Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas da Galinha Riça. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas da Galinha Riça. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, março 03, 2009

Crónicas da Galinha Riça - Cinzas

De repente assistimos ao desmoronar de duas “instituições” canenses: primeiro foi a impensável descaracterização da marcha do Rossio, com alusões publicitárias de carácter duvidoso, sob o compromisso de uns quantos votos na urninha da doutora; depois, na sequência da queima do Entrudo, reduziram a cinzas o berloque do Município, último reduto da sublevação restauracionista que por aqui grassou.
Difícil é não fazer associações entre uma coisa e outra. Canas e os seus agentes parecem caminhar para o servilismo que amorosamente a “senhoria” lá de cima nos propõe, no primeiro caso por manipulação, no segundo por omissão.
Arrancada à prostração por estes acontecimentos bombásticos, decidi contar a coisa como ela se passou, aqui no berloque, que, à semelhança do outro, ou muito me engano ou também está condenado a arder nos quintos do inferno. Vamos lá então:
A doutora “senhoria”, estratega experimentada, avaliou a radiografia do inquilino do rés-do-chão, mirou-a de perto, de longe, pelo direito e às avessas, e detectou dois focos de infecção, aparentemente inofensivos, é certo, mas, pelo sim pelo não, o melhor era não correr riscos: antes que alastrem aplica-se já o antibiótico, se possível pela retaguarda, em supositório, para que surta o efeito desejado. Entretanto mandou chamar o Sr. Silva.
- Ó Silva convoque aqueles do Carnaval do Rossio ou lá como é que eles se chamam e veja também se identifica os mandadores daquele panfleto digital, um tal de Município, que anda para aí na net ao serviço dos insurrectos.
O Silva aproveitou logo a oportunidade para demonstrar que estava bem informado e sem qualquer reserva esclareceu:
- Doutora, quem manda naquilo é o candidato da terra… tem lá uns peões a barafustar, tipo testas de ferro…
- O quê, o panfleto é do candidato! Então não são os restauracionistas que mandam naquilo?!
- É confuso, parece que o candidato anda de braço dado com os restauracionistas.
- Ui, ui, não sei o que é pior. Então e quanto àquele bairro carnavalesco que tem a mania de criticar e mal-dizer aqui a “senhoria”, ainda por cima com o dinheirinho que generosamente lhes damos?
- Não se preocupe doutora, esse está vacinado, inoculámo-lo com blocos de cimento. Eu próprio distribuí o “kit”, tudo muito higiénico e sem efeitos secundários.
- Pronto, então divirta-se, e bom Carnaval… ah, não se esqueça de convocar os panfletários…
- Vai-lhes oferecer uma sede… uma capela… um trombone… uma rotunda?
- Não Silva, vou dar-lhes um tratamento adequado.
O Silva saiu e a doutora recostou-se no cadeirão presidencial, permitiu-se mesmo espreguiçar a sagacidade que entreviu no seu raciocínio. Depois pegou na caneta e rabiscou na ficha clínica, anexa ao processo:
“Diagnóstico reservado. O inquilino demonstra melhoras. Mantêm-se os passeios. Ministrar Xanax aos restauracionistas e quejandos… para prevenir reincidências.”

quarta-feira, novembro 05, 2008

Crónicas da Galinha Riça - Regabofe

Não consigo evitar uma gargalhada perante a promiscuidade com que certos políticos animam os corredores onde desenrolam as querelas pelo poder. O caso do nosso concelho e das lutas pelo poder concelhio é um manancial de traições e infidelidades, um autêntico regabofe. Senão vejamos:
José Correia, abandona o PSD há cerca de 20 anos, muda-se para o PS e ganha a câmara de Nelas. Por sua vez, Isaura Pedro que acompanha José Correia no PS e na Câmara, rompe com ele, abandona o PS e concorre pelo PSD às eleições de 2005, as quais viria a ganhar com o apoio do então Vice-Presidente Borges da Silva, o qual, após alguns meses no executivo, abandona o PSD para catrapiscar os olhos ao PS.
Confusos? Calma que ainda há mais… José Correia, após perder a Câmara, apoiou para a liderança do PS, Francisco Cardoso, um militante de Canas, curiosamente a freguesia onde tem os seus mais impiedosos inimigos políticos. Porém, num golpe de asa, o PS tira da cartola o desconhecido Adelino Amaral e remete José Correia para terrenos independentes, onde, mantendo a senda do regabofe, alinha numa parceria anti-natura com Borges da Silva, o tal, que em tempos, a propósito do caso Topack, disse cobras e lagartos dele, mas, pelos vistos, não tão mal que impeça agora este casamento anunciado. Diz-se que ambos estão ressabiados com a Curandeira, José Correia pela derrota em 2005 e Borges da Silva pelo afastamento do executivo camarário… isso mesmo, ambos acusam incómodo perante a técnica de palpação rectal que lhes foi infligida pela doutora. Vai daí, aprestam-se juntos a recuperar o poder, imbuídos no mesmo espírito de vingança e partilhando o mesmo sentimento de humilhação.
Mas não fica por aqui: do outro lado da barricada, isto é, cá do nosso lado, o MRCCS luta por “Canas de Senhorim a concelho”, mas apoia a Junta que se identifica com o PSD, partido da Curandeira, que por sua vez se opõe à divisão do concelho.
Mas ainda não acabou: o gato Peneirento, pura raça siamesa, educado nos melhores colégios felinos do país, exímio no francês e no piano, amancebou-se com gata suspeita e está prestes a instalar-se de malas e bagagens em quintal alheio. Bem lhe acenamos com caviar e outras iguarias irrecusáveis, mas não é que o ingrato não larga a pulguenta.
Um autêntico regabofe.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Crónicas da Galinha Riça - A Tourada Medieval

Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.

Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.

Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.

...

Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...

Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.
E diz o inteligente
que acabaram as canções.

Fernando Tordo/Ary dos Santos



E lá se passou mais uma Feira (Viagem) Medieval, desta vez com sol, camarotes, barreiras, cavalos e demais bicharada, sendo que os camarotes ficaram reservados para os altos dignitários da realeza política que se dignaram visitar-nos. Bem, visitar-nos não é o termo, pois para isso têm todo o ano e não põem cá os pés, portanto, digamos que vieram diplomaticamente apalpar o terreno e estabelecer cordialmente uma base negocial (e operacional) para presentes e futuras conspirações eleitoralistas.
À boa maneira portuguesa nada melhor do que, entre uma febra e um copo de vinho, discutir negócios, que é o mesmo que dizer, traçar orientações para governar esta plebe mal agradecida.
Mas é festa, não há lugar a rancores nem dissonâncias. Vai daí, presta-se a populaça à respectiva vénia, ao fim e ao cabo o dinheirinho chegou disfarçado de bodo, há que comer e beber que a festa é brava…
Depois vem a cultura! Ai a cultura, tão bonitinha, tão mal-tratadazinha: uma panóplia de referências anacrónicas onde artefactos made Hong-Kong aliados à crendice das fitinhas brasileiras da Nª Sª do Bonfim competem vorazmente com materiais mais ou menos fidedignos. Mas pronto! Ninguém repara, e os que reparam esboçam um sorriso de compreensão, afinal isto não é um museu, é uma recriação.
Deitando contas à vidinha andava o tesoureiro-mor, andarilho dos sete-caminhos, diplomata capcioso. Obviando as dificuldades no apuramento dos impostos régios aboliu corvélias, talhas e capitações, e substituiu-as por um imposto único “por conta” cobrado aos mercadores nómadas que por cá se instalaram. Devidamente recolhido pelo cobrador-real há-de reverter sabe Deus para quem, que esta vila não é franca para ninguém.
Assegurar absoluto rigor nesta crónica é difícil, mas daí não vem mal ao mundo, sobre a "tourada medieval” cada herege acrescenta o que quer que da inquisição já nada há a temer.

segunda-feira, junho 16, 2008

Crónicas da Galinha Riça - Os mirins

Revoltaram-se os mirins porque, ao que parece, não têm “choco” para assegurar a reprodução da espécie. Ora, todos sabemos que esta espécie não tem habitat fixo, basta sairmos dos aglomerados populacionais para os vermos, sem razão aparente, deambular por esses campos fora de casa às costas. Preferem o ar livre e é em comunhão com a natureza que atingem altos índices de reprodução. Por isso, legítima ou não, estranhou-se a pretensão.
Com uma estrutura social rígida e um espírito gregário assinalável, organizam-se em clãs, unidades familiares mais ou menos estáveis, lideradas por elementos mais velhos e experientes que lhes ensinam nas caminhadas o verdadeiro sentido da palavra do Senhor, isto é, “crescei e multiplicai-vos”.
Para evitar o perigo da consanguinidade, estas pequenas famílias, intrinsecamente ligados por laços afectivos e cerimoniais, têm necessidade de interagir com outros clãs, pelo que se reúnem frequentemente em grandes agrupamentos, onde podem alargar as possibilidades de acasalamento e dar azo à sua propensão poligâmica sem correrem o risco de comprometerem a espécie ou corromperem a linhagem. Aliás, este comportamento está devidamente previsto no artigo 4º da lei mirim, o qual diz “O mirim é irmão dos demais mirins, independentemente da classe, ou credo a que o outro possa pertencer” (sic). Está assim, legalmente resolvido o problema de identidade que resulta do regabofe daqueles ajuntamentos, ou acampamentos, como alguns preferem chamar… são todos irmãos, não há cá filho deste, filho daquele ou filho da outra, pacificam-se assim as relações familiares entre os vários elementos da espécie. Mais à frente, no artigo 5º, a lei refere que o mirim também é amigo dos animais, artigo polémico que ainda hoje levanta alguma controvérsia no Conselho Jurisdicional Mirim. Não é à toa que usam a expressão “quando o pau bate na rocha quem se lixa é o lobito”… mas adiante, que isto são outras contas e eu já me estou a dispersar.
De facto, uma grande parte da simbologia mirim é indubitavelmente sexual, atentem ao lema “sempre alerta” (“be prepared” no original) - ora o que é que se pretende de um “zezinho” saudável, que esteja sempre pronto -, ou ao pau que habitualmente transportam, representação fálica da virilidade dos machos, ou à “promessa”, acompanhada pelo gesto atrevido de quatro dedinhos no ar, pelo menos quatro estão prometidas, essa é que é essa, ou à vaginiforme flor de lis, excessivamente clitórica, uma provocação aos sentidos menos “alertas”… e poderia ir por aí fora, a sua iconografia está cheia de pintelhices.
É precisamente esta predisposição sexual que preocupa e constrange os mandadores cá da terra que, perante o pedido persistente de uma incubadora, logo entreviram uma praga indesejável de mirins a todo o custo evitável.
David Attenborough, conceituado naturalista, instado a pronunciar-se sobre o quesito, alertou para o perigo que representa para o equilíbrio do sistema esta pretensão, salientando com preocupação a inexistência de predadores que possam travar o seu alto índice de reprodução - uma ameaça para os próprios e para as espécies que com eles convivem - concluiu.
Perante a evidência, toda a gente fez ouvidos moucos à azáfama reivindicativa dos mirins, ignorando os gritos lancinantes de alerta com que anunciaram a revolta. Só a autoridade eclesiástica se mostrou flexível. Incapaz de demover o ímpeto sexual dos sublevados e à revelia de orientações superiores, concedeu a excepcionalidade do uso de preservativo aos insurgentes, garantindo-lhes, também a estes, sinais de coito em local recatado, por sinal bem perto deste outro que ousou negar-lhes provimento.
Que mais posso dizer!? Bravos guerreiros de lenço e calção, perfilai-vos, que já vou no Freixieiro. Dos fracos não reza a História e promessas são para cumprir.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Crónicas da Galinha Riça - Carnavalite crónica


