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sexta-feira, março 06, 2009

Vens ao Rossio "xantinha"...


Carnaval e política de mãos dadas parece-me bem. O popular ditado "é carnaval, ninguém leva a mal" poder-se-ia até estender à política e aos políticos: é política, ninguém leva a mal. Não rima! Então poderia ficar “é política local, ninguém leva a mal“. Pronto.
Mas o facto é que há gentinha que ficou muito indignada com o apoio da Câmara de Nelas. Mas que raio de hipocrisia é esta, então aquele bairro mamão andou ano atrás de ano a receber as verbas negadas ao Rossio, numa falta de solidariedade quase ofensiva, borrifando-se para as dificuldades financeiras que o Rossio teve que ultrapassar para não deixar cair o Carnaval de Canas (sim porque não há Carnaval de Canas só com um bairro) e para manter a sua dignidade intocável, e agora, que está finalmente a ser ressarcido desse período negro, não devia anunciar os bons ventos que nesta matéria vêm lá de cima. Poupem-me. Vão mas é trabalhar, como dizia o outro.
Do meu Rossio engalanado não posso deixar de elogiar a performance do “baile de roda” nas quatro-esquinas, muito bonito, a fazer lembrar outros tempos. Para quem não sabe, há muitos anos atrás, era costume pelo Carnaval rapazes e raparigas dançarem o “baile de roda”, os do Paço no terreiro da Igreja e os do Rossio nas 4-esqinas e no largo do Rossio de Baixo, junto ao chafariz. Estão de parabéns a organização e os marchantes por recuperarem esta tradição (julgo que no berloque do Carnaval há lá fotos antigas a documentar esse costume esquecido).
De resto, já nem vale a pena falar, a marcha do Rossio sobrepôs-se à do Paço como é habitual: é um prazer ver as nossas músicas e letras antigas cantadas e revitalizadas pela garganta dos mais jovens, até as crianças já as sabem de cor. Quase que vou às lágrimas a ouvi-los cantar - vens ao Rossio "xantinha" buscar a cartinha - coisas de velhos, como diz o Patxi. Enfim, Canas de Senhorim pode orgulhar-se do seu bairro.
Quanto a vocês, pessoal do Paço, não desanimem, deitem mãos a picaretas, camartelos e baldes do lixo, alarguem a rua do Paço, e pode ser que para o ano vos façamos a vontade… quem sabe se não iremos ao Casal, à Urgeiriça, ao Carvalho, aos Pardeiros e, por que não, ao Pisão... até lá, ficam a falar sozinhos, que eu vou retirar-me serenamente para deglutir esta saborosa vitória carnavalesca. Já agora aproveitem bem os passeios antes que a doutora se arrependa :), faz-vos bem à saúde… física e mental.

segunda-feira, março 02, 2009

Paço vs Bairro em Cima do Povo!!!!!!!!

Agora que recuperei da surpresa já me posso permitir a deixar algumas impressões sobre o Carnaval. Estou a ficar velha e posso afirmar que já vi um pouco de tudo, que já nada me causa espanto, mas, como eu também já deveria saber, nunca confiando, que estas gentes do Rossio são capazes de reviravoltas alucinantes.
Que o Carnaval do Rossio anda pelas ruas da amargura já nós sabemos há muito tempo, que lhes falta a arte e o engenho na construção dos carros, também, que não cumprem compromissos acordados, já não é de agora, que fogem a sete pés da Rua do Paço, até é normal, não vá a beleza do nosso bairro deprimi-los, agora apaixonados pela Câmara de Nelas, com direito a Corações do Dão ao ritmo da bagunçada, não quis acreditar que era possível. Pasmei perante aquele quadro sórdido e indigno: uma barracada a troco dum barracão.
E isto não é pouca porcaria… vá lá, se ainda disfarçassem a vendilhice num qualquer taipal das caranguejolas que por aí arrastam, do mal o menos, assim como assim, ninguém olha para aqueles trecos-trecos, e passava despercebida a afronta, mas não, destacaram o andor da infâmia bem na frente da procissão, com beatas, acólitos e carpideiras marchando em adoração!
Espero que não, mas por este andar ainda hei-de ver o Paço obrigado a rivalizar com o Bairro em Cima do Povo, numa comunhão carnavalesca tão imprevisível como a presença daquele andor nas ruas de Canas.

Rossio, Rossio meu
Já foste mais do que tudo
Agora não sei que te deu
És a vergonha do Entrudo

sábado, fevereiro 09, 2008

Está tudo bebedo ou quê!?

Sinceramente não percebo, então agora sair para a rua em dia de carnaval tem que ser objecto de concordatas! Queriam que saíssemos na sexta, na quinta? Se calhar queriam que não houvesse carnaval, sempre se poupavam à humilhação.
O Rossio é maior e vacinado e não precisa de autorização para sair, sai quando quer, com quem quer e, se não fosse cá por coisas até vos diria que para sair tão mal acompanhado mais valia ficar por casa, que lá no fundo foi o que fizemos no Domingo. Mas mesmo assim fomos invejados e criticados, parecem aquelas mulheres solteironas e invejosas da beleza alheia. Frustradas pelo desprimor que lhes calhou em sorte, passam a vida a falar mal de quem se diverte e negam o direito aos outros de o fazerem. Só há uma palavra para descrever o vosso estado de espírito – despeito.
E o despeito é tanto maior quanto a vossa arrogância. Já ouvi falar de bailes de carnaval cheios, carros alegóricos fantásticos, grupos originais, trajes fantasiosos, rebéubéu, rebéubéu… e repetem a mentira até à exaustão para ver se pega como verdade. Taditos, ainda estão naquela fase ingénua do boato, agarrados àquela máxima de que uma mentira dita muitas vezes passa a ser uma verdade.
Desta vez tiveram azar, nem bailes, nem marcha, nem carros correspondem aos testemunhos isentos que tive oportunidade de ouvir. Quanto aos bailes era preciso binóculos para encontrar par; a marcha, o costume, um grupo de feios e feias sem graça nem talento, a arrastar uns fatos de triste figura, pese embora a audácia da encomenda; os carros, o jardim zoológico do costume, borboletas, perus, dinossauros, num desacerto de cores e de formas contra-natura, e lá mais para trás, a encerrar o desfile, finalmente um carro apropriado, uma jaula encarcerava adequadamente a restante bicharada.
Esta é que é a verdade, doa a quem doer, custe o que custar. Portanto, façam-me um favor, escrevam sobre o carnaval quando vos passar a bebedeira. Ouviste Achadiça!?

