavam-se a colaborar com o desejo despontado.
Pressentiu-a. Levantou com dificuldade os olhos e esboçou um sorriso patético. Ela tomou consciência dele e, ligeira, subiu o degrau que antecedia a porta do estabelecimento. Hesitou. Virou-se devagar, olhou-o acintosa e disse:
– Tenho uma coisa para te contar. Espera-me no chafariz.
Nunca o tempo correu tão desacertado. A ânsia e o pânico apoderaram-se dele transformando aqueles breves minutos num desassossego aflitivo. Valeu-lhe a consolo da água ali à mão para acalmar o nervoso miudinho. Sentou-se no banco de pedra que existia nas traseiras do fontanário e serenou o que podia - 10 papo-secos uma broa e dois quilos de açúcar.
Ela chegou e contou:
– A minha prima de Lisboa pediu-me para te dizer que gosta de ti e que te desse um beijo por ela.
Ficaram silenciosos. Ela expectante. Ele especado.
– Não dizes nada- perguntou ela.
O rapaz remoeu silêncios - um beijo da prima! Eu não suporto a prima - pensou meio desiludido.
– Bem, toma lá um beijo que tenho de me ir embora.
Ele cedeu a face, triste e inconformado. Fosse por interior insatisfação, descontrolo emocional ou afoiteza irreflectida, não resistiu à aproximação dos lábios dela. Num gesto arrojado rodou ligeiramente a cara e beijou-a nos lábios. Afastou-se rapidamente e aguardou a estalada, não conhecesse ele a má vontade da rapariga para com estas liberdades.
Contra todas as suposições, Zeca arrumou traumas passados e, num arroubo de paixão reencontrada, agarrou os cabelos do rapaz e beijou-o longamente. Respirou, voltou a beijá-lo e afastou-se, sem olhar para trás.
O rapaz nunca tinha sido beijado. Tinha lido muito sobre este e outros assuntos complementares, mas desconhecia por completo o sabor e a textura de um beijo.
Demorou a digerir emoções e recuperou a placidez com dificuldade. Ainda incrédulo por tamanha dádiva, dirigiu-se mais calmo ao estabelecimento e pediu aquilo de que vinha a mando.
A mãe ainda hoje conta a história daquela vez em que o mandou comprar 10 papo-secos, uma broa e dois quilos de açúcar e ele apareceu com um saco enorme de açúcar e dois miseráveis papo-secos:
– Foi jogar à bola para o adro da igreja e baralhou tudo!
Chegou ofegante mas de pouco lhe serviu o esforço. Ninguém à vista lá no sítio costumeiro, onde, entre golos, fintas e caneladas, se prestava a contrariar as recomendações maternas. Tinha 10 minutos de divertimento e nada para fazer deles.
Estampou-se-lhe o sorriso na face ao ver surgir, não os companheiros do adro, mas, vinda em idêntico recado, a avaliar pela caderneta de fiado, a Zeca do Lívio, toda de mansinho, numa eternidade de aproximação. O que fazer? Entrar ou não entrar no estabelecimento... se entrasse não se sentiria à vontade para falar com ela e o mais provável era ficarem por um cumprimento seco, como os 10 papo-secos encomendados – 10 papo-secos uma broa e dois quilos de açúcar; se não entrasse como iria justificar a sua inquieta presença ali no umbral da porta. Raios, que já lhe adivinhava a gozação – olha que a porta não cai - ou ainda pior, - às compras à mamã! - ou então, muito pior, a indiferença do costume. Estes pensamentos corriam-lhe vertiginosos e o embaraço crescia na proporção contrária à distância que o separava do inesperado encontro.
Zeca era moça despachada mas insensível aos atrevimentos dos rapazes, mesmo dos mais velhos. Já não era menina. A meninice tinha-lhe escapado no desconforto de um socalco de vinha em fim de Verão. Tarefeira ocasional, perdeu a curiosidade junto a cepa de videira anciã, vindima do fruto e do corpo. Não ficaram boas recordações dessa iniciação e, talvez por isso, a incomodassem os rapazes e os namoros.
Mas destas coisas não sabia o rapaz, que a julgava tão menina como as outras. Com ela sempre reprimiu fantasias ousadas e os próprios sonhos recusavam-se a colaborar com o desejo despontado.
Pressentiu-a. Levantou com dificuldade os olhos e esboçou um sorriso patético. Ela tomou consciência dele e, ligeira, subiu o degrau que antecedia a porta do estabelecimento. Hesitou. Virou-se devagar, olhou-o acintosa e disse:
– Tenho uma coisa para te contar. Espera-me no chafariz.
Nunca o tempo correu tão desacertado. A ânsia e o pânico apoderaram-se dele transformando aqueles breves minutos num desassossego aflitivo. Valeu-lhe a consolo da água ali à mão para acalmar o nervoso miudinho. Sentou-se no banco de pedra que existia nas traseiras do fontanário e serenou o que podia - 10 papo-secos uma broa e dois quilos de açúcar.
Ela chegou e contou:
– A minha prima de Lisboa pediu-me para te dizer que gosta de ti e que te desse um beijo por ela.
Ficaram silenciosos. Ela expectante. Ele especado.
– Não dizes nada- perguntou ela.
O rapaz remoeu silêncios - um beijo da prima! Eu não suporto a prima - pensou meio desiludido.
– Bem, toma lá um beijo que tenho de me ir embora.
Ele cedeu a face, triste e inconformado. Fosse por interior insatisfação, descontrolo emocional ou afoiteza irreflectida, não resistiu à aproximação dos lábios dela. Num gesto arrojado rodou ligeiramente a cara e beijou-a nos lábios. Afastou-se rapidamente e aguardou a estalada, não conhecesse ele a má vontade da rapariga para com estas liberdades.
Contra todas as suposições, Zeca arrumou traumas passados e, num arroubo de paixão reencontrada, agarrou os cabelos do rapaz e beijou-o longamente. Respirou, voltou a beijá-lo e afastou-se, sem olhar para trás.
O rapaz nunca tinha sido beijado. Tinha lido muito sobre este e outros assuntos complementares, mas desconhecia por completo o sabor e a textura de um beijo.
Demorou a digerir emoções e recuperou a placidez com dificuldade. Ainda incrédulo por tamanha dádiva, dirigiu-se mais calmo ao estabelecimento e pediu aquilo de que vinha a mando.
A mãe ainda hoje conta a história daquela vez em que o mandou comprar 10 papo-secos, uma broa e dois quilos de açúcar e ele apareceu com um saco enorme de açúcar e dois miseráveis papo-secos:
– Foi jogar à bola para o adro da igreja e baralhou tudo!
domingo, março 11, 2007
Flash urbano
Da nossa amiga Rosalinda recebemos este “flash urbano” a propósito do Dia Internacional da Mulher.
Anteontem foi o meu dia. Não fosse uma mensagem no telemóvel, do género “se te orgulhas de ser mulher (...) envia esta mensagem a outra mulher para que não se quebre a corrente”, e teria escapado incólume à humilhação de tal dia e de tal mensagem.
É por me orgulhar de ser mulher que não preciso de fazer passar a mensagem e muito menos de pular de contente perante o dia que assinala, na história e na histeria do consumo actual, a marca da nossa histórica inferioridade.
Enviou-me a mensagem uma amiga que hoje me confessou, ingenuamente feliz, que anteontem, logo pela manhã, os quatro filhos lhe apareceram à porta com flores e sorrisos de parabéns pelo dia da mulher.
Motivo de orgulho para a mãe, o enorme entusiasmo trazia também o auto-convite para virem todos jantar com a mamã, acompanhados das respectivas namoradas, uma delas com a irmã, e ainda de um amigo pendura cuja mãe vive na província. Logo esse dia feliz se transformou numa incursão extra ao supermercado e o resto da tarde a preparar o maravilhoso jantar de comemoração para dez pessoas. Foi um dia ocupadíssimo, tendo em conta que de manhã deu aulas e no resto do dia deu de comer - mas muito engraçado – terminou ela alisando a borda da saia em recato de gesto e de ânsia.
Resignação, pensei eu. Deve ser resignação o que a traz tão orgulhosa e tão ligeira em querer passar a mensagem.