O carnaval de Canas de Senhorim é genético. Algures, na memória dos tempos, os canenses sofreram uma mutação no seu ADN. Este gene mutante, transmitido de geração em geração tomou conta da estrutura celular e foi ganhando proporções virulentas. Não fosse a natureza do fenómeno benigna e o risco infecto-contagioso limitado e estaríamos perante uma pandemia carnavalesca de proporções catastróficas. Estão a imaginar o que é que isto dava à escala nacional, se a nossa rivalidade entre bairros extrapolasse para as cidades e regiões, Lisboa vs Porto, Alentejo vs Algarve, Norte vs Sul… seria caótico, uma ameaça para a integridade nacional. Mas não, a virose está limitada no tempo e no espaço, três simples dias em que o vírus agita o sistema imunitário dos canenses, com as respectivas febres, calafrios, convulsões, arrepios e outras dores de somenos importância. Nada que três pastilhas de mebocaína, três konpensan e outros tantos gurosan não resolvam.
Efectivamente, a “doença”, em determinadas circunstâncias, pode revelar-se contagiosa. Habitualmente o contágio é de origem sexual. Vem o rapaz ou a rapariga de fora, acasala com um nativo e quando dá conta já cantarola as marchinhas. Mas o contágio também pode ser por simpatia, existem casos clinicamente comprovados de achadiços que sem "coiso e tal", vivendo em Canas há dois ou três anos padecem do mesmo mal. Quando dão conta lá vem, escarrapachado no relatório das análises clínicas um alto teor de carnavalite; outros ainda, mais sensíveis ao fenómeno, bastou-lhes passar cá um Carnaval e pronto, chegada a época o bichinho acorda e lá vêm até Canas de Senhorim passear a maleita.
Até a comunidade de Nelas, um lugarejo aqui perto, foi ligeiramente contagiada, não se sabe bem como nem porquê (há coisas que a ciência não explica). Porém os organismos inoculados tinham uma malformação congénita e a nova estirpe degenerou num fiasco, isto apesar do investimento na sua encubação e na manipulação in-vitro da cultura original. Claro que ficámos compadecidos com o fracasso, então anda o edil a brincar ao Carnaval todo o ano e depois na altura de colher os louros, nem corso, nem vestimentas nem foliões… uma arrelia!
A“carnavalite” canense manifesta-se durante três, quatro dias e, regra geral, não deixa sequelas, se bem que há casos isolados de carnavalite aguda devidamente referenciados. Nos primeiro e segundo dias a doença apresenta sintomas débeis, os pacientes podem manifestar tremuras passageiras e desacertos mentais esporádicos, porém ao terceiro dia o vírus recrudesce e toma conta do organismo do doente. Os desacertos mentais iniciais transformam-se em desvario e a tremedeira em frenesim. Estímulos nervosos induzidos pelo vírus nos tecidos neurológicos produzem quantidades substanciais de endomorfina que por sua vez accionam a excitabilidade muscular, ao que o sistema circulatório responde com elevados índices de adrenalina. É o culminar da doença. Nesta fase os doentes revelam comportamentos agressivos e uma euforia descontrolada, só aplacados pelo confronto tribal que ocorre em pleno centro da vila e após descargas maciças de urros, vaias e vitupérios.
Ao quarto dia está tudo acabado, a carnavalite retrocede e volta ao processo cíclico que caracteriza as doenças crónicas. Só passado um ano é que retorna, nem mais nem menos perigosa, nem mais nem menos atenuada. Parece que não tem cura, há quatrocentos anos que afecta esta terra e promete perdurar enquanto houver, pelo menos dois canenses. O que já esteve mais longe.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Crónicas da Galinha Riça - A Nova Intifada

Foi com elevada consternação que alguns distintos lapenses receberam a notícia do novo trajecto do IC12 e da respectiva localização do nó de acesso a Canas de Senhorim. Agradados pelas expectativas que o antigo projecto apresentava, com a possibilidade de o referido nó ficar nos limites da localidade, circunstância porventura já devidamente equacionada em termos de rentabilidade pessoal e colectiva, viam-se agora despojados do magnífico nó e preteridos no empreendimento a favor da Póvoa de Sto António que, sendo lugar de santo não é mais santificado que a Lapa do Lobo que já teve a piedosa presença do Sr Bispo. E acrescentavam: Mesmo que a comparação entre o santo e o bispo nos seja desfavorável, pois a tanto ainda não chegou a Igreja na santificação dos eclesiásticos vivos, é por demais conhecida a ligação de São Francisco de Assis ao lobo, animal que deu o nome a esta terra. Mesmo que seja improvável ser o animal de S. Francisco o mesmo que o da Lapa também não há provas em contrário. E mais que não fosse não seria o Vale do Boi o melhor sítio para o redondel, local cuja nomenclatura é espiritualmente apropriada para evocar esse animal sagrado que é a vaca, ou o boi, alargando assim o sentido ecuménico aos fieis? Portanto, em matéria de santos, bispos e bestas estamos resolvidos. Neste particular não está a Póvoa melhor apetrechada para que lhe seja oferecida de mão beijada o altar rodoviário.
É claro que estes considerandos canónicos eram a voz da populaça, que, incapaz de perceber os labirintos técnicos do projecto, recorria à velha explicação divina ou semi-divina para tentar resolver a afronta. Do mesmo mal não sofriam os distintos lapenses que convocaram o plenário onde estas opiniões se fizeram ouvir. Após aturados esforços de esclarecimento lá convenceram os populares que isto não era uma competição de santos ou de religiões, apesar de a ideia ser tentadora, conforme afirmou um dos oradores. Trazia-se à congregação São Cristóvão, protector dos automobilistas, São Tiago, promotor dos caminhantes, e, com a teimosia argumentativa de Santa Catarina, nossa padroeira, talvez Santo António abdicasse da sua vocação casamenteira e deixasse de andar para aí a dar nós ao desbarato…
Foi uma alusão oportuna. Os entendidos sorriram, cúmplices da ironia oratória e dos laços conspirativos que o comentário exerceu nos crentes. Agora era preciso dar a volta à questão para que o assunto fosse tomado em consideração pelas entidades competentes, e a melhor forma de o fazer era alertar determinadas organizações para os malefícios ambientais que o traçado do novo percurso iria trazer. Elas encarregar-se-iam de solicitar ao Ministério Público uma providência cautelar que embargasse a obra e a devolvesse ao percurso inicial, acautelando o local do ambicionado nó. Mas aqui punha-se um problema, que fundamento iriam utilizar para convencer os ambientalistas? Não temos pinturas rupestres, ossadas de dinossauro, formigas pirilau, sardaniscas pintalgadas, o estorninho não está em vias de extinção, a carriça também não, raios, que vamos nós preservar? O sapo Cocas?
Foi então que um ilustre lapense, até então silencioso, pediu a palavra:
- Meus amigos a vossa visão é pequenina, andam à procura da parte quando têm o todo à disposição. O que é preciso preservar é aquele lugarejo moribundo, semi-abandonado ao seu triste destino. Sim, o que é preciso salvaguardar é a vila de Canas de Senhorim. Se este projecto se confirmar como está previsto, a já agonizante vila ficará sufocada entre a linha de comboio e a auto-estrada, a ver passar carros de um lado e comboios do outro, um garrote fatal, um enclave em “V” a abrir para Carvalhal Redondo e para Nelas, empurrando os canenses de encontro aos seus eternos detractores. É este o fundamento que vocês procuram, evitar a todo o custo aconchegos indesejados, e terá o apoio de todas as partes, dos envolvidos, que por certo não aspiram à aproximação nem são dados a abraços, e das entidades políticas que não arriscarão nestas circunstâncias colocar à disposição dos habituais insurrectos as duas principais vias de acesso ao interior beirão, a linha da Beira Alta e a auto-estrada A35.
Esta sim foi uma tirada iluminada. Logo ali se prepararam alforges e merendas, sem descurar o milagroso líquido de Canã. A ideia era rumar à pedreira do Vale do Boi, tomar as instalações da empresa e ali entrincheirados resistir ao insidioso projecto.
Anuncia-se assim em primeira mão uma nova intifada na Vila de Canas de Senhorim, a qual, desta vez, a avaliar pela matéria-prima que o local proporciona, promete aguerrida resistência.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Crónicas da Galinha Riça - O Mártir