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Cingab vs Achadiça

Cris (deu o mote)
Mal se fala em chouriça
O Cingab do meu Rossio
Com saudades da Achadiça
Faz-se logo ao desafio

Achadiça
Para deixares tal recado
mais valia calares o pio
O Cingab está arrumado
desde o último desafio

Cingab
Cristalinda e Achadiça
Deixem-se lá dessas histórias
Na nossa passada liça
Eu só somei é vitórias

Achadiça
Ó Cingab, ó vã glória
Isso faz parte do passado
Se da derrota fez vitória
é porque ficou baralhado

Cingab
Não diga isso, ó menina,
Olhe que vais ser uma maçada
porque você ainda quina
nesta nossa nova “entifada”

Vá antes à foz do Mondego
Com carteira, alugar fatiota
Podem ser belas, não nego
Mas são um bocado batota

Também se quer que lhe diga
Mas, não me leve a mal
Vai levar uma corrida
Nem lhe valerá o Juvenal

Isso se tiver a coragem
De reconhecer o melhor
Lhe deixarei a mensagem
E lhe darei algum valor

Achadiça
Nesta nova “intifada”
P’ra cumprir a tradição
Vai levar uma panelada
Vou-lhe pôr um pisão

Pum pum pum no seu portão
Zás trás pás na sua escada
Venha o queijo e o salpicão
E a chouriça bem assada

Mas nem um naco de pão
Para afugentar este frio
É o que dá pôr um pisão
A um gajo do Rossio

Isto é tempo perdido
O rapaz tem mau feitio
Triste sina ter nascido
Lá no bairro do Rossio

Cingab
Mas por agora acabou
Espero não ter levado a mal
Não sei se você gostou
Deste nosso Carnaval

Claro que ganhou o meu Rossio
Mas o Paço não esteve nada mal
Foi é pena perderem o pio
No nosso despique final

Mas o entrudo está queimado
O bacalhau já foi cozinhado
Dou-lhe agora a minha mão

Para o meu bairro vencer
O seu tem de perder
Assim manda a tradição

Achadiça
Acabou, está acabado
Mas tem que admitir
O Rossio foi derrotado
Não val’a pena insistir

O Paço foi o mais brilhante
Queimou-vos com o dragão
E também foi exuberante
Com o seu garrido pavão

Mas nesta fase final
O melhor para mim
É enaltecer o carnaval
De Canas de Senhorim

Para todos os canenses
Em particular os do Rossio
Um abraço dos pacenses
E um beijo do Mulherio

Vexame

Com e sem chuva o carnaval lá se cumpriu. Fiquei expectante no Domingo, o meu Paço não se mostrou, o que rompia um pouco com a tradição, e o Rossio, ainda que envergonhado e tolhido de movimentos, veio dar um ar da sua pouca graça às Quatro Esquinas. Apuradas as razões de o Paço não ter saído, mais uma vez nos deparámos com o incumprimento das promessas do Rossio. Foi acordado entre as duas direcções que dadas as condições climatéricas o melhor era não saírem, eis que o Rossio, fiel ao habitual desrespeito pelos compromissos assumidos, fez ouvidos de mercador à palavra dada e baralhou os poucos populares que por ali se encontravam. Então o carnaval de Canas é isto, uma carripana a debitar música de cassete-pirata e uns quantos sacos pingões a badanar adereços de mau gosto? Ainda me ri com o comentário… mas verdade verdadinha é que para espectáculos daqueles mais valia ficarem debaixo do aconchego do barracão onde fabricam aquelas caranguejolas vergonhosas que trouxeram à rua na terça-feira e num último esforço dar-lhes alguma dignidade.
De resto, nada de novo há para comentar, o Paço continuou exuberante a todos os níveis. Excelente nos carros alegóricos, criativo nas performances dos diversos grupos que integravam o corso, brilhante na diversidade de cores, na escolha dos trajes e imbatível no despique. Gostei particularmente das acções de rua da ASAE e da ciganagem, do trabalhoso dragão e do fantástico pavão. Estes sim, dignos do carnaval de Canas.
O Rossio sofreu uma derrota humilhante, a todos os níveis, mas o que me deu mais gozo foi a inversão de papéis verificada nos bailes. Parece que o Rossio não tinha lá vivalma e os do Paço abarrotavam. A continuar assim o melhor é alugarem o Kebra por três dias, quebranto por quebranto ao menos que vos dê algum rendimento. Até para o ano, se entretanto ultrapassarem o vexame.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Crónicas da Galinha Riça - Carnavalite crónica