Rosalinda
sexta-feira, março 09, 2007
Dia Internacional da Mulher
Passou mais um dia, igual a tantos outros, mas diferente, porque dedicado à mulher.
Em verdade, todos estes dias em que se evoca ou celebra qualquer coisa são maioritariamente ineficazes e roçam invariavelmente a hipocrisia. Relativamente ao Dia Internacional da Mulher, não duvido das boas intenções dos seus criadores ou das organizações que, aproveitando a data, alertam para os problemas directa ou indirectamente associados à referência que se comemora. O que me causa indiferença é a institucionalização generalizada de dias que celebram as mais disparatadas causas e os mais inusitados “objectos”, até por negação, como é o caso do Dia do Não Fumador e muitos outros de rebuscada inspiração. Nunca lhes descobri qualquer utilidade, a não ser um ligeiro reflexo da má consciência que nos toca a todos, por inércia ou comodismo, quando o assunto vem à baila.
As mulheres, todos sabemos, ainda são discriminadas, quer seja no acesso ao mundo do trabalho, a cargos, funções, à remuneração, etc. etc., e em determinadas países e culturas, privadas de direitos fundamentais, como o acesso à escola, a prática religiosa, o voto, o exercício da política, a auto-determinação.
Nunca são demais os esforços desenvolvidos para inverter essa tendência predominantemente masculina em subjugar a mulher e reduzir o seu estatuto social a mera procriadora. E, mesmo aí, alguns homens arvoram-se em detentores absolutos da ética e da moral para as limitar no exercício da livre escolha sobre si próprias. Disto se deu conta, em Portugal, na discussão que antecedeu a votação do referendo sobre a IVG. Vi muitos homens preocupados com a dignidade do feto, mas, por onde andam esses mesmos arautos da defesa da condição humana, quando as mulheres são manietadas, violadas, espancadas, apedrejadas, excisadas, traficadas, escravizadas etc. etc.?
Não quero fazer da mulher uma vítima nem do homem carrasco, mas não posso deixar de pensar que o poder sempre foi exclusivo dos homens e foram estes que, ao longo dos tempos, tentaram limitar por iniciativa, negligência ou temor o papel da mulher na sociedade.
Por todas as mulheres que lutaram e morreram na defesa dos seus legítimos direitos queiramos dedicar não um, mas 365 dias de merecida evocação. Para as que ainda lutam e que ainda sofrem de discriminação e de violência física e psíquica, todos os dias são dias da mulher. Façamos de cada um mais um passo na caminhada pela igualdade na diferença.
Em verdade, todos estes dias em que se evoca ou celebra qualquer coisa são maioritariamente ineficazes e roçam invariavelmente a hipocrisia. Relativamente ao Dia Internacional da Mulher, não duvido das boas intenções dos seus criadores ou das organizações que, aproveitando a data, alertam para os problemas directa ou indirectamente associados à referência que se comemora. O que me causa indiferença é a institucionalização generalizada de dias que celebram as mais disparatadas causas e os mais inusitados “objectos”, até por negação, como é o caso do Dia do Não Fumador e muitos outros de rebuscada inspiração. Nunca lhes descobri qualquer utilidade, a não ser um ligeiro reflexo da má consciência que nos toca a todos, por inércia ou comodismo, quando o assunto vem à baila.
As mulheres, todos sabemos, ainda são discriminadas, quer seja no acesso ao mundo do trabalho, a cargos, funções, à remuneração, etc. etc., e em determinadas países e culturas, privadas de direitos fundamentais, como o acesso à escola, a prática religiosa, o voto, o exercício da política, a auto-determinação.
Nunca são demais os esforços desenvolvidos para inverter essa tendência predominantemente masculina em subjugar a mulher e reduzir o seu estatuto social a mera procriadora. E, mesmo aí, alguns homens arvoram-se em detentores absolutos da ética e da moral para as limitar no exercício da livre escolha sobre si próprias. Disto se deu conta, em Portugal, na discussão que antecedeu a votação do referendo sobre a IVG. Vi muitos homens preocupados com a dignidade do feto, mas, por onde andam esses mesmos arautos da defesa da condição humana, quando as mulheres são manietadas, violadas, espancadas, apedrejadas, excisadas, traficadas, escravizadas etc. etc.?
Não quero fazer da mulher uma vítima nem do homem carrasco, mas não posso deixar de pensar que o poder sempre foi exclusivo dos homens e foram estes que, ao longo dos tempos, tentaram limitar por iniciativa, negligência ou temor o papel da mulher na sociedade.
Por todas as mulheres que lutaram e morreram na defesa dos seus legítimos direitos queiramos dedicar não um, mas 365 dias de merecida evocação. Para as que ainda lutam e que ainda sofrem de discriminação e de violência física e psíquica, todos os dias são dias da mulher. Façamos de cada um mais um passo na caminhada pela igualdade na diferença.
segunda-feira, março 05, 2007
Crónicas da Galinha Riça - O Delfim
Já estávamos tão habituadas às suas bicaditas que foi com grande tristeza e até com algum inconformismo que aceitámos a evidência. O berloqueiro-mor cá da nossa praça evadiu-se ou esvaiu-se, conforme queiramos.
Mas não nos surpreendeu. As estratégias pessoais dos aspirantes a uma carreira política têm destas coisas. Baseados no ciclo da reviravolta eleitoral, os carreiristas expõem-se, escondem-se, migram, imigram e emigram conforme conveniências partidárias e ambições pessoais. Usam frequentemente os meios de comunicação para relançar as suas carreiras, porém, quando queimados na contenda política ou apanhados com a boca na botija, fogem da televisão e dos jornais como o diabo foge da cruz, almejando o esquecimento que lhes trará a redenção futura. Destes, diz-se que fazem a travessia do deserto, como se tal ausência lhes purificasse os erros, ou, no último caso, lhes expiasse os pecados e lhes devolvesse virtudes que nunca tiveram. Coelho na toca não encontra chumbo.
À falta de televisões e jornais aqui no burgo, o nosso paladino aprendiz de feiticeiro, expôs-se publicamente nos berloques cá da terra, angariando reputação e protagonismo notórios. Ora como articulista, ora como comentador, alvitrava de sua justiça a torto e a direito e, atrevo-me a dizer, quase fazia doutrina, não estivesse do lado errado da barricada.
Nas alturas mais conturbadas da cena política canense tentou com o seu voluntarismo operacional atenuar a fogueira que ardia sem controlo e que queimava uns e outros, à esquerda, ao centro e à direita, mas, o combustível que a alimentava era oleoso e quanto mais água deitava na fervura mais a labareda se revelava descontrolada. Acabou enredado no emaranhado da política interna e chamuscado naquele fogaréu fratricída, pois, para mal dos seus pecados, a sua costela rosa era comprometedora e a malta não lhe perdoou a matiz.
Agora, talvez inspirado pela mestria dos mentores nacionais, este dinâmico e bem sucedido berloquista eclipsou-se. Parece ter optado pela estratégia da descrição e do distanciamento, quem sabe, já a pensar na sucessão política que a sua condição de delfim propicia.
Confrontado com a vulgarização a que se permitiu, perfeitamente contrária às regras mais básicas que a credibilidade política exige, optou por reter ímpetos entusiastas e rastos embaraçosos. Para evitar a fulanização a que a exposição berloqueira o sujeitava, afastou-se destas andanças, buscando no deserto o branqueamento do passado irrequieto e truculento, pouco promissor às aspirações políticas que anseia.
É uma pena, pois perdeu-se um bom berloqueiro e não vamos ganhar por certo um bom político.
Bons repenicos
Mas não nos surpreendeu. As estratégias pessoais dos aspirantes a uma carreira política têm destas coisas. Baseados no ciclo da reviravolta eleitoral, os carreiristas expõem-se, escondem-se, migram, imigram e emigram conforme conveniências partidárias e ambições pessoais. Usam frequentemente os meios de comunicação para relançar as suas carreiras, porém, quando queimados na contenda política ou apanhados com a boca na botija, fogem da televisão e dos jornais como o diabo foge da cruz, almejando o esquecimento que lhes trará a redenção futura. Destes, diz-se que fazem a travessia do deserto, como se tal ausência lhes purificasse os erros, ou, no último caso, lhes expiasse os pecados e lhes devolvesse virtudes que nunca tiveram. Coelho na toca não encontra chumbo.