Após o coffee-break retomaram-se os trabalhos pelas 11H30. S. Exa. a presidente solicitou que lhe fosse transmitido o ponto de situação do "Projecto Colapso". Tomou a palavra o Eng. Encarregado:
- O projecto progride de acordo com as directivas de V. Exa. Estabelecemos contactos informais com especialistas da Al-Quaeda que fizeram deslocar ao local dois conceituados operacionais, os quais nos asseguraram o êxito do empreendimento. Questionados sobre a diferença de procedimentos, uma vez que o cenário da acção era rural e, como sabemos, estes técnicos estão mais vocacionados para operações urbanas, logo nos surpreenderam com a diversidade de recursos e alternativas. Constitui-se um Gabinete de Estudo e após algumas incursões ao terreno os referidos peritos apresentaram-nos um plano viável e tecnicamente infalível. Uma vez que o terreno já está minado por baixo, a norte, em resultado da exploração do minério, e minado por dentro por força da eficácia política de V. Exa., o plano consiste em minar por cima, a sul, criando assim um abraço fracturante que destabilizará o equilíbrio do território e levará toda a zona envolvente ao derradeiro colapso.
Os presentes aprovaram a ideia acenando afirmativamente. O Eng. Encarregado continuou:
- Devo esclarecer V. Exas. que estes contactos e respectivas despesas foram suportados pela própria organização terrorista através de um estratagema digno da sua reputação. É que eles eram parte interessada. Lembram-se daqueles camiões de urânio que saíram da Urgeiriça com destino à Alemanha? Foi no Gabinete de Estudo para o "Projecto Colapso" que toda a operação foi montada. Através de mecanismos alfandegários que ultrapassam a minha compreensão a rede da Al-Quaeda conseguiu desviá-los do destino inicial para o Afeganistão. Sabe-se lá para quê!
-Está bem – impacientou-se a presidente - poupe-nos a pormenores e diga-nos concretamente o que foi feito para pôr em prática o Projecto Colapso.
O Eng. Encarregado pediu licença para ligar o seu portátil ao projector. São passados vários fotogramas da Avenida da Igreja, em Canas de Senhorim, cujos planos incidem exclusivamente no remeximento do terreno em toda a extensão da artéria.
- Como podem constatar neste slide-show, a cintura sul da vila, definida aqui pela Avenida da Igreja, já foi completamente armadilhada. As cargas de TNT foram dispostas ao longo do percurso a intervalos de 10 metros e ligadas a um sistema de controlo remoto que é accionado pelo timbre da voz de V. Exa a cantar aquela música tradicional do “Ponha aqui o seu pezinho devagar devagarinho…”. Agora é só aguardar pelo Inverno para que o terreno esteja mais permissivo ao efeito de aluvião e a explosão faça implodir o lugarejo...
A presidente interrompe bruscamente o Eng. Encarregado.
- Ponha aqui o seu pezinho devagar devagarinho?! Ó Eng. você está bom da cabeça? Ponho lá o pezinho e vou parar à Ribeira Grande, que é o mesmo que dizer vou desta para pior…
- Queira desculpar, mas permita-se corrigi-la, os nossos conselheiros da Al-Quaeda asseguram que vai desta para melhor, que a esperam 100 virgens para a servir e aquela lenga-lenga do costume. Para além disso não abdicaram deste procedimento. Os seus métodos exigem um mártir, e não nos ocorreu pessoa tão qualificada para o efeito como V. Exa, tanto pela experiência em pôr o pezinho no tal lugarejo como na notoriedade que por lá lhe é reconhecida.
A Presidente recostou-se no cadeirão pensativa - ai vocês querem um mártir, pessoa notável e de pé fincado no lugarejo - pegou no telefone e marcou um número interno:
- Ó arquitecto cante-me aí o Pezinho da Vila.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Crónicas da Galinha Riça - O Obelisco


Rafeirava por ali sem destino que não fosse o de marcar território, repondo aqui e ali a micção própria da sua natureza, quando o seu apurado olfacto detectou um aroma virgem, inodoro, que para a sensibilidade olfactiva deste animal também é uma forma de cheiro. Estacou, avaliou a direcção de onde provinha e prontificou-se a encontrar a misteriosa fonte, tomá-la só para si com uma expressiva mijadela como mandam as boas regras da sociedade canina. Fosse assim com os homens e nem a lua teria escapado enxuta à conquista americana, isto apesar das dificuldades gravitacionais implícitas.
Sacudiu-se destas cogitações e lá foi em busca do território anunciado, nariz ligeiro, desbravando curtos horizontes, não que fosse estreito de vista, era sim curto de patas, o que lhe dificultava sobremaneira ver aquilo que o nariz confirmava existir. Ia ligeiramente desconfiado, pois os sinais que lhe chegavam indiciavam algo de inusitado e, como ele bem sabe, novidades públicas nesta terra que lhe calhou em sorte não abundam. O odor intensificou-se e ele, cão prudente, tratou de avaliar a matriz ao local, pois já noutras alturas, impelido pela urgência do instinto mictório tinha negligenciado o da sobrevivência e avançado despreocupado por quintais acabadinhos de plantar, o que lhe custou escaramuças escusadas e fugas pouco honrosas. Baixou a guarda após confirmar que o sítio era público. Que ele saiba ainda não privatizaram as rotundas e esta, embora recente, era-lhe familiar, já por várias vezes ali tinha deixado o seu cunho, como agora confirmava em sondagem mais cuidadosa.
E lá estava, um obelisco quadrangular levantava-se erecto no meio da rotunda, virgem de cão e prontinho a desflorar. Não hesitou, alçou a pata e aliviou-se tantas vezes quantas arestas haviam acessíveis, desenhando elipses à altura das suas limitações, pois como sabemos este cão é rasteiro de pernas. Finda a marcação admirou a obra, não a sua, mas a dos homens: não está nada mal, pensou, quatro paredinhas ao alto, espaçosas, um mictório canino elegante, os humanos andam generosos. Elevou o olhar e leu pausadamente a mensagem a dourado fúnebre inscrita no frontispício: béu béu, béu béu, pardais ao ninho, tudo muito bonito, uma homenagem aos mártires cá da terra, também eles há procura de novos quintais fresquinhos para verter águas, que isto de linguagem de cão só não a percebe quem não quer. Cumprido o ritual preparava-se para farejar outras paragens quando o seu olhar afilado, sim porque este cão o que lhe falta nas patas sobra-lhe em visão, detectou algo muito estranho escrito num dos lados do obelisco: véu véu! Mas que raio! Releu e tresleu, porém, por mais que soletrasse saía-lhe sempre aquele latido invulgar – véu véu, véu véu. Engrossou o tom, rosnou, assanhou-se, mas o melhor que conseguiu da leitura foi um vréééuu pouco dignificante para a sua condição de cão, mesmo que rafeiro. Por fim desistiu, olhou em redor a confirmar que ninguém o tinha ouvido, meteu o rabo entre as pernas, afastou-se e desabafou entre dentes: estes canenses são loucos.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Crónicas da Galinha Riça - O Verão quente de 82

Nunca uma coisa daquelas lhe tinha acontecido. Logo pela manhã, a fiel carripana que o levava habitualmente à comarca de Mangualde recusou-se a cumprir o percurso. Dois inesperados solavancos silenciaram o motor fumegante e prostraram a resistente companheira ali para os lados da Barragem Velha, na Urgeiriça. A carripana cedeu ao calor que se fazia sentir.
Estávamos no Verão de 1982 e os telemóveis ainda demorariam alguns anos a obviar estes problemas, pelo que, o Doutor, cofiou demoradamente a barba e foi avaliar o estrago, mais por descargo de consciência do que por capacidade técnica na resolução do incidente.
- Logo hoje que tenho o processo de pantanas e o julgamento marcado para as 14 horas é que me havia de acontecer isto! Ainda por cima com as férias judiciais à porta – resmungou.
Homem poupado, nada dado a extravagâncias, recusou a ideia de ir de táxi. Reformulou as possibilidades e verificou que com alguma agilidade poderia apanhar o comboio do meio-dia, o que lhe dava tempo suficiente para comer alguma coisita e apresentar-se no tribunal. Tinha era de ir para casa rever o processo.
Se assim o pensou, melhor o fez. Voltou para casa a pé, telefonou ao “Rato” para que fosse identificar o mal da carrinha e dedicou parte da manhã ao processo, um complexo diferendo a propósito de direitos de acesso a um lameiro.
Por volta das 11 horas pegou na pasta e rumou à estação. Estranhou a calma que reinava por ali. As bilheteiras estavam fechadas e não vislumbrou qualquer movimentação que indiciasse a passagem do comboio. Desconfiado, dirigiu-se ao gabinete do Chefe da Estação:
- Então Doutor, o que é que o traz por cá? – cumprimentou-o amavelmente o Chefe.
- Venho apanhar o comboio do meio-dia para Mangualde.
- Ó Doutor então não sabe que os rápidos já não param aqui!
- O rápido já não para em Canas. Ó que carago! Isto é uma cambada de fascistas. Os reaccionários estão a tomar conta disto e este povo atrasado nem dá conta que lhe estão a comer os ossos…
Serenou após deixar sair um chorrilho de imprecações, às quais, o pobre do Chefe da Estação, impotente, dava a sua anuência.
- E o regional? A que horas passa?
- Às 19 horas.
- Olhem que uma destas…
Subiu a penosa Rua da Estação inconformado. Enquanto caminhava ia pensando num estratagema que justificasse a sua ausência no julgamento. Era preciso informar o Dr. Juiz, para que adiasse o julgamento, avisar o cliente, e, acima de tudo, providenciar um atestado médico para ficar acima de qualquer reparo.
Assim como assim, já não ia a Mangualde, portanto, ia comer calmamente e fazer os telefonemas necessários.
Almoçou e de seguida dirigiu-se ao Café Rossio onde tomou a bica do costume. Desancou a CP, os fascistas do governo, a Câmara de Nelas e incitou os clientes do café à revolta. Isto assim não podia continuar…
Por volta das 14 horas foi ao Posto Clínico falar com o médico para lhe apresentar a sua “enfermidade”. Ia na certeza do clínico atender as suas razões, até porque a situação o deixara num tal estado de nervos que por certo lhe mereceria o diagnóstico solicitado. Mas, qual não foi o seu espanto quando foi informado que o médico agora só vinha às segundas e o mais provável era o Posto Médico encerrar de vez.
-Isto é uma conspiração! É o que vos digo, isto é uma conspiração dos inimigos de Canas. Qualquer dia até para morrermos temos que ir a Nelas…
Tudo se lhe afigurava uma maquinação, uma trama conspiratória, um castigo político pelo atrevimento de Canas querer ser concelho. Vociferava sozinho contra o estado a que as coisas chegaram. Era preciso fazer alguma coisa. Este pensamento não lhe saía da cabeça.
Voltou ao café e uma vez mais deu conta aos presentes do que estava a acontecer.
- Vocês estão todos cegos? Não vêm que nos estão a roubar descaradamente! É preciso fazer alguma coisa.
Acalmou para repensar a sua situação pessoal. Já tinha feito os telefonemas, o julgamento tinha sido adiado, tinha cinco dias para apresentar o atestado, portanto, só precisava de ir a Mangualde buscar alguns elementos que foram anexados ao processo à última da hora e dos quais não tinha conhecimento. O melhor era enviar um ofício urgente à secretaria do tribunal para que lhe enviassem fotocópias dos documentos, não fossem as más-línguas estranhar a presença do suposto doente.
Olhou para o relógio. 17 horas em ponto. Rabiscou um texto rápido e dirigiu-se aos Correios para expedir a correspondência com carácter urgente. A funcionária, simpática, selou o envelope mas informou-o que, mesmo urgente, só seguiria amanhã, pois a correspondência do dia já tinha sido recolhida às 16H30, conforme instruções superiores.
Foi a gota de água. Mais pelas situações desconcertantes de que foi alvo do que pelo sol que apanhou no vaivém dos desfazeres, um tremor de pernas fê-lo sucumbir ligeiramente, a cor do rosto passou de vermelho-raiva a amarelo-desmaio e só uns sais miraculosos providenciados pelo Jorge da farmácia lhe devolveram alguma correcção.
Recuperou ao fim de uma boa meia-hora. Foi para casa e fez alguns contactos. Era preciso fazer alguma coisa. Nessa noite reuniu no antigo Zé Pataco um grupo de canenses que, solidários com as adversidades do Doutor, delinearam os traços gerais das acções subversivas que teriam lugar no dia 2 de Agosto de 1982 e que extrapolaram para a comunidade os inconvenientes de um dia aziago na vida de um causídico.
Actualmente comemora-se a data recordando as motivações concelhias que supostamente lhe estiveram na origem. O que pouca gente sabe é que tudo começou com um problema de aquecimento de uma velha e esbaforida carripana e das desventuras do seu proprietário.