O carnaval de Canas de Senhorim é genético. Algures, na memória dos tempos, os canenses sofreram uma mutação no seu ADN. Este gene mutante, transmitido de geração em geração tomou conta da estrutura celular e foi ganhando proporções virulentas. Não fosse a natureza do fenómeno benigna e o risco infecto-contagioso limitado e estaríamos perante uma pandemia carnavalesca de proporções catastróficas. Estão a imaginar o que é que isto dava à escala nacional, se a nossa rivalidade entre bairros extrapolasse para as cidades e regiões, Lisboa vs Porto, Alentejo vs Algarve, Norte vs Sul… seria caótico, uma ameaça para a integridade nacional. Mas não, a virose está limitada no tempo e no espaço, três simples dias em que o vírus agita o sistema imunitário dos canenses, com as respectivas febres, calafrios, convulsões, arrepios e outras dores de somenos importância. Nada que três pastilhas de mebocaína, três konpensan e outros tantos gurosan não resolvam.
Efectivamente, a “doença”, em determinadas circunstâncias, pode revelar-se contagiosa. Habitualmente o contágio é de origem sexual. Vem o rapaz ou a rapariga de fora, acasala com um nativo e quando dá conta já cantarola as marchinhas. Mas o contágio também pode ser por simpatia, existem casos clinicamente comprovados de achadiços que sem "coiso e tal", vivendo em Canas há dois ou três anos padecem do mesmo mal. Quando dão conta lá vem, escarrapachado no relatório das análises clínicas um alto teor de carnavalite; outros ainda, mais sensíveis ao fenómeno, bastou-lhes passar cá um Carnaval e pronto, chegada a época o bichinho acorda e lá vêm até Canas de Senhorim passear a maleita.
Até a comunidade de Nelas, um lugarejo aqui perto, foi ligeiramente contagiada, não se sabe bem como nem porquê (há coisas que a ciência não explica). Porém os organismos inoculados tinham uma malformação congénita e a nova estirpe degenerou num fiasco, isto apesar do investimento na sua encubação e na manipulação in-vitro da cultura original. Claro que ficámos compadecidos com o fracasso, então anda o edil a brincar ao Carnaval todo o ano e depois na altura de colher os louros, nem corso, nem vestimentas nem foliões… uma arrelia!
A“carnavalite” canense manifesta-se durante três, quatro dias e, regra geral, não deixa sequelas, se bem que há casos isolados de carnavalite aguda devidamente referenciados. Nos primeiro e segundo dias a doença apresenta sintomas débeis, os pacientes podem manifestar tremuras passageiras e desacertos mentais esporádicos, porém ao terceiro dia o vírus recrudesce e toma conta do organismo do doente. Os desacertos mentais iniciais transformam-se em desvario e a tremedeira em frenesim. Estímulos nervosos induzidos pelo vírus nos tecidos neurológicos produzem quantidades substanciais de endomorfina que por sua vez accionam a excitabilidade muscular, ao que o sistema circulatório responde com elevados índices de adrenalina. É o culminar da doença. Nesta fase os doentes revelam comportamentos agressivos e uma euforia descontrolada, só aplacados pelo confronto tribal que ocorre em pleno centro da vila e após descargas maciças de urros, vaias e vitupérios.
Ao quarto dia está tudo acabado, a carnavalite retrocede e volta ao processo cíclico que caracteriza as doenças crónicas. Só passado um ano é que retorna, nem mais nem menos perigosa, nem mais nem menos atenuada. Parece que não tem cura, há quatrocentos anos que afecta esta terra e promete perdurar enquanto houver, pelo menos dois canenses. O que já esteve mais longe.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Diálogos Encrespados, Carnaval


Aproxima-se o Carnaval. O meu Juvenal pela-se por esta época, aproveita os bastidores do evento como justificação para me chegar a casa tarde e sabe Deus como.
- Então isto são horas? - Pergunto-lhe estremunhada.
Meio cambaleante, naquela gaguez delatora de quem já enfiou uns copázios, lá se vai desculpando como pode:
- Ai e tal, os carros estão atrasados, a malta diz que vem e depois não vem, este ano é o último, já estou farto disto…
- Ouve lá, mas pensas que sou tó-tó. Vens para aí aos tombos, a cadela que trazes contigo vem a ladrar desde que entraste ao portão e queres convencer-me que estiveste nos carros!
Ficou muito ofendido. Que não era nada disso, se vinha tonto era por causa da cola…
- Da cola!!!
- Sim da cola, o cheiro entra pelo nariz adentro e fica-se assim…
- Assim mentiroso, com nariz de Pinóquio não é? No ano passado foi o aparelho de soldar que te deu cabo dos olhos. Lá foste para Viseu às urgências e só apareceste em casa às sete da manhã… eu nunca engoli essa história, foste mas foi arregalar o olho sabe-se lá para onde, ou pensas que eu nasci ontem?
Ficou atrapalhado com a revelação, se calhar pensava que eu não sabia destes desvios carnavalescos.
- Mas, mas… então não viste o carro que saiu feito por nós?
- Aquele zingarelho com dois paus ao alto! Foi aquele monumento que te reteve até altas horas da noite durante mais de 15 dias?
- É pá, mas o que é que tu percebes disso para questionares as horas de trabalho… fica sabendo que aquilo exigiu intrincados cálculos físicos e mecânicos, relação esforço/potência do motor, aerodinâmica, peso/contra-peso, ângulos de inclinação, rotores, transmissão, alimentação etc., etc…ou pensas que os movimentos oscilatórios não têm que ser devidamente equacionados? Se fosse tão simples como insinuas porque é que achas que o Rossio não faz carros dinâmicos?
- Pois, pois, dá-me música. Os tais movimentos oscilatórios sei eu muito bem como são equacionados, um copo aqui, outro ali, mais um além, e é ver os movimentos oscilatórios em progressão…
- Bem, não há nada a fazer, estás com um mau feitio que é obra. Deixa-me dormir que amanhã vou bulir.
- Está bem, mas fica sabendo que as chouriças estão contadas. É que nesta época do ano desaparecem misteriosamente da despensa.
- Raios partam a mulher.