À falta de televisões e jornais aqui no burgo, o nosso paladino aprendiz de feiticeiro, expôs-se publicamente nos berloques cá da terra, angariando reputação e protagonismo notórios. Ora como articulista, ora como comentador, alvitrava de sua justiça a torto e a direito e, atrevo-me a dizer, quase fazia doutrina, não estivesse do lado errado da barricada.
Nas alturas mais conturbadas da cena política canense tentou com o seu voluntarismo operacional atenuar a fogueira que ardia sem controlo e que queimava uns e outros, à esquerda, ao centro e à direita, mas, o combustível que a alimentava era oleoso e quanto mais água deitava na fervura mais a labareda se revelava descontrolada. Acabou enredado no emaranhado da política interna e chamuscado naquele fogaréu fratricída, pois, para mal dos seus pecados, a sua costela rosa era comprometedora e a malta não lhe perdoou a matiz.
Agora, talvez inspirado pela mestria dos mentores nacionais, este dinâmico e bem sucedido berloquista eclipsou-se. Parece ter optado pela estratégia da descrição e do distanciamento, quem sabe, já a pensar na sucessão política que a sua condição de delfim propicia.
Confrontado com a vulgarização a que se permitiu, perfeitamente contrária às regras mais básicas que a credibilidade política exige, optou por reter ímpetos entusiastas e rastos embaraçosos. Para evitar a fulanização a que a exposição berloqueira o sujeitava, afastou-se destas andanças, buscando no deserto o branqueamento do passado irrequieto e truculento, pouco promissor às aspirações políticas que anseia.
É uma pena, pois perdeu-se um bom berloqueiro e não vamos ganhar por certo um bom político.
Bons repenicos
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
"Delirius Tremens"

Estava eu a magicar um comentário ao texto "Delírios" da minha amiga Achadiça, quando reparo que o "Paulo", comentador que me parece ser novato aqui no galinheiro, em poucas palavras, disse aquilo que me ia na alma. Para quem não leu aqui vai:
Paulo disse... "desordens no sono, episódios de alucinações e uma variedade de desconfortos físicos são sintomas de uma síndrome muitas vezes referida como "delirius tremens". Muitas vezes têm origem em hábitos excessivos e continuados de consumo de álcool e acontecem especialmente quando a pessoa afectada é privada desse consumo. Achadiça, retome urgentemente os seus hábitos para que a serenidade lhe devolva a precária sensatez."
Pois é cara amiga, a tua doença pode ter sido gripe, mas as alucinações resultaram da privação etílica que os antibióticos obrigam. Sempre te disse que esses hábitos ainda te trariam dissabores.
Pois eu não fui afectada por nenhuma doença nem sofro ressacas de privação. Entendo perfeitamente os efeitos perversos da maleita que te afectou e, pelos vistos, também vitimou outros pacences que, na tentativa de manter alguma decência perante amigos e familiares de visita, optaram por reduzir substancialmente o habitual consumo de álcool. Claro que, de imediato o organismo estranhou e desencadeou a tal síndrome delírius tremens, fenómeno que vos granjeou percepções ilusórias que no fundo reflectem sintomas de uma crise aguda de desespero e recusa da realidade quando confrontados com evidências incontornáveis.
A Achadiça, inconformada com o fracasso do seu bairro, tenta disfarçar a derrota e escamotear comportamentos, invertendo análises e subvertendo a verdade dos factos.
Na sua argumentação, alega que o Paço ostentava uma frente de marcha blá blá blá blá. Ora o que se podia ver ostensivamente era umas quantas baianas completamente desenquadradas, no espírito e no traje, arrastando farpelas de confecção duvidosa e origem suspeita. Depois, a própria organização da marcha transmitia a ideia de uma completa desunião, tal era o espaço vazio deixado entre os carros e a colocação dispersa dos grupos no cortejo. Às tantas já não se percebia se era o Paço ou alguma produção independente.
Quanto às supostas representações que a Achadiça considera genuínas e criativas, não passaram de fracas e desinspiradas ideias. Ao contrário de anos anteriores, a costumeira equipa do Amef e C.ª, folgou na inspiração e apresentou um carro sem brilho nem cor (exageraram no branco e nem as olheiras do Amef salvaram a pintura).
Não me vou alongar na apreciação dos carros, mas havia um que me pareceu particularmente atraente. Um tractor John Deere de cor verde, série 5015, motor PowerTech com certificado de emissões II, potência de 83 CV. e uma cilindrada de 4,5 litros. Com disposição ergonómica dos comandos, excelente visibilidade periférica (320°) e baixo nível sonoro (inferior a 78 dB).
Pareceu-me que seria efectivamente o único carro decente que o Paço integrava no seu corso, não fora a sua baixa performance sonora ter comprometido o desempenho final em pleno despique. Não é que o raio do tractor, fiel ao seu doce ronronar, se recusou a estrondear devidamente na hora do aperto, obrigando os seus acólitos a remeterem rapidamente Rua do Paço afora, por forma que a vergonha passasse despercebida. Qual compromisso, qual honra, qual carácter! Tivesse este tractor de nova geração os pergaminhos sonoros dos seus antepassados e tão depressa ninguém o tirava dali. Mas estas modernices ecológicas é no que dão. Lá foram debitar os fracos decibeis para onde fosse possível ouvi-los. Vão, vão lá carpir mágoas para o vosso bairro. Adeus e desculpem qualquer coisinha, ehehehe.
Fizemos nós a festa e bem continuada noite dentro, com uma movida fantástica entre o Quebra e o Mercado. A iniciativa levada a cabo pelo Square Impact revelou-se um êxito, comprovando mais uma vez quem detém a iniciativa e torna o nosso carnaval cada vez mais atractivo. A malta do Paço por respeito lá foi dar uma espreitada ao seu baile desejando interiormente que terminasse o mais rápido possível para assim poderem dirigir-se ao Rossio, único local onde efectivamente se vivia o verdadeiro espírito carnavalesco. Entre música, representações de rua, convívio, espectáculos e cavaqueira, as grandes noites do carnaval tiveram lugar no Rossio e prolongaram-se na diversidade das iniciativas que aí se desenrolavam, contagiando com cor, alegria e entusiasmo todos os participantes. Uma verdadeira festa, coroada de sucesso e fantasia.
Mas por esta altura a Achadiça deveria estar a ressacar dos seus delírios, tomando como verdadeiros os falsos vislumbres gloriosos que a sua prodigiosa imaginação entreviu. Pois, minha querida amiga, aconselho-te vivamente uma cura de sono ou então uma terapia exaustiva nos Alcoólicos Anónimos. Acho que há uma consulta em Abravezes. Eu levo-te lá para não prevaricares no caminho :).
Para terminar: pela presença, pela entrega, pelo dinamismo, pela inovação e pelo entusiasmo, viva o meu Rossio adorado.
Boas minhocas
Paulo disse... "desordens no sono, episódios de alucinações e uma variedade de desconfortos físicos são sintomas de uma síndrome muitas vezes referida como "delirius tremens". Muitas vezes têm origem em hábitos excessivos e continuados de consumo de álcool e acontecem especialmente quando a pessoa afectada é privada desse consumo. Achadiça, retome urgentemente os seus hábitos para que a serenidade lhe devolva a precária sensatez."
Pois é cara amiga, a tua doença pode ter sido gripe, mas as alucinações resultaram da privação etílica que os antibióticos obrigam. Sempre te disse que esses hábitos ainda te trariam dissabores.
Pois eu não fui afectada por nenhuma doença nem sofro ressacas de privação. Entendo perfeitamente os efeitos perversos da maleita que te afectou e, pelos vistos, também vitimou outros pacences que, na tentativa de manter alguma decência perante amigos e familiares de visita, optaram por reduzir substancialmente o habitual consumo de álcool. Claro que, de imediato o organismo estranhou e desencadeou a tal síndrome delírius tremens, fenómeno que vos granjeou percepções ilusórias que no fundo reflectem sintomas de uma crise aguda de desespero e recusa da realidade quando confrontados com evidências incontornáveis.