segunda-feira, junho 25, 2007

Crónicas da Galinha Riça - Memorial dos passeios


Vieram de longe estes artífices da pedra. A obra era megalómana e o aparato da chegada dos operários trouxe ao adro da igreja muitos curiosos animados pela novidade e pela extravagância da ocorrência. Não era comum nesta vila beirã assistir-se à execução de obra de vulto, facto que desde logo levantou algumas suspeitas, mas, iniciados os trabalhos, logo a suspeição se desvaneceu para dar lugar ao assombro. O ar boquiaberto da assistência não dava lugar a dúvidas, o início da obra não era uma miragem. A maquinaria avançou convicta, seguida de pedreiros, assentadores, calceteiros, tudo numa roda viva, confirmando a sumptuosidade do empreendimento. Qual Torre de Babel, a obra estender-se-ia para além da visão mais apurada, desaparecendo do alcance humano na encruzilhada das Alminhas, à Fonte da Cruz, relação assaz curiosa, como mais à frente ireis perceber.
Na senda de outros empreendimentos, também este foi planeado em jeito de promessa por graça concedida. Salvaguardadas as distâncias e as circunstâncias históricas é inevitável a comparação entre a execução dos passeios da Avenida da Igreja e a construção do Convento de Mafra, não só pela complexidade do projecto mas também pela motivação dos seus mentores.
O rei D. João V, amante desenfreado das mais belas freiras do reino, ficou desconcertado na sua virilidade quando verificou a fealdade da sua consorte D. Maria Ana de Áustria. Ora, não havendo falta de freiras à altura, D. João V negligenciou a câmara nupcial da rainha privando-a da sua mui preciosa semente real. Passaram-se assim dois anos sem que D. Maria Ana sentisse o vigor da fertilidade, agravo ainda maior se atendermos às consequências políticas que a falta de herdeiros implicava. Perante o absoluto repúdio que a rainha lhe incutia, D. João V, rodeado das suas acólitas predilectas, fez votos a Sto. António, prometendo construir um grande convento caso visse garantida a improvável descendência.
Pois de milagres vivem as desonestas intenções. O santo casamenteiro lá se aprestou a virar o gume ao arado e a encaminhar o nosso rei a rego certo. Deste encaminhamento nasceram cinco filhos e com o ouro abundante que lhe chegava do Brasil deu cumprimento à promessa. Mandou construir o convento de Mafra.
Também aqui por Canas reinam desconfortos conjugais. Todos sabemos que a “madrasta”, cognome que um conceituado cronista cá da praça atribuiu à rainha que nos calhou em sorte, não morre de amores por nós, mas, mesmo de cabeça enfeitada por infidelidades permanentes, insiste neste casamento forçado que se arrasta quezilento há mais de um século. No nosso caso não está em causa a questão da descendência, pois a “madrasta” é estéril e, por mais que lhe enchamos o baú de diamantes, dali não sai nada; o que ambicionamos mesmo é o divórcio pleno, por isso optámos pela via litigiosa, ainda que os frutos colhidos nos tenham, por enquanto, sido amargos.
Mas, dizia eu, é notória a similitude de processos entre a recusa de D. João V e a cupidez da “madrasta”. Aquele, temendo a desagregação do reino na ausência de herdeiro, invocou o santo por via de promessa conventual para que lhe assegurasse a linhagem, esta, confrontada com a possibilidade de ver o seu território fracturado, rogou a São Salvador que fizesse jus ao nome e lhe salvasse a unidade territorial concedida pelo inusitado matrimónio. Em reconhecimento prometia construir belos e extensos passeios ladrilhados a granito na avenida de Sua santa morada. Para feito difícil, promessa grandiosa, como mandam as regras canónicas.
Foi atendida a “madrasta” que assim evitou a desagregação do território e consolidou o insensato casamento. Agora, mãos à obra que é preciso pagar a promessa, não vá o Diabo tecê-las.
Mas esta terra é difícil. Nem os homens cuidam do cumprimento de promessas nem os santos se entendem quanto à administração dos milagres. Iniciados os trabalhos não foi preciso muito tempo para verificar o malogro. Especula-se que foi tanto o empenho dos operários a martelar a pedra e a esburacar os passeios que, as alminhas residentes na encruzilhada da Fonte da Cruz, logo ali, a cem metros dos trabalhos, acordaram do sono secular a que a distracção divina as tinha condenado e urravam agora lancinantes perante os renovados suplícios do purgatório. Tementes a estes fenómenos sobrenaturais, os trabalhadores, crentes e não crentes, ficaram aterrorizados e fugiram desordenadamente, abandonando maquinaria, ferramenta e material. Ainda hoje não se sabe onde eles param.
Estarrecidos ficaram também os canenses, não por efeito do fenómeno, que ao purgatório já estão habituados, mesmo que o dos vivos, pois que conste, nada prova que seja menos doloroso que o dos mortos. O que os pasmou foi a “madrasta”, pois ao que parece, inspirada nos dons etéreos de Blimunda, anda prestimosa a recolher as vontades dos moribundos agonizantes das Alminhas. Se essas vontades, preservadas em âmbar, tinham o poder de fazer subir a complexa passarola do Gusmão também haveriam de erguer os igualmente difíceis passeios da avenida.

Bons repenicos

quarta-feira, maio 16, 2007

Crónicas da Galinha Riça - O Decepado

Corria o ano de 1476 quando portugueses e castelhanos se defrontaram na batalha de Toro. Conta-se que um tal de Duarte de Almeida, alferes-mor de Afonso V, acossado pelos castelhanos, resistiu heroicamente ao confronto mantendo o estandarte real português nos dentes após diversos golpes do adversário lhe terem decepado os membros superiores e sabe-se lá que outras partes do corpo, não fosse o pudor histórico da heroicidade sensível a descrições mais pormenorizadas.
Mas esta é a história oficial contada aos quadradinhos nos compêndios infantis com que se apela ao patriotismo das criancinhas. Na verdade, os acontecimentos foram muito diferentes, ainda que, como veremos, o resultado tenha sido o mesmo.
Por morte do rei de Castela, D. Henrique IV, O Impotente, casado com D. Joana de Portugal, irmã do nosso rei, D. Afonso V, acusada de ser amante de um tal de D. Béltran de La Cueva, relação que originou o aviltante título de “A Beltraneja” à então infanta Joana, única herdeira ao trono de Castela, ficou a sucessão comprometida, uma vez que, conjuntamente com a impotência, pendia sob D. Henrique IV a suspeita de homossexualidade e sob D. Joana de Portugal a prática de adultério (jeitosos, estes). Perante este regabofe, dividiu-se a nobreza castelhana que impugnou a coroação da infanta Joana, alegadamente filha ilegítima, a favor de sua tia, D. Isabel, irmã de D. Henrique IV.
Ora, o nosso rei, descortinando vantagens para a coroa portuguesa e desconhecedor ainda do célebre ditado “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”, não quis saber destes desvios de alcova. Casa com a sobrinha, a infanta Joana, reclama para si o direito de reinar sobre Portugal e Castela e invade o país vizinho. O desenrolar desta invasão culmina na batalha de Toro, ali para os lados de Zamora, que opôs portugueses e alguns castelhanos que apoiavam a pretensão de Afonso V a castelhanos e aragoneses que apoiavam a irmã de D.Henrique IV, D. Isabel. É verdade que esta união não tinha muitos adeptos por parte de Castela, mas mesmo assim ainda tivemos o apoio de alguns nobres castelhanos que tinham jurado fidelidade à princesa “Beltraneja”. E é aqui que começa a confusão que viria a dar origem à verdadeira história do Decepado.
Naquele tempo as diversas casas nobres, como a do duque de Barcelos ou do Duque de Coimbra, tinham os seus próprios brasões que hasteavam nos respectivos porta-estandartes. Para além de identificar a sua posição no campo de batalha serviam de sinalética para desenvolver estratégias de combate. Dada a presença de alguns nobres castelhanos, fiéis à princesa e aliados de Portugal, na preparação da batalha de Toro, para evitar confusões de cores e garantir a eficácia das manobras, determinou-se que todos os bastiões lutariam debaixo do mesmo pavilhão, o brasão da casa real portuguesa, neste caso o brasão pessoal de D. Afonso V. Porém, à revelia do combinado, um dos bastiões portugueses não acatou tal determinação e integrou um dos flancos do exército português com um estandarte cujo brasão não correspondia nem às cores nem à forma estabelecidas. Ainda hoje não se sabe ao certo, mas alguns historiadores afirmam que tal atitude reflectia um certo sentimento de impunidade de alguns aristocratas que entretanto tinham acumulado poder e constituíam verdadeiros reinos dentro do reino. Seja como for, tenha sido por soberba, incúria ou negligência grosseira, o certo é que o alferes Duarte de Almeida, por inerência, responsável pelo estandarte cujo estranho brasão desirmanava dos demais, foi de imediato bordoado por uma carga de valentes portugueses que no tropel da batalha o julgaram cavaleiro da hoste inimiga. Foi tal o desentendimento que o acossado acabou desmembrado pelos feros golpes dos próprios camaradas de armas. Valeram-lhe os castelhanos que, testemunhando a carnificina e julgando-o dos seus, o recolheram moribundo e lhe pagaram tributo em vida pelo controverso acto de bravura.
A batalha foi um fracasso. Sem honra nem glória os nobres portugueses deram conta a D. Afonso V da história do malogrado Duarte de Almeida. Com a mestria que caracteriza os grandes soberanos o nosso rei viu ali uma oportunidade para que nem tudo tivesse sido em vão. Perdida a honra salve-se o convento, vociferou o monarca.
Todos sabemos que para ultrapassar psicologicamente uma grande derrota são necessárias pequenas vitórias, sobretudo se coloridas com actos heróicos de reconhecida valentia. Foi com este pensamento que o rei ordenou que se voltasse ao campo de batalha aproveitar o desaproveitável para disso fazer glória escrita. Por entre amputações e esquartejamentos arrecadaram-se as preciosas sobras anatómicas dos mutilados que, para orgulho nacional, haveriam de contar a história do Decepado.
Da moral desta história tirai vós as vossas conclusões.