Deixei-o em paz por agora. Desconfio que há cinco anos não põe as patas na associação, e se lá vai não é certamente para actividades de intrincada engenharia, como diz. Vamos ver se não tenho que o pôr a pão e água.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

"Delirius Tremens"


Estava eu a magicar um comentário ao texto "Delírios" da minha amiga Achadiça, quando reparo que o "Paulo", comentador que me parece ser novato aqui no galinheiro, em poucas palavras, disse aquilo que me ia na alma. Para quem não leu aqui vai:

Paulo disse... "desordens no sono, episódios de alucinações e uma variedade de desconfortos físicos são sintomas de uma síndrome muitas vezes referida como "delirius tremens". Muitas vezes têm origem em hábitos excessivos e continuados de consumo de álcool e acontecem especialmente quando a pessoa afectada é privada desse consumo. Achadiça, retome urgentemente os seus hábitos para que a serenidade lhe devolva a precária sensatez."

Pois é cara amiga, a tua doença pode ter sido gripe, mas as alucinações resultaram da privação etílica que os antibióticos obrigam. Sempre te disse que esses hábitos ainda te trariam dissabores.
Pois eu não fui afectada por nenhuma doença nem sofro ressacas de privação. Entendo perfeitamente os efeitos perversos da maleita que te afectou e, pelos vistos, também vitimou outros pacences que, na tentativa de manter alguma decência perante amigos e familiares de visita, optaram por reduzir substancialmente o habitual consumo de álcool. Claro que, de imediato o organismo estranhou e desencadeou a tal síndrome delírius tremens, fenómeno que vos granjeou percepções ilusórias que no fundo reflectem sintomas de uma crise aguda de desespero e recusa da realidade quando confrontados com evidências incontornáveis.
A Achadiça, inconformada com o fracasso do seu bairro, tenta disfarçar a derrota e escamotear comportamentos, invertendo análises e subvertendo a verdade dos factos.
Na sua argumentação, alega que o Paço ostentava uma frente de marcha blá blá blá blá. Ora o que se podia ver ostensivamente era umas quantas baianas completamente desenquadradas, no espírito e no traje, arrastando farpelas de confecção duvidosa e origem suspeita. Depois, a própria organização da marcha transmitia a ideia de uma completa desunião, tal era o espaço vazio deixado entre os carros e a colocação dispersa dos grupos no cortejo. Às tantas já não se percebia se era o Paço ou alguma produção independente.
Quanto às supostas representações que a Achadiça considera genuínas e criativas, não passaram de fracas e desinspiradas ideias. Ao contrário de anos anteriores, a costumeira equipa do Amef e C.ª, folgou na inspiração e apresentou um carro sem brilho nem cor (exageraram no branco e nem as olheiras do Amef salvaram a pintura).
Não me vou alongar na apreciação dos carros, mas havia um que me pareceu particularmente atraente. Um tractor John Deere de cor verde, série 5015, motor PowerTech com certificado de emissões II, potência de 83 CV. e uma cilindrada de 4,5 litros. Com disposição ergonómica dos comandos, excelente visibilidade periférica (320°) e baixo nível sonoro (inferior a 78 dB).
Pareceu-me que seria efectivamente o único carro decente que o Paço integrava no seu corso, não fora a sua baixa performance sonora ter comprometido o desempenho final em pleno despique. Não é que o raio do tractor, fiel ao seu doce ronronar, se recusou a estrondear devidamente na hora do aperto, obrigando os seus acólitos a remeterem rapidamente Rua do Paço afora, por forma que a vergonha passasse despercebida. Qual compromisso, qual honra, qual carácter! Tivesse este tractor de nova geração os pergaminhos sonoros dos seus antepassados e tão depressa ninguém o tirava dali. Mas estas modernices ecológicas é no que dão. Lá foram debitar os fracos decibeis para onde fosse possível ouvi-los. Vão, vão lá carpir mágoas para o vosso bairro. Adeus e desculpem qualquer coisinha, ehehehe.
Fizemos nós a festa e bem continuada noite dentro, com uma movida fantástica entre o Quebra e o Mercado. A iniciativa levada a cabo pelo Square Impact revelou-se um êxito, comprovando mais uma vez quem detém a iniciativa e torna o nosso carnaval cada vez mais atractivo. A malta do Paço por respeito lá foi dar uma espreitada ao seu baile desejando interiormente que terminasse o mais rápido possível para assim poderem dirigir-se ao Rossio, único local onde efectivamente se vivia o verdadeiro espírito carnavalesco. Entre música, representações de rua, convívio, espectáculos e cavaqueira, as grandes noites do carnaval tiveram lugar no Rossio e prolongaram-se na diversidade das iniciativas que aí se desenrolavam, contagiando com cor, alegria e entusiasmo todos os participantes. Uma verdadeira festa, coroada de sucesso e fantasia.
Mas por esta altura a Achadiça deveria estar a ressacar dos seus delírios, tomando como verdadeiros os falsos vislumbres gloriosos que a sua prodigiosa imaginação entreviu. Pois, minha querida amiga, aconselho-te vivamente uma cura de sono ou então uma terapia exaustiva nos Alcoólicos Anónimos. Acho que há uma consulta em Abravezes. Eu levo-te lá para não prevaricares no caminho :).