A Achadiça, inconformada com o fracasso do seu bairro, tenta disfarçar a derrota e escamotear comportamentos, invertendo análises e subvertendo a verdade dos factos.
Na sua argumentação, alega que o Paço ostentava uma frente de marcha blá blá blá blá. Ora o que se podia ver ostensivamente era umas quantas baianas completamente desenquadradas, no espírito e no traje, arrastando farpelas de confecção duvidosa e origem suspeita. Depois, a própria organização da marcha transmitia a ideia de uma completa desunião, tal era o espaço vazio deixado entre os carros e a colocação dispersa dos grupos no cortejo. Às tantas já não se percebia se era o Paço ou alguma produção independente.
Quanto às supostas representações que a Achadiça considera genuínas e criativas, não passaram de fracas e desinspiradas ideias. Ao contrário de anos anteriores, a costumeira equipa do Amef e C.ª, folgou na inspiração e apresentou um carro sem brilho nem cor (exageraram no branco e nem as olheiras do Amef salvaram a pintura).
Não me vou alongar na apreciação dos carros, mas havia um que me pareceu particularmente atraente. Um tractor John Deere de cor verde, série 5015, motor PowerTech com certificado de emissões II, potência de 83 CV. e uma cilindrada de 4,5 litros. Com disposição ergonómica dos comandos, excelente visibilidade periférica (320°) e baixo nível sonoro (inferior a 78 dB).
Pareceu-me que seria efectivamente o único carro decente que o Paço integrava no seu corso, não fora a sua baixa performance sonora ter comprometido o desempenho final em pleno despique. Não é que o raio do tractor, fiel ao seu doce ronronar, se recusou a estrondear devidamente na hora do aperto, obrigando os seus acólitos a remeterem rapidamente Rua do Paço afora, por forma que a vergonha passasse despercebida. Qual compromisso, qual honra, qual carácter! Tivesse este tractor de nova geração os pergaminhos sonoros dos seus antepassados e tão depressa ninguém o tirava dali. Mas estas modernices ecológicas é no que dão. Lá foram debitar os fracos decibeis para onde fosse possível ouvi-los. Vão, vão lá carpir mágoas para o vosso bairro. Adeus e desculpem qualquer coisinha, ehehehe.
Fizemos nós a festa e bem continuada noite dentro, com uma movida fantástica entre o Quebra e o Mercado. A iniciativa levada a cabo pelo Square Impact revelou-se um êxito, comprovando mais uma vez quem detém a iniciativa e torna o nosso carnaval cada vez mais atractivo. A malta do Paço por respeito lá foi dar uma espreitada ao seu baile desejando interiormente que terminasse o mais rápido possível para assim poderem dirigir-se ao Rossio, único local onde efectivamente se vivia o verdadeiro espírito carnavalesco. Entre música, representações de rua, convívio, espectáculos e cavaqueira, as grandes noites do carnaval tiveram lugar no Rossio e prolongaram-se na diversidade das iniciativas que aí se desenrolavam, contagiando com cor, alegria e entusiasmo todos os participantes. Uma verdadeira festa, coroada de sucesso e fantasia.
Mas por esta altura a Achadiça deveria estar a ressacar dos seus delírios, tomando como verdadeiros os falsos vislumbres gloriosos que a sua prodigiosa imaginação entreviu. Pois, minha querida amiga, aconselho-te vivamente uma cura de sono ou então uma terapia exaustiva nos Alcoólicos Anónimos. Acho que há uma consulta em Abravezes. Eu levo-te lá para não prevaricares no caminho :).
Para terminar: pela presença, pela entrega, pelo dinamismo, pela inovação e pelo entusiasmo, viva o meu Rossio adorado.
Boas minhocas
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
Delírios
Adoeci neste carnaval. No estertor da gripe vi-me confrontada com febres altas e delírios surrealistas, situação que por certo adulterou completamente a minha interpretação dos factos. Não concebo outra explicação para os acontecimentos que me foram dados apreciar.
Portanto, desculpem, se a minha alucinação febril moldou os acontecimentos na forma como os presenciei.
Tudo começou no Domingo de carnaval. O Paço causava furor com uma excelente frente de marcha, onde ponteavam belos trajes e uma alegria inigualável. Depois, ao longo da marcha podiam apreciar-se inúmeros grupos foliões que mostravam originalidade e bom gosto. Os carros alegóricos de elevado recorte artístico, complementavam um corso fantástico que, incorporando a tradicional Banda de Música, arrematava com uma alusão satírica às condições do sistema de saúde. Pelo meio podíamos apreciar o excelente efeito produzido pelo movimentos dos golfinhos num carro simples mas muito bem conseguido, a divertida sátira da “Bandalhoca”, os "ghostbusters" dos computadores, as “Floribelas”, enfim, uma diversidade de referências e representações que asseguraram a genuinidade do nosso carnaval.
Por oposição, o Rossio causava dó. Lá levava a marchita meia composta, mas desfilando sem graça nem criatividade. Os carros eram de bradar aos céus e, foi nesta atitude que lá consegui vislumbrar um carrito jeitoso, único na mostra. Uma águia mijona, que a cada movimento mecânico, derramava óleo por tudo quanto era lado. Ainda têm muito que aprender para se meterem nestas coisas mecânicas.
Mas a coisa até passava despercebida se a páginas tantas não dou comigo a ouvir a marcha do Rossio interpretada por uns rapazes enfastiados e pouco convictos do papel que estavam a representar. Lá iam vestidos no rigor do funeral, sem uma fantasia, uma pintura, algo que nos indicasse que integravam efectivamente um cortejo carnavalesco. Uma tristeza. Ressalvo o cantor que tentava contrariar aquele triste quadro sonoro.
Com o passar dos dias a febre foi aumentando, mas mesmo assim, na terça-feira, lá fui até às Quatro-Esquinas para assistir ao despique. Mas a febre não perdoa e com ela veio o completo delírio. Então não é que, e juro que foi isto que vi, ou que a alucinação deixou entrever, dou com o Rossio a gritar histericamente sozinho, abandonado à sua teimosia e reduzido a meia dúzia de gatos-pingados. Ainda surpresos, interrogavam-se frustrados sobre o porquê de tamanha ingratidão, logo este ano que cumpriram meticulosamente o acordado na reunião preliminar entre as direcções de ambos os bairros. Já não vale a pena sermos honestos e cumpridores da nossa palavra, comentavam.
Consciente que a alucinação febril estava a toldar-me a mioleira fui meter-me rapidamente entre mantas para ver se recuperava a tempo de dar uma saltada ao baile do Paço que, como sabemos vem perdendo adeptos de ano para ano e como tal convém apoiar e participar. Mas que raio! De novo o delírio febril atacou sem dó nem piedade. Então não é que o Salão dos Bombeiros estava completamente cheio. Velhos e novos dançavam acaloradamente ao ritmo das marchas e outras músicas adequadas.
Definitivamente, o meu estado de saúde deteriorava-se de hora a hora e foi com alguma mágoa que abandonei o baile.
Acordei na quarta-feira com a sensação de que as minhas visões só poderiam ter resultado da febre gripal que me atacou. Nesse dia ainda não estava bem certa da realidade dos acontecimentos. Se eram efectivamente reais ou não passavam de delírios febris. Era bom demais para ser verdade. Comecei a melhorar e arranjei tempo para navegar nos berloques. Bom, lá vou ser confrontada com a realidade, pensei eu, quando acedi ao berloque do Carnaval. A princípio, ainda tímida, comecei a gostar do que via. Afinal estavam ali registos que coincidiam com os meus. As fotos não enganavam, os filmes também não, os testemunhos idem aspas... queres ver que está tudo alucinado e a delirar!!!
Aos poucos lá fui percebendo que afinal eu não fui a única atacada pelo vírus. Havia muitos mais, todos com a mesma versão dos acontecimentos. Eu já tinha ouvido falar destes comportamentos colectivos. Acontecem frequentemente nos campos de futebol e noutros sítios onde a catarse colectiva é motivada pela fé e pela paixão. Um livre dois metros fora da área pode, através deste fenómeno, transformar-se por acordo colectivo, num indiscutível pénalti. Portanto ainda não estou bem certa se tudo o que eu aqui disse aconteceu e se os demais relatos que vamos lendo na net ou ouvindo na rua são efectivamente dignos de crédito. Mas o Carnaval de Canas de Senhorim é mesmo assim. É dado a delírios. Até para o ano e boas bicadas.