Bons repenicos

segunda-feira, abril 09, 2007

Crónicas da Galinha Riça - O Silêncio dos Inocentes

Impera um silêncio generalizado por estas bandas. Eu, por hábito e rigor profissionais, preciso de factos devidamente comprovados para exercer o mister que assumi aqui no Mulherio. No entanto, ultimamente, só algum juízo especulativo torna possível manter estas crónicas.
O pacto de silêncio entre a “presidente de lá” e o “presidente de cá” a que serenamente vamos assistindo foi tacitamente acordado depois de salvaguardadas duas cláusulas fundamentais na relação entre ambos e que basicamente determinam: eu vou fazendo, tu calas.
Não pensem que a assinatura deste pacto foi pacífica. O nosso presidente, intrépido como ele é, não é homem para ficar calado, muito menos a rogo de mulher. Reconhecendo que este acordo, baseado no silêncio e condicionado pela expressão vaga constante no documento “eu vou fazendo” não vinculava a presidente a qualquer compromisso tangível, exigiu que lhe fossem dadas garantias de que efectivamente o seu silêncio teria como contrapartida obra feita e da grande. Nada de passeios, rotundas, lâmpadas ou alcatrão. Queria algo que calasse não unicamente a sua pessoa mas que embasbacasse definitivamente os canenses. Era este o preço do silêncio.
Os preâmbulos do acordo foram diligenciados pelo gabinete jurídico da presidente que, susceptível à exigência do autarca, solicitou que este elaborasse um memorando com os grandes objectivos que ele tinha em mente para a sua freguesia. Seriam devidamente avaliados e por certo alcançar-se-ia um acordo favorável para ambas as partes.
Não levantou grande dificuldade enumerar as grandes obras e os projectos que o presidente ambicionava para Canas. A saber:
- Uma central de biomassa (em alternativa uma central atómica).
- O aeroporto, previsto para a OTA, a implementar entre Canas de Senhorim e a Aguieira.
- A passagem do TGV na linha da Beira-Alta.
- A realização da final da Liga dos Campeões no complexo desportivo de CS.
O nosso presidente apensou o rol de projectos ao protocolo da mudez e remeteu-o à presidente. Esta leu-o incrédula. Depois de fazer uns telefonemas a solicitar aconselhamento, ponderou a estratégia e chamou o presidente ao seu gabinete. Foi directa.
- Sr. presidente, algumas destas possibilidades estão fora de questão. É o caso da central de biomassa que já está planeada para a sede do município; o TGV, cujo traçado já está determinado e a final da Liga dos Campeões, que está fora do âmbito institucional do estado. Quanto à central nuclear, como sabe, o governo excluiu essa via do plano energético do país… portanto resta-lhe, aliás, resta-nos a construção do aeroporto que está previsto para a OTA.
O nosso presidente ficou mudo, mesmo antes de assinar o pacto de silêncio. Por esta é que ele não esperava. Tinha inscrito alguns exageros no "memo" para que, por obvia eliminação, a presidente cedesse a central de biomassa que lhe parecia bastante acessível. Agora deparava-se com a possibilidade megalómana de um aeroporto. Bem, se isto fosse avante recolhia à clausura da ordem das Carmelitas e fazia votos de silêncio para toda a vida. A voz da presidente tirou-o da estupefacção.
- Claro que será difícil demover o actual governo da intenção de o construir na OTA. Porém tive a confirmação das mais altas entidades do principal partido da oposição que envidarão todos os esforços para que a decisão sobre a localização do aeroporto seja revista. Para além disso receberam com bom grado a sugestão que aponta a sua fixação no interior beirão e prontificaram-se a enviar técnicos para iniciar os estudos preliminares... mas o que dava mesmo jeito era uma palavra de apoio do Presidente da República.
Ó que carago! Outra vez o Presidente da República. Será que hei-de ser eternamente perseguido por esta figura. Tudo se faz neste país, de bom e de mau, sem um ai do PR, mas quando nos toca a nós lá está o supra-sumo da nação de veto em riste a reclamar a cabeça dos inocentes – remoeu em pensamento o nosso presidente.
Destas reflexões não deu conta à presidente. Confiou nas suas boas intenções e, com alguma apreensão mas consciente que pouco mais poderia fazer, assinou o pacto e colocou a mordaça.
Adivinhando-lhe as preocupações a presidente serenou-o:
- Não se preocupe, este Presidente da República é cá dos nossos. Vai ver que não interfere. O importante é cumprir o tratado, portanto bico calado.
Nos últimos tempos temos assistido a grandes controversas sobre a localização do novo aeroporto, estimuladas exclusivamente por iniciativa do partido que apoia a presidente. Ainda é cedo para festejar, até porque “festejos antecipados dão sempre maus resultados”, como muito bem nós sabemos, mas agrada-me a ideia de que o mutismo do nosso presidente está a dar os seus frutos. Parece-me para breve o fim do silêncio dos inocentes. Já ouço o barulho das turbinas dos aviões lá para os lados do Paçal. Vrrruuuum. Vrrrruuummm. Ou serão as Bruxas do Paitor?

Bons repenicos

sexta-feira, março 23, 2007

Crónicas da Galinha Riça - A Linhagem

A linhagem está em perigo. Uma das galinhas-mor que, contrariando tendências, usurpa de poleiro considerável, foi, alegadamente, alvo de uma bicada insidiosa por parte de um correligionário atrevido. No calor da disputa pelo poleiro, à galinha Maria José de nada lhe valeu o apelido Pinto. O agressor não se deixou comover por referências infantis e arrancou-lhe umas quantas penas, tal foi a violência do confronto. E logo das mais lustrosas. As da dignidade.
Parece ter havido tamanha escaramuça naquele galinheiro que muitos dos galináceos residentes, independentemente dos privilégios que dispõem, ameaçam abandonar o prostíbulo. Embora poucos, ou talvez por isso, demonstram um forte sentido de competição por posições altaneiras na capoeira, até agora liderada por um galo de fraca competência, facto que abriu “portas” a outros voos rapineiros.
Esta herança competitiva ficou-lhes do nacionalismo expansionista aquando da domesticação do território, bandeira de que ainda hoje se orgulham e da qual julgam ser os verdadeiros herdeiros. Saudosos de questiúnculas monárquicas a propósito de direitos sucessórios ao trono, bastou o galo Portas, que alguns apelidam de “raposa”, voltar a abanar a cauda e desatou tudo a espavonear-se desenfreadamente, reformulando posições e alianças internas no intuito de melhor se servirem da gamela.
Veio em sua defesa, o suposto agressor, declarar que tudo não passou de uma questão de colorido. As suas penas não eram da mesma cor que as da ofendida e daí a razão da escaramuça - se eu não tivesse estas penas nada disto tinha acontecido – declarou, expondo o seu penar. Logo se gerou uma confusão de argumentos e insinuações que descambaram numa trapalhada com contornos racistas.
A linhagem desta família assegura aos seus membros um colorido generoso e as múltiplas colorações que detêm são comummente objecto de disputas preferenciais. Ou não fosse este galinheiro de direita, reduto de algumas tradições aristocratas pouco recomendáveis. Ora, segundo a linha que eles próprios advogam, as variantes cromáticas podem perfeitamente favorecer a natureza de determinado exemplar, em detrimento de outros cuja penugem se evidencie menos brilhante. Então se for monocromática e em tons pouco comuns ao género, o exemplar certamente não corresponde à linha genética desta família, circunstância que por certo pesou no desaguisado.
O que não entendo é a presença permitida daquele exemplar duvidoso no seio daquela família. Então tantos anos de afinação genealógica de tão dignos membros não foram suficientes para acautelar misturas inconvenientes? Andou o Mouzinho de Albuquerque na sua campanha por terras de África, a apurar a espécie livrando-os de gungunhanas e outros bijagós, para agora serem aviltados por infiltrações de elementos de ascendência suspeita e outros que, embora de casta aceitável, revelam comportamentos injustificáveis. Ele é o raposa Portas, habilidoso palaciano; ele é um tal galaró Monteiro, doninha destemperada; e agora, para cúmulo, um servo, aio da raposa, acaba por comprometer seriamente a linhagem familiar e corromper irreversivelmente a estirpe. Hilariante.
Quanto a este elemento destabilizador parece que houve negligência grosseira aquando da apreciação do seu processo de admissão. Foi-lhe concedido o benefício da dúvida por ter alegado que um seu antepassado pertenceu ao bando de saqueadores liderado por Viriato, estatuto que, após o Estado Novo ter reescrito a história e atribuído a Viriato honras de general, lhe conferiu de imediato acesso a posição privilegiada. Tal suposição carece de confirmação, mas desde já indicia falhas graves de recrutamento que, a bem do grupo familiar, convém corrigir.
Ainda assim, folgo saber que a galinha-mor optou pelo silêncio, resguardando-se da vergonha que a contenda prometia. No entanto, pondera renegar a família, gesto assaz curioso para quem, como ela, sabe que o suposto agressor sabe aquilo que ela sabe que ele sabe.