Para terminar: pela presença, pela entrega, pelo dinamismo, pela inovação e pelo entusiasmo, viva o meu Rossio adorado.
Boas minhocas

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Delírios

Adoeci neste carnaval. No estertor da gripe vi-me confrontada com febres altas e delírios surrealistas, situação que por certo adulterou completamente a minha interpretação dos factos. Não concebo outra explicação para os acontecimentos que me foram dados apreciar.
Portanto, desculpem, se a minha alucinação febril moldou os acontecimentos na forma como os presenciei.
Tudo começou no Domingo de carnaval. O Paço causava furor com uma excelente frente de marcha, onde ponteavam belos trajes e uma alegria inigualável. Depois, ao longo da marcha podiam apreciar-se inúmeros grupos foliões que mostravam originalidade e bom gosto. Os carros alegóricos de elevado recorte artístico, complementavam um corso fantástico que, incorporando a tradicional Banda de Música, arrematava com uma alusão satírica às condições do sistema de saúde. Pelo meio podíamos apreciar o excelente efeito produzido pelo movimentos dos golfinhos num carro simples mas muito bem conseguido, a divertida sátira da “Bandalhoca”, os "ghostbusters" dos computadores, as “Floribelas”, enfim, uma diversidade de referências e representações que asseguraram a genuinidade do nosso carnaval.
Por oposição, o Rossio causava dó. Lá levava a marchita meia composta, mas desfilando sem graça nem criatividade. Os carros eram de bradar aos céus e, foi nesta atitude que lá consegui vislumbrar um carrito jeitoso, único na mostra. Uma águia mijona, que a cada movimento mecânico, derramava óleo por tudo quanto era lado. Ainda têm muito que aprender para se meterem nestas coisas mecânicas.
Mas a coisa até passava despercebida se a páginas tantas não dou comigo a ouvir a marcha do Rossio interpretada por uns rapazes enfastiados e pouco convictos do papel que estavam a representar. Lá iam vestidos no rigor do funeral, sem uma fantasia, uma pintura, algo que nos indicasse que integravam efectivamente um cortejo carnavalesco. Uma tristeza. Ressalvo o cantor que tentava contrariar aquele triste quadro sonoro.
Com o passar dos dias a febre foi aumentando, mas mesmo assim, na terça-feira, lá fui até às Quatro-Esquinas para assistir ao despique. Mas a febre não perdoa e com ela veio o completo delírio. Então não é que, e juro que foi isto que vi, ou que a alucinação deixou entrever, dou com o Rossio a gritar histericamente sozinho, abandonado à sua teimosia e reduzido a meia dúzia de gatos-pingados. Ainda surpresos, interrogavam-se frustrados sobre o porquê de tamanha ingratidão, logo este ano que cumpriram meticulosamente o acordado na reunião preliminar entre as direcções de ambos os bairros. Já não vale a pena sermos honestos e cumpridores da nossa palavra, comentavam.
Consciente que a alucinação febril estava a toldar-me a mioleira fui meter-me rapidamente entre mantas para ver se recuperava a tempo de dar uma saltada ao baile do Paço que, como sabemos vem perdendo adeptos de ano para ano e como tal convém apoiar e participar. Mas que raio! De novo o delírio febril atacou sem dó nem piedade. Então não é que o Salão dos Bombeiros estava completamente cheio. Velhos e novos dançavam acaloradamente ao ritmo das marchas e outras músicas adequadas.
Definitivamente, o meu estado de saúde deteriorava-se de hora a hora e foi com alguma mágoa que abandonei o baile.
Acordei na quarta-feira com a sensação de que as minhas visões só poderiam ter resultado da febre gripal que me atacou. Nesse dia ainda não estava bem certa da realidade dos acontecimentos. Se eram efectivamente reais ou não passavam de delírios febris. Era bom demais para ser verdade. Comecei a melhorar e arranjei tempo para navegar nos berloques. Bom, lá vou ser confrontada com a realidade, pensei eu, quando acedi ao berloque do Carnaval. A princípio, ainda tímida, comecei a gostar do que via. Afinal estavam ali registos que coincidiam com os meus. As fotos não enganavam, os filmes também não, os testemunhos idem aspas... queres ver que está tudo alucinado e a delirar!!!
Aos poucos lá fui percebendo que afinal eu não fui a única atacada pelo vírus. Havia muitos mais, todos com a mesma versão dos acontecimentos. Eu já tinha ouvido falar destes comportamentos colectivos. Acontecem frequentemente nos campos de futebol e noutros sítios onde a catarse colectiva é motivada pela fé e pela paixão. Um livre dois metros fora da área pode, através deste fenómeno, transformar-se por acordo colectivo, num indiscutível pénalti. Portanto ainda não estou bem certa se tudo o que eu aqui disse aconteceu e se os demais relatos que vamos lendo na net ou ouvindo na rua são efectivamente dignos de crédito. Mas o Carnaval de Canas de Senhorim é mesmo assim. É dado a delírios. Até para o ano e boas bicadas.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Faça sexo com segurança


O Carnaval em Canas é propício a aventuras amorosas. Acreditando piamente no velho ditado de que “santos da casa não fazem milagres”, os canenses e as canenses vivem o ano na expectativa deste período para sacudirem as teias de aranha que o tédio entretanto acumulou. O Mulherio preocupado com esta aptidão sazonal, manifestamente dada a encontros fortuitos e relações passageiras, vem alertar para os perigos consentidos que a troca e vulgarização de parceiros podem provocar. Tais comportamentos, se negligenciados os métodos tradicionais de protecção, podem causar danos irreversíveis.
Faça sexo com segurança ou então opte exclusivamente pela via do beijinho e da carícia. Se optar pela última mantenha sempre a cabeça ao nível da cabeça do parceiro. Não fraqueje.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Fora de bairrismos