Portanto, desculpem, se a minha alucinação febril moldou os acontecimentos na forma como os presenciei.
Tudo começou no Domingo de carnaval. O Paço causava furor com uma excelente frente de marcha, onde ponteavam belos trajes e uma alegria inigualável. Depois, ao longo da marcha podiam apreciar-se inúmeros grupos foliões que mostravam originalidade e bom gosto. Os carros alegóricos de elevado recorte artístico, complementavam um corso fantástico que, incorporando a tradicional Banda de Música, arrematava com uma alusão satírica às condições do sistema de saúde. Pelo meio podíamos apreciar o excelente efeito produzido pelo movimentos dos golfinhos num carro simples mas muito bem conseguido, a divertida sátira da “Bandalhoca”, os "ghostbusters" dos computadores, as “Floribelas”, enfim, uma diversidade de referências e representações que asseguraram a genuinidade do nosso carnaval.
Por oposição, o Rossio causava dó. Lá levava a marchita meia composta, mas desfilando sem graça nem criatividade. Os carros eram de bradar aos céus e, foi nesta atitude que lá consegui vislumbrar um carrito jeitoso, único na mostra. Uma águia mijona, que a cada movimento mecânico, derramava óleo por tudo quanto era lado. Ainda têm muito que aprender para se meterem nestas coisas mecânicas.
Mas a coisa até passava despercebida se a páginas tantas não dou comigo a ouvir a marcha do Rossio interpretada por uns rapazes enfastiados e pouco convictos do papel que estavam a representar. Lá iam vestidos no rigor do funeral, sem uma fantasia, uma pintura, algo que nos indicasse que integravam efectivamente um cortejo carnavalesco. Uma tristeza. Ressalvo o cantor que tentava contrariar aquele triste quadro sonoro.
Com o passar dos dias a febre foi aumentando, mas mesmo assim, na terça-feira, lá fui até às Quatro-Esquinas para assistir ao despique. Mas a febre não perdoa e com ela veio o completo delírio. Então não é que, e juro que foi isto que vi, ou que a alucinação deixou entrever, dou com o Rossio a gritar histericamente sozinho, abandonado à sua teimosia e reduzido a meia dúzia de gatos-pingados. Ainda surpresos, interrogavam-se frustrados sobre o porquê de tamanha ingratidão, logo este ano que cumpriram meticulosamente o acordado na reunião preliminar entre as direcções de ambos os bairros. Já não vale a pena sermos honestos e cumpridores da nossa palavra, comentavam.
Consciente que a alucinação febril estava a toldar-me a mioleira fui meter-me rapidamente entre mantas para ver se recuperava a tempo de dar uma saltada ao baile do Paço que, como sabemos vem perdendo adeptos de ano para ano e como tal convém apoiar e participar. Mas que raio! De novo o delírio febril atacou sem dó nem piedade. Então não é que o Salão dos Bombeiros estava completamente cheio. Velhos e novos dançavam acaloradamente ao ritmo das marchas e outras músicas adequadas.
Definitivamente, o meu estado de saúde deteriorava-se de hora a hora e foi com alguma mágoa que abandonei o baile.
Acordei na quarta-feira com a sensação de que as minhas visões só poderiam ter resultado da febre gripal que me atacou. Nesse dia ainda não estava bem certa da realidade dos acontecimentos. Se eram efectivamente reais ou não passavam de delírios febris. Era bom demais para ser verdade. Comecei a melhorar e arranjei tempo para navegar nos berloques. Bom, lá vou ser confrontada com a realidade, pensei eu, quando acedi ao berloque do Carnaval. A princípio, ainda tímida, comecei a gostar do que via. Afinal estavam ali registos que coincidiam com os meus. As fotos não enganavam, os filmes também não, os testemunhos idem aspas... queres ver que está tudo alucinado e a delirar!!!
Aos poucos lá fui percebendo que afinal eu não fui a única atacada pelo vírus. Havia muitos mais, todos com a mesma versão dos acontecimentos. Eu já tinha ouvido falar destes comportamentos colectivos. Acontecem frequentemente nos campos de futebol e noutros sítios onde a catarse colectiva é motivada pela fé e pela paixão. Um livre dois metros fora da área pode, através deste fenómeno, transformar-se por acordo colectivo, num indiscutível pénalti. Portanto ainda não estou bem certa se tudo o que eu aqui disse aconteceu e se os demais relatos que vamos lendo na net ou ouvindo na rua são efectivamente dignos de crédito. Mas o Carnaval de Canas de Senhorim é mesmo assim. É dado a delírios. Até para o ano e boas bicadas.
domingo, fevereiro 18, 2007
Feira de vaidades
Não tenho tempo, energia nem a entrega da Achadiça para andar nesta agitação carnavalesca a que vou assistindo na berloquesfera canense, mas fico contente por ver a rapaziada animada. E mais contente fiquei ao verificar a excelente prestação do Rossio, imbatível na marcha, como sempre. Divirto-me imenso a cumprimentar alguns animadores aqui da berloquesfera canense, sem lhes passar pela cabeça que é a Cristalinda que cumprimentam. Alguns, pelo sorriso maroto, deixam-me a pensar se não estarei eu também a ser alvo do mesmo pensamento. Não creio. Outros porém, embora os conheça, não fazem parte do meu círculo de intimidades, pelo que, o cumprimento formal, ou a falta dele, não motivam qualquer pensamento relevante. Mesmo assim passei a olhá-los de outra maneira. Curioso, o que faz este relacionamento encapotado dos berloques.
Longe vai o tempo (não tão longe) em que todos os nicks se me afiguravam como entidades distantes e destituídas de qualquer personalidade. Perfeitos desconhecidos. Hoje, mesmo aqueles que não relaciono à pessoa que está por detrás da personagem, já possuem uma identidade própria, revestida do carácter que imprimem aos textos que escrevem, aos comentários que fazem ou à forma como se “movem” na berloquesfera canense. Também a expressão “blogosfera canense” não tinha qualquer significado há coisa de um ano. Agora toda a gente fá-la nela e muitos desejam ser reconhecidos e ver reconhecido o seu berloque neste contexto.
A minha mãe, por exemplo, é raro sair de casa, mas vá-se lá saber como, chegou-lhe aos ouvidos que o posto médico e a GNR iam fechar. Perguntei-lhe – ó mãe onde é que ouviu isso? – respondeu-me – disseram na Internet. Fiquei a olhar para ela enternecida. Mais tarde levei-a à minha casa e mostrei-lhe todos os berloques cá da terra e tentei explicar-lhe que nem tudo o que por aqui se diz é credível, ressalvando porém, ainda que hesitante, a possibilidade de o ser. “Então qualquer pessoa pode escrever um disparate!”, indignou-se ela. “Ora aí está mãe, o que não faltam aqui é disparates”. Claro que não lhe disse que quem escreve disparates no “Mulherio” é a filha, mas sempre imprimi alguns textos aqui da menina para lhe ouvir a opinião.
Mas mãe é mãe. Não caiu no engodo. Sorriu com a satisfação de quem descobriu a pedra filosofal. “Foste tu que escreveste isto não foste?”. Lá tive que abreviar, admitindo que de vez em quando escrevia umas coisitas a pedido de uma amiga mas que era segredo. Que não contasse às amigas nem às vizinhas. A ninguém. Não, à família também não. Bem, a partir daqui tive que lhe explicar uma quantidade de coisas para ela perceber porque razão a filha não assumia aquele texto nem queria ser identificada…
Há uns tempos atrás telefonou-me sarcástica para me dizer que o tal texto de que eu era tão ciosa(sic) tinha sido publicado no jornal. Expliquei que me tinham pedido através da net para ser publicado com o pseudónimo Cristalinda e eu acedi. Sabem qual foi a resposta dela?
- Sempre foste muito vaidosa.
Bem sei que bailava na frase a deliciosa ironia a que nos habituou, mas deixou-me a pensar se tal observação não se aplicaria subliminarmente a todos nós, que por aqui vamos deixando as marcas sublimadas da nossa vaidade.