Bons repenicos

segunda-feira, março 05, 2007

Crónicas da Galinha Riça - O Delfim

Já estávamos tão habituadas às suas bicaditas que foi com grande tristeza e até com algum inconformismo que aceitámos a evidência. O berloqueiro-mor cá da nossa praça evadiu-se ou esvaiu-se, conforme queiramos.
Mas não nos surpreendeu. As estratégias pessoais dos aspirantes a uma carreira política têm destas coisas. Baseados no ciclo da reviravolta eleitoral, os carreiristas expõem-se, escondem-se, migram, imigram e emigram conforme conveniências partidárias e ambições pessoais. Usam frequentemente os meios de comunicação para relançar as suas carreiras, porém, quando queimados na contenda política ou apanhados com a boca na botija, fogem da televisão e dos jornais como o diabo foge da cruz, almejando o esquecimento que lhes trará a redenção futura. Destes, diz-se que fazem a travessia do deserto, como se tal ausência lhes purificasse os erros, ou, no último caso, lhes expiasse os pecados e lhes devolvesse virtudes que nunca tiveram. Coelho na toca não encontra chumbo.
À falta de televisões e jornais aqui no burgo, o nosso paladino aprendiz de feiticeiro, expôs-se publicamente nos berloques cá da terra, angariando reputação e protagonismo notórios. Ora como articulista, ora como comentador, alvitrava de sua justiça a torto e a direito e, atrevo-me a dizer, quase fazia doutrina, não estivesse do lado errado da barricada.
Nas alturas mais conturbadas da cena política canense tentou com o seu voluntarismo operacional atenuar a fogueira que ardia sem controlo e que queimava uns e outros, à esquerda, ao centro e à direita, mas, o combustível que a alimentava era oleoso e quanto mais água deitava na fervura mais a labareda se revelava descontrolada. Acabou enredado no emaranhado da política interna e chamuscado naquele fogaréu fratricída, pois, para mal dos seus pecados, a sua costela rosa era comprometedora e a malta não lhe perdoou a matiz.
Agora, talvez inspirado pela mestria dos mentores nacionais, este dinâmico e bem sucedido berloquista eclipsou-se. Parece ter optado pela estratégia da descrição e do distanciamento, quem sabe, já a pensar na sucessão política que a sua condição de delfim propicia.
Confrontado com a vulgarização a que se permitiu, perfeitamente contrária às regras mais básicas que a credibilidade política exige, optou por reter ímpetos entusiastas e rastos embaraçosos. Para evitar a fulanização a que a exposição berloqueira o sujeitava, afastou-se destas andanças, buscando no deserto o branqueamento do passado irrequieto e truculento, pouco promissor às aspirações políticas que anseia.
É uma pena, pois perdeu-se um bom berloqueiro e não vamos ganhar por certo um bom político.

Bons repenicos

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Crónicas da Galinha Riça - O Entrudo

Deus criou o paraíso de Canas de Senhorim. Deslumbrado com a Sua obra decidiu habitá-lo. Primeiro criou o bairro do Paço, depois, das entranhas deste, tirou um pedaço e formou o do Rossio.
Os dois bairros conviveram harmoniosamente durante muito tempo, usufruindo das dádivas terrenas que generosamente Deus lhes tinha concedido, até que um dia, entediados da eterna felicidade que lhes tinha sido destinada, ousaram desafiar a graça divina.
No jardim paradisíaco que habitavam havia uma árvore encantada cujo fruto se supunha capaz de curar os males da alma e do corpo - a árvore do Entrudo. Os seus frutos continham o doce veneno de Afrodite e proporcionavam delírios alucinogénios fantasiosos, estimuladores dos comportamentos mais estouvados. Deus tinha-lhes recomendado que não ousassem provar de tal fruto, pois, embora sedutor, simbolizava a origem do mal e quem dele provasse ficaria eternamente condenado.
Contudo, o Rossio, mais jovem e como tal mais ousado, não resistiu ao encantamento e colheu o fruto proibido. Porém, receoso dos seus efeitos e da condenação divina deu-o a provar inicialmente ao Paço. Este não se fez rogado e caiu na tentação. Logo uma força desconhecida lhe retemperou a alma e as cores. Desatou aos saltos e aos gritos num histerismo misto de alegria e de loucura. O Rossio não lhe ficou atrás. Acabaram por devorar o fruto em três dias de folia e algazarra descontrolada.
No último dia, quando do fruto já só restava uma dentada, gerou-se a controvérsia. Quem é que merecia o último pedaço, quem é que por direito deveria prolongar a euforia. Ocorreu logo ali uma grande zaragata e um despique fervoroso entre os dois bairros para decidir quem sairia vitorioso no confronto, em suma, quem ficaria com a derradeira trincadela do fruto da árvore do Entrudo. Quem ganharia o Carnaval.
Foi nessa altura que, irrompendo do Seu sossego celeste, surgiu Deus. Ainda estremunhado por ter sido arrancado ao Seu sono divino pelo desaforo dos beligerantes, apresentava um semblante carregado, nada próprio da Sua habitual placidez. Dirigiu-lhes a palavra num tom pouco amistoso:
- O que vos disse eu quanto à arvore do Entrudo?
- Mas, Senhor a culpa foi do Rossio, que não atendendo à Tua recomendação colheu o fruto… – desculpou-se o Paço.
- Mas quem lhe tomou o gosto foste tu – retorquiu o Rossio.
Deus impacientou-se e mandou-os calar. Depois na Sua eterna sabedoria sentenciou:
- Perante o vosso desrespeito condeno-vos a digladiarem-se perpetuamente uma vez por ano durante três dias e, para remissão do pecado, a arderem em praça pública ao quarto dia. Além disso, tu, Paço, por terdes aceite comer do fruto proibido, haveis de marchar eternamente para o Rossio, para aí vos sujeitares ao confronto.
Regozijou o Rossio com a sentença aplicada ao Paço. No entanto…
- E tu Rossio, por terdes desobedecido às minhas ordens, até ao fim dos tempos nunca haveis de ganhar um só confronto. Cumpra-se a minha vontade.

E assim, ao longo dos anos se tem cumprido a vontade de Deus em Canas de Senhorim. E assim será até à eternidade. Ámen.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Crónicas da Galinha Riça - A Mãe Natal

A Mãe Natal acordou bem disposta naquele dia. Enquanto se banhava em aromas de lavanda e outros recursos libidinosos ia pensando qual a indumentária que lhe proporcionaria mais força para impor, na Concertação Natalícia, as ideias confidenciadas durante a noite, entre afagos e requebros de boa memória. Sim, porque isto de uma mulher transmitir segurança e exercer poder pode muito bem ser influenciado pela cor do vestido ou das formas que este revela ou esconde, especialmente se o meio onde se move for maioritariamente masculino.
O costumeiro “tailleur” vermelho que já lhe garantiu persuasão e credibilidade parecia-lhe agora insuficiente para levar a cabo as iniciativas que o seu amante lhe tinha sugerido naquela noite.
Optou por um vestido cor de vinho, ligeiramente acima do joelho e generoso no decote. Sapatos pretos de salto alto, sem exagero. A lingerie foi escolhida meticulosamente. Ligas preto-translúcido, cuequinha e underbra vermelhos, para não quebrar totalmente a tradição. A rematar a compostura, um pormenor íntimo, pouco vulgar numa Mãe Natal mas eficaz no propósito: Uma tatuagem discreta na zona púbica, evidenciada pela ausência de pelugem que uma cuidada depilação tornava visível a quem com ela comungasse intimidades. Duas letrinhas apenas, dedicadas de dor e alma ao seu recente amante – LP.
Olhou-se pela última vez ao espelho. Compôs o cabelo e hesitou na escolha do perfume. Para esta ocasião precisava de um aroma forte e quente. Aquela sala tinha que sentir a força que emanava do seu querer. Os perfumes americanos são muito light, próprios para aventuras descomprometidas, logo pouco convictos. Só os franceses correspondem ao requisito. Começou a enumerá-los. Christian, Yves, Chanel, Angel... Angel! Sim, este é capaz de hipnotizar um anosmático. Aspergiu-se e saiu confiante.
Na sala onde iam ser tomadas as grandes decisões para este Natal, discutiam-se informalmente prioridades e estratégias na distribuição dos presentes, quando a Mãe Natal assomou à porta. Todos se levantaram em devido respeito.
- Deixem-se estar. Muito bom dia meus senhores – cumprimentou cerimoniosa, tomando a palavra.
- Li todos os relatórios que os senhores elaboraram. Felicito-os pelo excelente trabalho. Concordo na generalidade com as vossas recomendações pelo que já autorizei as verbas necessárias à execução das vossas propostas. Porém, gostava de chamar a vossa atenção para a completa omissão relativamente à vila de Canas de Senhorim...
Mal a palavra Canas se fez ouvir, logo um murmurinho reprovador se instalou entre os presentes. Um dos pares, inconformado com aquela chamada de atenção, lembrou:
- Mãe Natal, como é do seu conhecimento, nunca tal vila foi tão presenteada como aconteceu ao longo do mandato do qual vossa excelência é legítima titular. Bem sei que o comportamento dos canenses no presente ano foi exemplar, poupando-nos a rebeliões e outras inconveniências habituais, contudo, e creio poder falar em nome de todos os signatários da Concertação Natalícia, é de todo contraproducente reforçar o cabaz de Natal de Canas de Senhorim, pois já tiveram o seu quinhão ao longo do ano. São uns pedinchões e uns mal agradecidos. Se lhes damos uma Play-Station 2, querem logo 4 comandos, um jogo de Wrestling, um do OO7 para PC e ligação à Internet para jogar on-line. Mesura e parcimónia, Mãe Natal. Mesura e parcimónia. Tenho dito.
Todos acenaram afirmativamente em gesto de concordância e até houve um, mais labioso que exclamou, “apoiado”. A Mãe Natal não vacilou. Aguardou serenamente que os ânimos serenassem. Depois, ergueu-se da cadeira, insinuando corpo e aroma e esclareceu:
- Compreendo a vossa apreensão mas deixem que vos diga que ainda sou soberana em matéria de prendas e a decisão final é da minha competência. Neste Natal faço questão em descriminar positivamente Canas, pois não posso alhear-me da miséria que lhes calhou em sorte em Natais passados. Para além disso gostava de alertar que os presentes que vou propor, para os quais espero a vossa anuência, não constituem despesa para o Banco São Nicolau, pois eles serão suportados por verbas da CMN, o que é o mesmo que dizer, pelos próprios canenses. Proponho, portanto, para este Natal que se contemple a vila de Canas de Senhorim com mais duas rotundas, que se conclua a rotunda da Escola e que se iluminem convenientemente as suas ruas. Compete-me a mim, com a ajuda de vossas excelências, proporcionar aos mais desfavorecidos um feliz Natal. Julgando estar a minha proposta imbuída do espírito que norteia os princípios fundamentais desta concertação, apelo ao vosso alto sentido humanitário para reconfortar os canenses que, no seu sábio silêncio, devem ser merecedores da nossa especial atenção.
Dito isto, a Mãe Natal, ajeitou o vestido, colocou as palmas das mãos no tampo da mesa e, mantendo-se soerguida olhou-os, um por um, em jeito de desafio. O decote generoso deixou entrever fugazmente a renda vermelha do underbra, que despia volumes difíceis de contrariar. Há já algum tempo que a fragrância do Angel tinha intimidado a plateia e foi neste clima que a reunião viu aprovados os presentes de Natal para Canas de Senhorim.
Dizem as más línguas que estas prendas só foram possíveis porque a Mãe Natal anda caída de amores por um canense e que até tem as suas iniciais gravado algures no corpo, prova inequívoca do romance. Pois a vossa cronista está em condições de afirmar que é mentira, ou pelo menos é meia-verdade. O que a Mãe Natal tem tatuado no baixo ventre são as iniciais da expressão “Loucamente Perdida”. E quanto a isso só ela poderá dizer por quem!