Quando decidi escrever este texto pensava alinhar no meu bairrismo e desancar o Paço, os pacences e a minha amiga Achadiça, pelas atoardas que têm por aí espalhado. Depois reconsiderei, pois iria entrar no mesmo género de discurso, o que me tiraria porventura a seriedade que o assunto me merece. Vou então fazer uma abordagem séria sobre o Carnaval.
Já li e ouvi muitas considerações sobre a questão da nossa tradição carnavalesca e a forma como, alegadamente, está a ser desvirtuada. Os protagonistas de ambos os bairros trocam acusações pontuais sobre ligeiros desvios ocorridos em edições anteriores, umas descaradamente provocatórias, outras com alguma pertinência.
Esses desvios não trouxeram mal algum ao nosso Carnaval nem puseram em questão a sua continuidade ou tradição. Acalentam a disputa e a rivalidade e servem de arma de arremesso aos inconciliáveis Paço e ao Rossio, para fomentarem a crítica e a achega. Vive e sobrevive bem o Carnaval com isto, pois, no essencial, a originalidade do nosso Entrudo é destas tricas que se alimenta.
Dito isto, centremo-nos na questão dos usos e costumes – a tradição. Há aspectos que, por mais esforço que se faça na sua preservação, as novas gerações não correspondem ao apelo ou os próprios sinais dos tempos tornaram pouco atractivos. Como tal, exigem um compromisso entre aquilo que é obrigatório preservar e o que é passível de reformular. Vamos por partes:

O Pisão, as paneladas, o enfarinhanço etc. – Não estão ameaçados, contudo, o Pisão assumiu proporções de vandalismo que não estava na sua génese. Devolva-se ao Pisão a sua genuína intenção.

As Marchas – São a expressão mais importante do nosso Carnaval e, porventura, aquelas que traduzem verdadeiramente o espírito que lhe deu origem. Sendo um Carnaval de pendor estritamente popular, qualquer alteração tem que ser bem ponderada. Falo do ritmo musical de “marcha” e na sua interpretação (para o efeito a Banda de Música é a mais adequada). Este ano parece que o meu bairro não a vai levar. É pena. Quanto ao percurso, pode lamentar-se o facto de o Paço não descer a rua de seu nome e desertarem da Marcha quando passam no seu bairro. Mas, isso é lá com eles. Se não têm gosto em mostrar-se aos seus adeptos no seu próprio bairro são eles que ficam a perder. Contudo, não venham depois armar-se em guardiões da tradição.

O Despique – Com a evolução da tecnologia sonora é normal que os decibéis ressoem exageradamente. O Paço investe particularmente neste aspecto. Dificilmente se imporá a tradição que permitia aos protagonistas disputarem o despique com as suas próprias “armas” – a garganta. Reformule-se mas com sensatez, para evitar a corrida desenfreada às aparelhagens e o consequente quadro infernal que deforma a festa, com tractores, andaimes, colunas e baterias a substituírem-se à euforia da massa humana.

Os Carros – A utilização de novos materiais ainda não se sobrepôs totalmente às “minhas queridas flores de papel” (fiz muito calo a enrolá-las com um canudo e, depois, mais tarde, com uma tesoura). Porém, temo que qualquer dia, o seu colorido e a sua textura sejam somente uma recordação. Preservem-se os carros com flores.

Os Bailes – Adivinhava-se a sua extinção. Os momentos nocturnos são da exclusividade da faixa etária mais jovem, que já não se revê neste formato. Congratulo a organização do Rossio pela inovação e pela decisão em assumir finalmente um projecto alternativo ao acanhado Quebra-Tolas e ao insuportável esfregulhanço que daí advinha. Mantém-se o baile mas a música é outra. Sinais dos tempos. Evento positivamente reformulado que não põe em questão a tradição, aliás, como todas as outras actividades recreativas que decorrem fora do contexto do Carnaval propriamente dito.

A Segunda-Feira das Velhas – Recuperou a vivacidade de outros tempos, facto que abona a favor da tradição. Afinal a tradição ainda é o que era.

O Enterro, Quarta-Feira de Cinzas – Também aqui se mantém a tradição, consumada na tradicional comezaina e nas exéquias ao defunto. Nada de leitão ou febras grelhadas. É com o belo bacalhau que se encerra o nosso Carnaval, como manda a tradição.

Em jeito de conclusão, parece-me estar a tradição do Carnaval de Canas preservada, ainda que algumas decisões possam causar incómodo aos mais conservadores. Compreendo-lhes a apreensão mas não posso deixar de dizer que a inovação e a reformulação não têm que necessariamente ferir de morte o nosso Carnaval, assim sejam efectuadas com parcimónia e sensatez. São condimentos essenciais para que o Carnaval de Canas de Senhorim corresponda às expectativas dos mais jovens e para que a própria tradição sobreviva aos novos desafios da modernidade. E nisso, como todos sabemos, o Rossio é visionário. Viva o meu Rossio adorado. Viva Canas de Senhorim.