Boas minhocas e um óptimo domingo de carnaval. Sorte a nossa com este dia solarengo...
Longe vai o tempo (não tão longe) em que todos os nicks se me afiguravam como entidades distantes e destituídas de qualquer personalidade. Perfeitos desconhecidos. Hoje, mesmo aqueles que não relaciono à pessoa que está por detrás da personagem, já possuem uma identidade própria, revestida do carácter que imprimem aos textos que escrevem, aos comentários que fazem ou à forma como se “movem” na berloquesfera canense. Também a expressão “blogosfera canense” não tinha qualquer significado há coisa de um ano. Agora toda a gente fá-la nela e muitos desejam ser reconhecidos e ver reconhecido o seu berloque neste contexto.
A minha mãe, por exemplo, é raro sair de casa, mas vá-se lá saber como, chegou-lhe aos ouvidos que o posto médico e a GNR iam fechar. Perguntei-lhe – ó mãe onde é que ouviu isso? – respondeu-me – disseram na Internet. Fiquei a olhar para ela enternecida. Mais tarde levei-a à minha casa e mostrei-lhe todos os berloques cá da terra e tentei explicar-lhe que nem tudo o que por aqui se diz é credível, ressalvando porém, ainda que hesitante, a possibilidade de o ser. “Então qualquer pessoa pode escrever um disparate!”, indignou-se ela. “Ora aí está mãe, o que não faltam aqui é disparates”. Claro que não lhe disse que quem escreve disparates no “Mulherio” é a filha, mas sempre imprimi alguns textos aqui da menina para lhe ouvir a opinião.
Mas mãe é mãe. Não caiu no engodo. Sorriu com a satisfação de quem descobriu a pedra filosofal. “Foste tu que escreveste isto não foste?”. Lá tive que abreviar, admitindo que de vez em quando escrevia umas coisitas a pedido de uma amiga mas que era segredo. Que não contasse às amigas nem às vizinhas. A ninguém. Não, à família também não. Bem, a partir daqui tive que lhe explicar uma quantidade de coisas para ela perceber porque razão a filha não assumia aquele texto nem queria ser identificada…
Há uns tempos atrás telefonou-me sarcástica para me dizer que o tal texto de que eu era tão ciosa(sic) tinha sido publicado no jornal. Expliquei que me tinham pedido através da net para ser publicado com o pseudónimo Cristalinda e eu acedi. Sabem qual foi a resposta dela?
- Sempre foste muito vaidosa.
Bem sei que bailava na frase a deliciosa ironia a que nos habituou, mas deixou-me a pensar se tal observação não se aplicaria subliminarmente a todos nós, que por aqui vamos deixando as marcas sublimadas da nossa vaidade.
Boas minhocas e um óptimo domingo de carnaval. Sorte a nossa com este dia solarengo...
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
Faça sexo com segurança
O Carnaval em Canas é propício a aventuras amorosas. Acreditando piamente no velho ditado de que “santos da casa não fazem milagres”, os canenses e as canenses vivem o ano na expectativa deste período para sacudirem as teias de aranha que o tédio entretanto acumulou. O Mulherio preocupado com esta aptidão sazonal, manifestamente dada a encontros fortuitos e relações passageiras, vem alertar para os perigos consentidos que a troca e vulgarização de parceiros podem provocar. Tais comportamentos, se negligenciados os métodos tradicionais de protecção, podem causar danos irreversíveis.
Faça sexo com segurança ou então opte exclusivamente pela via do beijinho e da carícia. Se optar pela última mantenha sempre a cabeça ao nível da cabeça do parceiro. Não fraqueje.
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
As vantagens do cornudo
Um indivíduo surpreendeu a mulher na cama com outro. Despeitado, foi buscar o revólver, armou o gatilho e prestava-se a disparar sobre os dois, quando, hesitante, parou para pensar e foi percebendo como a sua vida de casado tinha melhorado nos últimos tempos.
A esposa já não pedia dinheiro para comprar carne nem para comprar vestidos, jóias e sapatos, apesar de todos os dias aparecer com um vestido novo, uma jóia nova ou uns sapatos da moda. Os miúdos mudaram da escola pública para o colégio, sem contar que trocaram de carro, apesar dele estar há quatro anos sem aumento. Então o supermercado nem se fala. Nunca tiveram tanta fartura como nos últimos meses. E as contas de luz, água, telefone, internet, telemóveis e cartão de crédito… tinha deixado de ouvir falar nelas.
O facto é que a sua mulher era mesmo uma brasa, do género da Júlia Roberts mas com a fogosidade latina. Enfim!
Guardou a arma e saiu devagar para não incomodar os dois.
Parou na porta da sala e disse para si mesmo: o gajo paga a prestação da casa, o supermercado, o colégio, as contas da casa, o carro, o cartão de crédito, todas as despesas e eu ainda vou para cama com ela todos as noites!
Fechou a porta atrás de si e concluiu:
-Afinal quem é o cornudo!
A esposa já não pedia dinheiro para comprar carne nem para comprar vestidos, jóias e sapatos, apesar de todos os dias aparecer com um vestido novo, uma jóia nova ou uns sapatos da moda. Os miúdos mudaram da escola pública para o colégio, sem contar que trocaram de carro, apesar dele estar há quatro anos sem aumento. Então o supermercado nem se fala. Nunca tiveram tanta fartura como nos últimos meses. E as contas de luz, água, telefone, internet, telemóveis e cartão de crédito… tinha deixado de ouvir falar nelas.
O facto é que a sua mulher era mesmo uma brasa, do género da Júlia Roberts mas com a fogosidade latina. Enfim!
Guardou a arma e saiu devagar para não incomodar os dois.
Parou na porta da sala e disse para si mesmo: o gajo paga a prestação da casa, o supermercado, o colégio, as contas da casa, o carro, o cartão de crédito, todas as despesas e eu ainda vou para cama com ela todos as noites!
Fechou a porta atrás de si e concluiu:
-Afinal quem é o cornudo!
Rapazes, a história não tem moral nenhuma, mas sempre podem reflectir sobre algumas zangas perfeitamente despropositadas. Nesta época de Carnaval façam favor de pensar naqueles que vos apoiam todo o ano. Não digo que vos pagam as contas… mas trazem-vos as raparigas serenas e sossegadas, o que é muito conveniente. Portanto, nada de atitudes violentas para com os vossos benfeitores.
Pensem positivamente, como a sensata personagem desta história. Os jardins sem flores não têm piada nenhuma.
Pensem positivamente, como a sensata personagem desta história. Os jardins sem flores não têm piada nenhuma.
Boas bicadas, dê lá por onde der.
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
Elas só querem, só pensam em namorar...

Hoje, foi dia de São Valentim, o tal dia dos namorados. Ora como nesta questão nós somos bem mandadas, aproveitámos a sugestão e fomos todas namorar. Portanto, não houve bicadas para ninguém. As que tinhamos para dar foram devidamente encaminhadas para quem de direito. Espero que a vossa ausência tenha sido inspirada pelos mesmos motivos.
Continuem a namorar. Só vos quero cá amanhã e de papinho cheio.Boas bicadas
Continuem a namorar. Só vos quero cá amanhã e de papinho cheio.Boas bicadas
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Rescaldo do referendo
Não rejubilei com o resultado do referendo. Claro que me agradou verificar que finalmente muitas pessoas compreenderam a injustiça consignada na lei e resolveram votar no sentido de alterá-la. Mas rejubilar não, porque sei que este assunto não se esgota na mesa de voto.
Há muito trabalho a fazer em termos de regulamentação e implementação deste processo: encaminhamento, aconselhamento, financiamento, infra-estruturas, apoio médico, prevenção, educação sexual etc, etc., enfim, todos os elementos indispensáveis à execução da questão que nos foi colocada no referendo.
Conhecendo as dificuldades que o sistema tem para assegurar os cuidados básicos de saúde à população, espero que o governo tenha o cuidado de criar mecanismos rápidos de intervenção e de dotar os estabelecimentos de saúde habilitados para o efeito com os meios físicos e humanos necessários que facilitem o processo e a vida às mulheres. Sem complexos nem complexidades burocráticas e com a discrição e eficácia que a sua intimidade e dignidade merecem.