Bons repenicos

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Crónicas da Galinha Riça - O Natal

No pretérito dia 1 de Dezembro, o Pai-Natal apresentou na Câmara Municipal uma exposição em que alertava as entidades competentes para a possibilidade de não estarem reunidas em Canas de Senhorim as condições necessárias para o cabal desempenho do exercício das suas funções, isto é, a distribuição do Cabaz Natalício.
Entre outros considerandos, denunciava a fraca iluminação da vila e o estado deplorável em que se encontram passeios e ruas. Vejo mal e o reumatismo ataca-me as pernas. Se a tarefa de distribuir os presentes de Natal em condições favoráveis já é de difícil execução, quanto mais confrontado com o estado lastimoso em que se encontram os acessos daquela vila, declarava a certa altura no documento.
Terminava afirmando que, se nada fosse feito para alterar tal estado de coisas, poderiam os canenses ver-se privados da visita do Pai-Natal, circunstância que poderia trazer consequências inimagináveis e da qual declinava qualquer responsabilidade.

Do gabinete da Presidência da Câmara foi despachado ofício dirigido ao Pai-Natal, cujo conteúdo passo a transcrever:

São Nicolau
Eminência:

No respeito pelos valores da tradição Cristã, incumbe-me esclarecer Vossa Eminência que a apreensão traduzida em exposição dirigida a esta Câmara foi por mim antecipada em Maio do corrente ano.
Assim, consciente dos problemas apontados e da consternação que daí podia advir, disponibilizei à entidade competente uma verba considerável, de forma a colmatar as dificuldades referidas e obviar previsíveis inconvenientes.
Por imperativos ou prioridades que só os responsáveis daquela vila poderão explicar, a verba foi canalizada para outros fins que não os que justificaram tal reforço financeiro, designadamente a construção de um anfiteatro e a organização de uma semana de “forrobodó”, porventura legítimos, mas destituídos do carácter urgente que se impunha considerar.
Contudo, conhecendo o sentimento muito pouco natalício que os canenses nutrem pelo seu município, afigura-se-me catastrófica a possibilidade de Canas de Senhorim ficar privada da visita do Pai-Natal pelos motivos invocados.
Nesta conformidade, sugiro humildemente a Vossa Eminência que convoque os canenses a concentrarem-se no anfiteatro na noite de 24 de Dezembro, em hora a determinar, para aí poderem receber ordeiramente os seus presentes de Natal.
A zona de concentração sugerida foi criteriosamente seleccionada e satisfaz os requisitos previamente determinados para a execução de tão nobre tarefa: Boa visibilidade nocturna, arruamento espaçoso e devidamente pavimentado, passeios largos e rotunda acautelada para manobrar as renas de que Vossa Eminência é mui digno proprietário.
Julgando assim obviar maiores inconvenientes, subscrevo-me atenciosamente endereçando votos de um Feliz Natal.(Assinatura ilegível).

Pois é, meus caros conterrâneos. Este ano, presentinhos, só para os lados da piscina.

Bons repenicos

sexta-feira, novembro 03, 2006

Crónicas da Galinha Riça - Quintal em Movimento

Na sequência da tomada da Junta de Freguesia pelo Movimento e da troca de lugares na Câmara Municipal, esvaiu-se muita da animação a que os nossos conterrâneos estavam habituados. Este efeito contribuiu para um crescente desapego da luta por parte de sectores ditos moderados, efeito que urgia inverter rapidamente. Até há quem afirme que a ala mais radical do MRQ ( Movimento para a Restauração do Quintal) se insurgiu com a apatia vigente, exigindo ao presidente do Jumento (Junta e Movimento) que esclarecesse publicamente as suas intenções.
Confrontado com esta onda de insatisfação, o Jumento reuniu com carácter urgente. Era preciso fazer qualquer coisa para reactivar energias:
- Reactivar ou reanimar? - perguntou o responsável do departamento cultural do MRQ.
- Reanimação vais tu precisar se continuas com essas piadinhas à Gato Fedorento - surpreendeu-o o presidente com um olhar repreensivo.
- É pá, que má disposição… pois fiquem sabendo que eu fiz o trabalhinho de casa e já trago um esboço de iniciativas para rea…, para animar a malta. Para começar e recuperando tradições culturais sugiro que se organizem competições de chinquilho, bisca lambida, malha, corte de chouriço, levantamento de copo, matraquilhos, peão, prego, garrafão, estátua, mata, elástico, lá vai milho…
Aqui, este elemento empreendedor fez uma pausa para auscultação, logo aproveitada pelo presidente que, de olhar ensombrado, atalhou:
- Isso do “lá vai milho” tem alguma coisa a ver com aquelas marias do blog do “Mulherio”? Já agora só falta uma luta de galos. Isto aqui não é silo onde as meninas possam vir debitar carências e reclamações. Se quiserem participar nos eventos, angariar milho ou roçar as calcinhas no elástico, organizem-se como associação e dêem o corpinho ao manifesto. Montem uma barraquinha que à noite logo se vê.
- Ó presidente, olhe que numa luta de galos ninguém o batia – insinuou, jocoso, um dos adjuntos para a área da desinformação.
Todos conheciam o talento do líder em eliminar adversários políticos e aquela observação foi acolhida com um aceno geral de assentimento. Aflorou um sorriso no semblante do presidente. Relaxou a mesa e prosseguiram os trabalhos.
- Música. Muita música, gaiteiros, pauliteiros, chocalheiros, bombeiros…
- Bombeiros!? – repetiram em uníssono os presentes.
- Sim, podem ser aqueles de Lavacolhos.
- Ai minha nossa senhora, a quem isto está entregue – desesperou o presidente – ó homem, “Zés Pereiras”, “Zés Pereiras” é o que tu queres dizer.
O homem da cultura indagou com o olhar os restantes elementos na esperança que alguém o elucidasse quem eram aqueles. Porém, como resposta só obteve exclamações de indignação.
- Olha qu’esta! Ó homem, lá por tocarem bombos não são bombeiros. Como é que tu não sabes isto?
- Vocês é que são uma cambada de ignorantes. Tenho um primo que é bombeiro e toca na banda de Lavacolhos. Qual é o mal dos bombeiros tocarem bombo numa banda de bombos.
Fez-se um silêncio comprometedor só quebrado por um grito estridente do presidente.
- Tirem-me daquiiii! Eu não acredito nisto.
De mãos na cabeça o presidente esforçou-se por serenar.
- Risca bombeiros e põe “Zés Pereiras”. Mais alguma coisa?
- Bem, faltam as exposições…
- E que género de exposições?
- Estava a pensar numa exposição canina. Dada a quantidade de cães que por cá temos e a estima que os donos lhes têm parece-me viável e económico.
Os dirigentes entreolharam-se hesitantes. Depois, fixaram o presidente aguardando confirmação. Este, questionou o tesoureiro:
- O que é que achas?
- É capaz de ser uma boa ideia. Não sei é se temos cinéfilos que justifiquem o evento.
- Cinófilos – corrigiu o presidente – mas está tudo bêbado ou quê! Cinéfilos, cinema, cinófilos, cães.
- Está bem, está bem… desculpe o lapso. Não te chateies que eu trago o meu cinófilo.
- Trazes o quê! Esquece... esquece - o presidente inspirou fundo e sentenciou agastado.
- Parece-me que estas componentes, desporto, competição, música, espectáculo e exposições, podem constituir uma base sustentável para lançar o programa do evento. Já tenho um nome para o acontecimento. Quintal em Movimento. O que é que acham?
- Quintal em Movimento! Mas ó presidente, esta matéria é da competência da Junta ou do Movimento – perguntou um dos elementos, conhecido pela mania de estar sempre a desconversar.
- Olha, mais uma gracinha dessas e passas a assistir a todas as Assembleias Municipais. Sessão encerrada.
Por motivos óbvios, desta reunião não foi elaborada acta.