Boas minhocas

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Sambas e Guitarradas

Parece que este ano o Rossio vai trocar a tradicional banda de música, que habitualmente acompanha o cortejo carnavalesco, por um conjunto musical. Guitarrada eléctrica para desvirtuar uma das características que torna o nosso Carnaval tão peculiar.
As bandas de música dão um cunho popular ao nosso Entrudo, integrando as demais componentes tradicionais em que o nosso Carnaval é fértil. Não obstante, o Rossio ou a sua Direcção, decidiram optar por um som incaracterístico e menos próprio na salvaguarda de um som mais potente. Inspirados insipidamente por tendências modernaças ocorreu-lhes a possibilidade de aproveitar as novas potencialidades tecnológicas e, qual rave party, adulterar o som típico dos metais, dos pratos e do bombo. Lembrei-me logo daquelas paradas tipo “Orgulho Gay”, com os foliões de mãos dadas ao som de House Music. Perdoem-me.
Parece que foi a forma encontrada para contrariar os kilowatts que o Paço carrega às costas para se fazer ouvir. Será que ainda não se aperceberam que esta luta desenfreada por quem faz mais barulho só conduz à cacofonia, privando as pessoas, que são o mais importante da festa, de se fazerem ouvir e competirem de alma coração e garganta pelo seu bairro? Admito o som amplificado das bandas, pois o som captado pelos microfones é suportável, pese embora o feed back e outros inconvenientes, agora instrumentos eléctricos e caixas de ritmos artificiais!? Tudo com o ponteiro no máximo!Veio o presidente da Direcção do Rossio a terreiro admitir que tinha acordado com o Paço que o despique seria só com o som das bandas, mas, pressionado por elementos da sua organização aceitou, embora contrariado, este novo projecto que abdica da tradicional banda e obriga a total amplificação sonora. Argumenta ainda que este projecto “rave” foi proposto por “gente novíssima” à qual deve dar ouvidos pois são eles que vão assegurar a continuidade do Carnaval. Bem, nada tenho contra a malta jovem. Eu própria não sou assim tão velha. Mas tem que haver bom senso. A malta nova não pode ir atrás de modas nem de preferências de geração incondicionais, sob o risco de comprometer e subverter 400 anos de tradição.
Posto isto, só me resta acarinhar o meu bairro que, fiel ao espírito genuíno do nosso Carnaval, continua a apostar na tradição e não cede a tentações suspeitas.

Boas bicadas

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Memória I

Temos pelo Cingab um carinho muito especial. Granjeou a nossa simpatia logo no início desta aventura dos berloques, quando, ainda inexperientes, bicávamos por todo o lado à procura de alguma minhoca que caísse no engodo. Foi ele, com os seus curtos mas animadores comentários, que incentivou as galinhas a insistir nas posturas. Outros se lhe seguiram contribuindo para que a motivação não esmorecesse e aos quais estamos muito gratas, mas é ao Cingab que devemos esse apoio inicial.
Ainda hoje, não há quase nenhuma bicada que não tenha um comentário dele e é sempre com apreço que registamos essa sua boa vontade.
Porque já era merecido, o Mulherio, através da sua presidente, vem por este meio enaltecer a dedicação e solidariedade do Cingab ao serviço da berloquesfera canense.
Considerando-o meritório dos mais sinceros elogios, as galinhas residentes atribuem-lhe a honra de se fazer representar com um texto da sua autoria no berloque do Mulherio. Para o efeito transcreve-se uma bicada alusiva às memórias do nosso carnaval.

A Presidente Achadiça


Este texto funciona como uma resposta ao pedido da minha inimiga de estimação, “Achadiça”, que nos pede memórias para que fiquem registadas... Claro que podem sempre riscar ou acrescentar!...
Não muito longe vão os tempos, em que o Carnaval de Canas se parecia mais ao que é hoje a segunda-feira das velhas... Grupos de moços e moças, dos dois bairros, iam alternadamente ao outro bairro... A participação dos homens resumia-se a andarem ao lado do corço com varapaus não permitindo que se misturassem as “raças” ... Claro está que, andarem pessoas nas ruas, em tempos de Carnaval, com paus na mão, confrontando o outro bairro, não podia dar bons resultados... Quase sempre saía “molho”!... Neste particular, era o Rossio que perdia!...
Conta-se que certa vez os guardadores de rebanhos do Paço conseguiram empurrar a marcha do Rossio para dentro dos “claustros” (antiga vacaria junto à Igreja), transformando o espaço num ring de boxe...Claro que haviam pedradas, murros, urina e fezes, os tais paus, farinha...
E quem não se lembra das “majoretes”?... Haverá muito bom homem, casado e pai de filhos, que não esquecerá... É que elas não eram só enfarinhadas...
As mascaradas, pessoas que correm pelo breu da noite (e não só), completamente irreconhecíveis, assustando os mais desprevenidos... Mais uma tradição de Canas!...
E as Comadres e os Compadres?... Às gentes solteiras eram sorteados pares para dançarem nos bailes à noite... O Rossio reeditou essa tradição em 2006... É verdade que o sorteio, bem, o sorteio... Mas que sorteio... Ehhhhh!...
Temos também o episódio, contado pelo António João (chamado o Judeu – isso também tem uma história, fica para mais tarde) de quando um novo cabo veio para o posto da GNR e ordenou a proibição das bombas de Carnaval (o tempo deu-lhe razão). António João e muitos outros combinaram que todos os foliões canenses lançassem à mesma hora, numa noite, as bombas junto ao posto... Aquilo parece ter sido algo de levantar os mortos das campas, o Cabo pediu para sair de Canas!...

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Memória

Parece que só falto eu, escrever aqui no Mulherio um texto sobre o Carnaval de Canas. A Riça, à sua maneira, já esclareceu a origem, a Cris deu-lhe aquele toque de magia que só ela sabe e eu estou hesitante, pois de tanta coisa para contar não me ocorre nada que não me comprometa.
Bem, como sou do Paço e o meu pai me contou esta história, vou falar do mais triste acontecimento, segundo ele, que ocorreu no Carnaval de Canas. O que o torna pertinente é que faz este ano 30 anos que ocorreu.
De tal ocorrência não foi apurado qualquer culpado, porém parece-me elementar concluir ter sido perpetrada por um energúmeno do Rossio. Abro um parêntesis para esclarecer que a malta do Rossio, em geral, não terá porventura qualquer culpa daquele acto tresloucado.
Corria o ano de 1977 quando a dada altura, no “calor” da festa carnavalesca, um carro alegórico do Paço começou a arder. Uma vez que o fogo se começou a alastrar no lado posterior do carro e este não tinha qualquer mecanismo que pudesse originar a combustão, tudo indiciava que a origem tinha sido “fogo posto”. O mais grave da situação é que iam crianças no carro e, a uns bons dois metros de altura, sem acesso que facilitasse a descida, ia a Zeca, a esposa do Longuinho (desculpem a referência). Parece que não foi fácil tirá-la de lá com o fogo a alastrar pelas flores. Mas felizmente conseguiu descer ou conseguiram resgatá-la só com uns ligeiros arranhões.
Desconheço como foi nesse ano o despique. O meu pai também não se lembra, mas a avaliar por este precedente devia ter sido bem “quentinho”. Contudo, parece que não houve qualquer registo de violência.
Por retaliação ou por indignação o Paço decidiu não participar no Carnaval em 1978, optando por organizar uma sardinhada. Diz o meu pai que foi com alguma tristeza que essa decisão foi tomada. Há quem diga também que foi este interregno que estimulou o Carnaval de Nelas(?).