Inevitavelmente, uma das opções do governo será estabelecer acordos com clínicas que se prestem a este tipo de intervenções. Não tenho nada contra. Mas, também aí, o estado deve ser regulador e interventivo, por forma a assegurar que estes centros não especulem preços que venham a comprometer a viabilidade financeira dos protocolos. Todos sabemos como é que as empresas privadas se comportam quando o estado depende exclusivamente dos seus serviços.
Espero sinceramente que o governo saiba gerir este processo de maneira que as intenções não fiquem só pela letra da lei, à semelhança de muitas normas que enchem o Diário da República.
Há muito trabalho a fazer em termos de regulamentação e implementação deste processo: encaminhamento, aconselhamento, financiamento, infra-estruturas, apoio médico, prevenção, educação sexual etc, etc., enfim, todos os elementos indispensáveis à execução da questão que nos foi colocada no referendo.
Conhecendo as dificuldades que o sistema tem para assegurar os cuidados básicos de saúde à população, espero que o governo tenha o cuidado de criar mecanismos rápidos de intervenção e de dotar os estabelecimentos de saúde habilitados para o efeito com os meios físicos e humanos necessários que facilitem o processo e a vida às mulheres. Sem complexos nem complexidades burocráticas e com a discrição e eficácia que a sua intimidade e dignidade merecem.
Inevitavelmente, uma das opções do governo será estabelecer acordos com clínicas que se prestem a este tipo de intervenções. Não tenho nada contra. Mas, também aí, o estado deve ser regulador e interventivo, por forma a assegurar que estes centros não especulem preços que venham a comprometer a viabilidade financeira dos protocolos. Todos sabemos como é que as empresas privadas se comportam quando o estado depende exclusivamente dos seus serviços.
Espero sinceramente que o governo saiba gerir este processo de maneira que as intenções não fiquem só pela letra da lei, à semelhança de muitas normas que enchem o Diário da República.
domingo, fevereiro 11, 2007
Resultado do nosso inquérito sobre o referendo
Temo que a alta abstenção que se adivinha comprometa politicamente a intenção do governo. Logo veremos.
Resultado
Concorda com a despenalização do aborto, se realizado, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?
Sim – 46%
Não – 54%
Espero que a votação nacional não reflicta o resultado do nosso inquérito.
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Fora de bairrismos
Quando decidi escrever este texto pensava alinhar no meu bairrismo e desancar o Paço, os pacences e a minha amiga Achadiça, pelas atoardas que têm por aí espalhado. Depois reconsiderei, pois iria entrar no mesmo género de discurso, o que me tiraria porventura a seriedade que o assunto me merece. Vou então fazer uma abordagem séria sobre o Carnaval.
Já li e ouvi muitas considerações sobre a questão da nossa tradição carnavalesca e a forma como, alegadamente, está a ser desvirtuada. Os protagonistas de ambos os bairros trocam acusações pontuais sobre ligeiros desvios ocorridos em edições anteriores, umas descaradamente provocatórias, outras com alguma pertinência.
Esses desvios não trouxeram mal algum ao nosso Carnaval nem puseram em questão a sua continuidade ou tradição. Acalentam a disputa e a rivalidade e servem de arma de arremesso aos inconciliáveis Paço e ao Rossio, para fomentarem a crítica e a achega. Vive e sobrevive bem o Carnaval com isto, pois, no essencial, a originalidade do nosso Entrudo é destas tricas que se alimenta.
Dito isto, centremo-nos na questão dos usos e costumes – a tradição. Há aspectos que, por mais esforço que se faça na sua preservação, as novas gerações não correspondem ao apelo ou os próprios sinais dos tempos tornaram pouco atractivos. Como tal, exigem um compromisso entre aquilo que é obrigatório preservar e o que é passível de reformular. Vamos por partes:
O Pisão, as paneladas, o enfarinhanço etc. – Não estão ameaçados, contudo, o Pisão assumiu proporções de vandalismo que não estava na sua génese. Devolva-se ao Pisão a sua genuína intenção.
As Marchas – São a expressão mais importante do nosso Carnaval e, porventura, aquelas que traduzem verdadeiramente o espírito que lhe deu origem. Sendo um Carnaval de pendor estritamente popular, qualquer alteração tem que ser bem ponderada. Falo do ritmo musical de “marcha” e na sua interpretação (para o efeito a Banda de Música é a mais adequada). Este ano parece que o meu bairro não a vai levar. É pena. Quanto ao percurso, pode lamentar-se o facto de o Paço não descer a rua de seu nome e desertarem da Marcha quando passam no seu bairro. Mas, isso é lá com eles. Se não têm gosto em mostrar-se aos seus adeptos no seu próprio bairro são eles que ficam a perder. Contudo, não venham depois armar-se em guardiões da tradição.
O Despique – Com a evolução da tecnologia sonora é normal que os decibéis ressoem exageradamente. O Paço investe particularmente neste aspecto. Dificilmente se imporá a tradição que permitia aos protagonistas disputarem o despique com as suas próprias “armas” – a garganta. Reformule-se mas com sensatez, para evitar a corrida desenfreada às aparelhagens e o consequente quadro infernal que deforma a festa, com tractores, andaimes, colunas e baterias a substituírem-se à euforia da massa humana.
Os Carros – A utilização de novos materiais ainda não se sobrepôs totalmente às “minhas queridas flores de papel” (fiz muito calo a enrolá-las com um canudo e, depois, mais tarde, com uma tesoura). Porém, temo que qualquer dia, o seu colorido e a sua textura sejam somente uma recordação. Preservem-se os carros com flores.
Os Bailes – Adivinhava-se a sua extinção. Os momentos nocturnos são da exclusividade da faixa etária mais jovem, que já não se revê neste formato. Congratulo a organização do Rossio pela inovação e pela decisão em assumir finalmente um projecto alternativo ao acanhado Quebra-Tolas e ao insuportável esfregulhanço que daí advinha. Mantém-se o baile mas a música é outra. Sinais dos tempos. Evento positivamente reformulado que não põe em questão a tradição, aliás, como todas as outras actividades recreativas que decorrem fora do contexto do Carnaval propriamente dito.
A Segunda-Feira das Velhas – Recuperou a vivacidade de outros tempos, facto que abona a favor da tradição. Afinal a tradição ainda é o que era.
O Enterro, Quarta-Feira de Cinzas – Também aqui se mantém a tradição, consumada na tradicional comezaina e nas exéquias ao defunto. Nada de leitão ou febras grelhadas. É com o belo bacalhau que se encerra o nosso Carnaval, como manda a tradição.
Em jeito de conclusão, parece-me estar a tradição do Carnaval de Canas preservada, ainda que algumas decisões possam causar incómodo aos mais conservadores. Compreendo-lhes a apreensão mas não posso deixar de dizer que a inovação e a reformulação não têm que necessariamente ferir de morte o nosso Carnaval, assim sejam efectuadas com parcimónia e sensatez. São condimentos essenciais para que o Carnaval de Canas de Senhorim corresponda às expectativas dos mais jovens e para que a própria tradição sobreviva aos novos desafios da modernidade. E nisso, como todos sabemos, o Rossio é visionário. Viva o meu Rossio adorado. Viva Canas de Senhorim.
Boas minhocas
Já li e ouvi muitas considerações sobre a questão da nossa tradição carnavalesca e a forma como, alegadamente, está a ser desvirtuada. Os protagonistas de ambos os bairros trocam acusações pontuais sobre ligeiros desvios ocorridos em edições anteriores, umas descaradamente provocatórias, outras com alguma pertinência.
Esses desvios não trouxeram mal algum ao nosso Carnaval nem puseram em questão a sua continuidade ou tradição. Acalentam a disputa e a rivalidade e servem de arma de arremesso aos inconciliáveis Paço e ao Rossio, para fomentarem a crítica e a achega. Vive e sobrevive bem o Carnaval com isto, pois, no essencial, a originalidade do nosso Entrudo é destas tricas que se alimenta.