Bons repenicos

quarta-feira, outubro 11, 2006

Crónicas da Galinha Riça - A Ceia Medieval

Que tinha de ser. Desse por onde desse, galos e galinhas deveriam marcar presença na Ceia Medieval e contribuir generosamente para o Coral, não com sacrifícios de canja, cabidela ou fricassé, até porque estes galináceos, por ousadia ou emancipação, estão mais vocacionadas para se servirem do que para serem servidos e já não se prestam a imolações gastronómicas ou a nutrições convencionais. Claro que não abdicariam dos pitéus de sequeiro e da apetecível hortícola constantes da ementa, porém o que efectivamente os aliciava era assistir ao concerto do Coral que, legitimado como digno representante da tradição cultural do nosso Galinheiro, organizou a ceia com o intuito de angariar fundos para levar o nosso canto além mar, à ilha do Faial, num gesto inédito de intercambio musical.
Desconheciam os ilustres participantes que o MRQ (Movimento de Restauração do Quintal), ciente que a luta requer apoios e estes só se alcançam tacitamente, tinha reunido clandestinamente com a direcção do Coral expondo argumentos e vantagens que iam muito para além do motivo invocado nos propósitos da visita.
O presidente do MRQ elucidou: Também o povo do Faial tem um passado histórico de resistência e segregação; Também os sucessivos governantes e políticos em geral não correspondem às expectativas do povo e o desenvolvimento tão apregoado no continente jamais ali ancorou; Para além disso a indústria baleeira extinguiu-se no século XX, à semelhança do acontecido em Canas com minérios, cianamidas e carbonetos, restando aos faialenses, como único meio de subsistência, os postais com a vista da Ilha do Pico, sapo que têm que engolir cada vez que por lá passa um turista. Há lá maior afronta que um turista apontar a máquina fotográfica de costas voltadas para a nossa terra. Já viram o que era Canas estar cheia de postais de Asnelas e os turistas a dizer que a coisa mais bonita que o nosso quintal tem é a vista para o quintal do vizinho. Pois são com algumas destes aspectos que nós nos comparamos e solidarizamos com o Faial e dos quais sentimos obrigação de repudiar publicamente através do apoio possível, que no nosso/vosso caso se prende com a formação de uma delegação especial, constituída por galos e galinhas com o registo de canto mais enérgico e o cacarejar mais estridente, incumbidos de prestar o apoio técnico necessário ao Grupo Coral da Horta para que, como nós, se façam ouvir alto e distintamente no continente. Se considerarmos que aquele território já foi palco de oportunos exílios e local de difícil assédio, configura-se-nos astuciosa esta aliança, no pressuposto do MRQ vir a ser vítima de perseguição ou mesmo de ostracismo, aspecto que no actual cenário político não é de negligenciar.
Estamos conscientes da responsabilidade que vos é atribuída e de quão difícil é a tarefa solicitada, uma vez que, embora a água seja boa condutora do som, a distância é muita e o financiamento da empresa elevado, porém, avaliadas as vantagens que tal projecto representa na conquista deste aliado estratégico, solicitamos o vosso empenho na organização e capitalização da Ceia Medieval. Para o efeito o MRQ disponibilizará as infra estruturas necessárias à realização do banquete e contribuirá com fundos próprios para a deslocação do Coral à Ilha do Faial.
Não constituiu surpresa esta “intromissão” do MRQ nas actividades do Coral, até porque, como já tive oportunidade de relatar, a sua criação foi envolta em segundas intenções, de forma a servir interesses do Movimento em particular e do Galinheiro em geral. Aquiesceu a Direcção do Coral perante a missão sugerida e logo ali se traçaram planos e delinearam prudências, pois o assunto era delicado e recomendava discrição.
Não vislumbraram os convivas da Ceia Medieval as intenções subliminares que presidiam àquela mesa mas, se porventura, um dia, o destino do Faial rumar a outro porto, que é como quem diz, alcançar as revindicações que por hora ainda silencia, isso se deverá provavelmente àquele convívio medieval no pretérito dia 30 de Setembro por terras de Senhorym. Destas subtilezas é muitas vezes a História omissa.
Bons repenicos

segunda-feira, setembro 18, 2006

Crónicas da Galinha Riça - A Luta

Assomaram ali para as bandas da Boiça. Quem os viu pela primeira vez conta que apareceram do nada, ou por outras palavras, vindos do horizonte da história, envoltos numa imagem difusa por efeito dos vapores solares reflectidos pela terra quente do meio-dia. Silhuetas indistintas ao longe, foram arrumando formas na aproximação ao casario fronteiriço do Casal.
A moça, que bordava o enxoval, apontou o dedal na direcção dos forasteiros, não porque fosse raro ali passarem desconhecidos, pois ela bem sabia que por este caminho lhe chegaria amor prometido, também ele desconhecido por agora, mas certo na reza que fez a São Caetano, «Ó meu rico S. Caetano traz-me homem honrado, pode ser este ano que não dei por ele ano passado». Mas, o que prendeu o olhar da moça e lhe semi-cerrou o sobrolho foi o aspecto invulgar daqueles dois viajantes: À frente, montado num cavalo parco de carnes e lento no andar, um cavaleiro fidalgo sacudia a poeira acumulada da armadura que lhe envolvia os ombros. Desdenhoso nos seus trajes medievais, empunhava verticalmente na mão direita uma lança de dimensões desproporcionais; Na sua mão esquerda um escudo metálico circular, na cabeça um elmo ligeiramente amolgado e à ilharga uma espada embainhada. Na sua peugada, vagaroso, um burrico indolente carregava na albarda um homem anafado e andrajoso. Dos flancos do animal pendiam vários apetrechos de viagem que chocalhavam a cada passo do asno.
O fidalgo estacou o ginete bem em frente da varanda onde a moça, ainda incrédula do que presenciava, acertava o raciocínio buscando explicação para aquele quadro burlesco. O cavaleiro, com gestos cerimoniosos, tirou o elmo da cabeça e dobrando ligeiramente o corpo, fez uma vénia e apresentou-se:
- Chamo-me Dom Quixote de La Mancha. Cavaleiro Andante. Este, que me acompanha é o meu fiel escudeiro Sancho Pança.
A rapariga, embora mais dada a alinhavos de enxoval, não descurava literaturas seiscentistas, pelo que, reconhecendo nos interlocutores as personagens de Cervantes, tomou ironicamente as apresentações.
- Eu sou a Dulce – brincou ela na alusão propositada ao nome da bela Dulcineia.
- Dulce! Formosa donzela, que seja mil vezes amaldiçoado o ignóbil que vos impôs tão sórdido destino. Não desespereis que já me apronto a libertar-vos. Dizei-me quem vos mantém cativa por detrás dessas grades que escondem a vossa beleza e olvidam a vossa virtude.
Esta Dulce de ocasião, julgando-se confrontada com brincadeira de galanteador folião, não desarmou.
- Bem-vindo sejas e que os caminhos que percorreste não tenham sido em vão. Quem me tem presa também agrilhoa este povoado de Canas de Senhorim. Libertando-o, libertar-me-ás igualmente. Para isso terás que derrotar os Senhores do Reino de Asnelas.
O até agora silencioso escudeiro Sancho Pança esboçou um gesto de impaciência. No seu íntimo já antevia novas batalhas e fantasiosas demandas. Cansado e saudoso de temperos e favores familiares tentou chamar o seu amo à razão:
- Senhor, bem sabeis que vos tenho sido fiel nas intenções e digno nos propósitos, que vos tenho protegido e servido nos maus momentos, que dos bons não tenho memória, mas deixai que vos diga que ao intento a que vos propões não vislumbro fama nem glória.
- Como ousais destinar a batalha sem a travar! Rouba-te a barriga a coragem e esquenta-te o sol a moleirinha. Dizei-me Dulce, que caminho devo tomar para sitiar os Senhores de Asnelas.
A rapariga, animada pela gentileza e já insegura quanto à falta de credibilidade que os visitantes lhe tinham inspirado, decidiu sugerir-lhes o centro da Vila e que por lá se esclarecessem.
- Não fica a mais de uma légua para norte senhor. Porém mais vale que tomeis o centro da Vila para aí dar conta da façanha e angariardes reforços – recomendou seriamente, num esforço para dominar o nervoso miudinho que lhe revelava incertezas contidas.
- Assim farei. Aguardai-nos no vosso recato e não temeis por vós, que me hei-de apressar a resgatar-vos.
Quis a autora desta crónica que neste dia, as ruas de Canas de Senhorim estivessem animadas pela Feira Medieval. D. Quixote e o seu companheiro, julgados precipitadamente como figurantes, foram recebidos com palmas e manifestações de regozijo. Mas a figuração não se quedava pelo aspecto. Sancho Pança, a mando do amo, calcorreou as ruas do recinto anunciando ao que vinham e informando que para mais esclarecimentos se dirigissem ao Pelourinho, onde D. Quixote, cavaleiro de La Mancha, aguardava aqueles que, por amor à liberdade e à justiça, estariam dispostos a combater sob as suas ordens os Senhores de Asnelas. Logo se juntou uma multidão na crença de que este ano o Grupo de Teatro Pais Miranda se tinha esmerado nas artes do teatro de rua.
De cima do cavalo Rocinante, D. Quixote anunciava de armas em punho o fim da escravidão e do servilismo, assim se juntassem a ele na incursão que pretendia levar a cabo a terras de Asnelas.
- Não temeis, pois a razão está convosco e é meu ensejo restituir-vos a dignidade e os domínios dos vossos antepassados, infamemente usurpados pelos Senhores de Asnelas. Despeçam-se das vossas famílias e sigam-me.
Dito isto, tocou o cavalo Rua do Paço acima, seguido pelo aio Sancho Pança.
Entreolhou-se a multidão. A princípio, alguns figurantes, protagonizaram a iniciativa e juntaram-se timidamente ao cavaleiro, depois, como que por simpatia colectiva, a coluna dos sitiantes engrossou efusivamente. Malabaristas, saltimbancos, dançarinas, jograis, tasqueiros, mendigos, indigentes, acorrentados, leprosos, carrascos e condenados, bruxas e curandeiros, domadores de feras, caretos e andarilhos, vendedores e vendedeiras, visitantes e visitados, todos em alegre algazarra, coloriram o compacto cortejo que se esvaneceu mais acima, na curva do Frazão, rematado à retaguarda por catraios curiosos e gentios pouco esclarecidos.
Desta trupe entusiasta e das suas aventuras por terras de Asnelas e da capital do Reino, já deu conta Cervantes. Vitórias, derrotas, traições, deserções, alegrias e tristezas foram perpetuando o nosso líder D. Quixote que pelejou estoicamente, nunca abdicando dos ideais cavalheirescos do amor, da paz e da justiça.
O ideário picaresco de libertação que D. Quixote protagonizou por terras de Canas de Senhorim, fidelizou a vontade colectiva no propósito independentista que ainda hoje habita o coração dos canenses. Foram lançadas à terra as sementes do idealismo, promissoras da transformação do real. O alcance da colheita competirá às gerações futuras assegurar. Foi com esta convicção que D. Quixote, um dia, após muita insistência do seu escudeiro Sancho Pança, que na sua versão realista dos acontecimentos já tinha previsto quão utópicos eram os ideais do seu amo e do exército mafarrico que o acompanhava, apontou o cavalo Rocinante à Rua do Casal. Foi a última vez que os viram. Diz, quem viu, que na garupa do cavalo de D. Quixote ia uma moça vestida de noiva.

Bons repenicos