Dito isto, centremo-nos na questão dos usos e costumes – a tradição. Há aspectos que, por mais esforço que se faça na sua preservação, as novas gerações não correspondem ao apelo ou os próprios sinais dos tempos tornaram pouco atractivos. Como tal, exigem um compromisso entre aquilo que é obrigatório preservar e o que é passível de reformular. Vamos por partes:
O Pisão, as paneladas, o enfarinhanço etc. – Não estão ameaçados, contudo, o Pisão assumiu proporções de vandalismo que não estava na sua génese. Devolva-se ao Pisão a sua genuína intenção.
As Marchas – São a expressão mais importante do nosso Carnaval e, porventura, aquelas que traduzem verdadeiramente o espírito que lhe deu origem. Sendo um Carnaval de pendor estritamente popular, qualquer alteração tem que ser bem ponderada. Falo do ritmo musical de “marcha” e na sua interpretação (para o efeito a Banda de Música é a mais adequada). Este ano parece que o meu bairro não a vai levar. É pena. Quanto ao percurso, pode lamentar-se o facto de o Paço não descer a rua de seu nome e desertarem da Marcha quando passam no seu bairro. Mas, isso é lá com eles. Se não têm gosto em mostrar-se aos seus adeptos no seu próprio bairro são eles que ficam a perder. Contudo, não venham depois armar-se em guardiões da tradição.
O Despique – Com a evolução da tecnologia sonora é normal que os decibéis ressoem exageradamente. O Paço investe particularmente neste aspecto. Dificilmente se imporá a tradição que permitia aos protagonistas disputarem o despique com as suas próprias “armas” – a garganta. Reformule-se mas com sensatez, para evitar a corrida desenfreada às aparelhagens e o consequente quadro infernal que deforma a festa, com tractores, andaimes, colunas e baterias a substituírem-se à euforia da massa humana.
Os Carros – A utilização de novos materiais ainda não se sobrepôs totalmente às “minhas queridas flores de papel” (fiz muito calo a enrolá-las com um canudo e, depois, mais tarde, com uma tesoura). Porém, temo que qualquer dia, o seu colorido e a sua textura sejam somente uma recordação. Preservem-se os carros com flores.
Os Bailes – Adivinhava-se a sua extinção. Os momentos nocturnos são da exclusividade da faixa etária mais jovem, que já não se revê neste formato. Congratulo a organização do Rossio pela inovação e pela decisão em assumir finalmente um projecto alternativo ao acanhado Quebra-Tolas e ao insuportável esfregulhanço que daí advinha. Mantém-se o baile mas a música é outra. Sinais dos tempos. Evento positivamente reformulado que não põe em questão a tradição, aliás, como todas as outras actividades recreativas que decorrem fora do contexto do Carnaval propriamente dito.
A Segunda-Feira das Velhas – Recuperou a vivacidade de outros tempos, facto que abona a favor da tradição. Afinal a tradição ainda é o que era.
O Enterro, Quarta-Feira de Cinzas – Também aqui se mantém a tradição, consumada na tradicional comezaina e nas exéquias ao defunto. Nada de leitão ou febras grelhadas. É com o belo bacalhau que se encerra o nosso Carnaval, como manda a tradição.
Em jeito de conclusão, parece-me estar a tradição do Carnaval de Canas preservada, ainda que algumas decisões possam causar incómodo aos mais conservadores. Compreendo-lhes a apreensão mas não posso deixar de dizer que a inovação e a reformulação não têm que necessariamente ferir de morte o nosso Carnaval, assim sejam efectuadas com parcimónia e sensatez. São condimentos essenciais para que o Carnaval de Canas de Senhorim corresponda às expectativas dos mais jovens e para que a própria tradição sobreviva aos novos desafios da modernidade. E nisso, como todos sabemos, o Rossio é visionário. Viva o meu Rossio adorado. Viva Canas de Senhorim.
Boas minhocas
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
Sambas e Guitarradas
Parece que este ano o Rossio vai trocar a tradicional banda de música, que habitualmente acompanha o cortejo carnavalesco, por um conjunto musical. Guitarrada eléctrica para desvirtuar uma das características que torna o nosso Carnaval tão peculiar.
As bandas de música dão um cunho popular ao nosso Entrudo, integrando as demais componentes tradicionais em que o nosso Carnaval é fértil. Não obstante, o Rossio ou a sua Direcção, decidiram optar por um som incaracterístico e menos próprio na salvaguarda de um som mais potente. Inspirados insipidamente por tendências modernaças ocorreu-lhes a possibilidade de aproveitar as novas potencialidades tecnológicas e, qual rave party, adulterar o som típico dos metais, dos pratos e do bombo. Lembrei-me logo daquelas paradas tipo “Orgulho Gay”, com os foliões de mãos dadas ao som de House Music. Perdoem-me.
Parece que foi a forma encontrada para contrariar os kilowatts que o Paço carrega às costas para se fazer ouvir. Será que ainda não se aperceberam que esta luta desenfreada por quem faz mais barulho só conduz à cacofonia, privando as pessoas, que são o mais importante da festa, de se fazerem ouvir e competirem de alma coração e garganta pelo seu bairro? Admito o som amplificado das bandas, pois o som captado pelos microfones é suportável, pese embora o feed back e outros inconvenientes, agora instrumentos eléctricos e caixas de ritmos artificiais!? Tudo com o ponteiro no máximo!
Veio o presidente da Direcção do Rossio a terreiro admitir que tinha acordado com o Paço que o despique seria só com o som das bandas, mas, pressionado por elementos da sua organização aceitou, embora contrariado, este novo projecto que abdica da tradicional banda e obriga a total amplificação sonora. Argumenta ainda que este projecto “rave” foi proposto por “gente novíssima” à qual deve dar ouvidos pois são eles que vão assegurar a continuidade do Carnaval. Bem, nada tenho contra a malta jovem. Eu própria não sou assim tão velha. Mas tem que haver bom senso. A malta nova não pode ir atrás de modas nem de preferências de geração incondicionais, sob o risco de comprometer e subverter 400 anos de tradição.
Posto isto, só me resta acarinhar o meu bairro que, fiel ao espírito genuíno do nosso Carnaval, continua a apostar na tradição e não cede a tentações suspeitas.
Boas bicadas
As bandas de música dão um cunho popular ao nosso Entrudo, integrando as demais componentes tradicionais em que o nosso Carnaval é fértil. Não obstante, o Rossio ou a sua Direcção, decidiram optar por um som incaracterístico e menos próprio na salvaguarda de um som mais potente. Inspirados insipidamente por tendências modernaças ocorreu-lhes a possibilidade de aproveitar as novas potencialidades tecnológicas e, qual rave party, adulterar o som típico dos metais, dos pratos e do bombo. Lembrei-me logo daquelas paradas tipo “Orgulho Gay”, com os foliões de mãos dadas ao som de House Music. Perdoem-me.
Parece que foi a forma encontrada para contrariar os kilowatts que o Paço carrega às costas para se fazer ouvir. Será que ainda não se aperceberam que esta luta desenfreada por quem faz mais barulho só conduz à cacofonia, privando as pessoas, que são o mais importante da festa, de se fazerem ouvir e competirem de alma coração e garganta pelo seu bairro? Admito o som amplificado das bandas, pois o som captado pelos microfones é suportável, pese embora o feed back e outros inconvenientes, agora instrumentos eléctricos e caixas de ritmos artificiais!? Tudo com o ponteiro no máximo!
Veio o presidente da Direcção do Rossio a terreiro admitir que tinha acordado com o Paço que o despique seria só com o som das bandas, mas, pressionado por elementos da sua organização aceitou, embora contrariado, este novo projecto que abdica da tradicional banda e obriga a total amplificação sonora. Argumenta ainda que este projecto “rave” foi proposto por “gente novíssima” à qual deve dar ouvidos pois são eles que vão assegurar a continuidade do Carnaval. Bem, nada tenho contra a malta jovem. Eu própria não sou assim tão velha. Mas tem que haver bom senso. A malta nova não pode ir atrás de modas nem de preferências de geração incondicionais, sob o risco de comprometer e subverter 400 anos de tradição.Posto isto, só me resta acarinhar o meu bairro que, fiel ao espírito genuíno do nosso Carnaval, continua a apostar na tradição e não cede a tentações suspeitas.
Boas bicadas
Subscrever:
Mensagens (Atom)