O carro de que se fala
Paço - 1977

Os contornos deste acontecimento vão-se apagando da memória dos mais velhos. Para que as novas gerações não os percam deixo aqui o registo possível, que me foi transmitido já com algumas lacunas. Se alguém souber algum pormenor que possa acrescentar ou alguma correcção a fazer, ficaria a história devidamente testemunhada e documentada. Viva o Paço e boas bicadas.


ERRATA
Em 01Fev07, surgiu, e muito bem, a 1ª correcção: Quem ia no carro era a Isabel e não a Zeca;
Em 01Fev07, a 2ª correcção: Foi apurada a identidade do responsável, entretanto falecido.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

O despique

Sobressalta-me a ideia do Carnaval. Desde pequena nutro um desvario emocional por esta época do ano que conflui inevitavelmente naqueles três dias alucinantes.
A minha mãe impunha-me condições para marchar no corso do Rossio. Os tempos eram de encarniçada competição e bastas vezes a alegria transformava-se em violência. Assim, no despique, tinha que prometer que a minha participação se limitaria às orlas da confusão, onde o olhar protector da minha mãe lograsse alcançar o suposto comedimento. Que inveja tinha do meu irmão, isento das grilhetas do bom senso que me eram impostas a mim.
Ainda assim, e salvaguardada pela desculpa dos empurrões, mal a cambada do Paço arremetia ao tradicional encontro, atirava-me de alma e coração para o meio da contenda gritando pelo meu Rossio até que a voz se sumisse. Parecia uma boneca de trapos dentro de uma máquina de lavar roupa a 80º e em plena centrifugação. Ali é que a mãe não me ia buscar. Mas por azar, lá vinha o meu irmão armado do seu poder paternal pôr ordem na desmiolada. Lá voltava à segurança da orla, contrariada. Recuperado o fôlego, aproveitava uma desatenção da mãe e ala que se faz tarde, irrompia aos saltos por entre os matulões do Paço que, dada a minha tenra idade, subestimavam a minha garra e abriam alas à minha intrepidez.
Extenuada mas convicta que, sem a minha presença o Rossio não lograria vencer, voltava para casa de lagrimazita no olho, a pensar com os meus botões porque é que o Carnaval passava tão depressa.
Precisava de uma mês para recuperar da saudade que se me instalava na alma. E não eram raras as vezes que, pela calada do dia, eu própria ia fazer o enterro do meu Carnaval. Qualquer resquício de um carro alegórico servia para cumprir as exéquias. Ali ficava acariciando as flores que a chuva já desbotara, adorando os interstícios de arame, ferro e madeira que tinham na sua glória efémera encantado os meus olhos agora tristes e pesarosos. Bem sabia que para o ano havia mais, mas o tempo de uma criança esgota-se no momento presente. Foi assim durante muitos anos.
Agora já não salto nem grito no despique, mas a comoção e a emoção ainda vivem dentro de mim. De tal forma que invariavelmente me humedecem os olhos quando os dois bairros se cruzam, como se naquele momento passasse por mim toda a minha vida e todas as recordações projectassem a história da minha própria existência. É assim o carnaval de Canas.

Boas minhocas

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Crónicas da Galinha Riça - O Entrudo

Deus criou o paraíso de Canas de Senhorim. Deslumbrado com a Sua obra decidiu habitá-lo. Primeiro criou o bairro do Paço, depois, das entranhas deste, tirou um pedaço e formou o do Rossio.
Os dois bairros conviveram harmoniosamente durante muito tempo, usufruindo das dádivas terrenas que generosamente Deus lhes tinha concedido, até que um dia, entediados da eterna felicidade que lhes tinha sido destinada, ousaram desafiar a graça divina.
No jardim paradisíaco que habitavam havia uma árvore encantada cujo fruto se supunha capaz de curar os males da alma e do corpo - a árvore do Entrudo. Os seus frutos continham o doce veneno de Afrodite e proporcionavam delírios alucinogénios fantasiosos, estimuladores dos comportamentos mais estouvados. Deus tinha-lhes recomendado que não ousassem provar de tal fruto, pois, embora sedutor, simbolizava a origem do mal e quem dele provasse ficaria eternamente condenado.
Contudo, o Rossio, mais jovem e como tal mais ousado, não resistiu ao encantamento e colheu o fruto proibido. Porém, receoso dos seus efeitos e da condenação divina deu-o a provar inicialmente ao Paço. Este não se fez rogado e caiu na tentação. Logo uma força desconhecida lhe retemperou a alma e as cores. Desatou aos saltos e aos gritos num histerismo misto de alegria e de loucura. O Rossio não lhe ficou atrás. Acabaram por devorar o fruto em três dias de folia e algazarra descontrolada.
No último dia, quando do fruto já só restava uma dentada, gerou-se a controvérsia. Quem é que merecia o último pedaço, quem é que por direito deveria prolongar a euforia. Ocorreu logo ali uma grande zaragata e um despique fervoroso entre os dois bairros para decidir quem sairia vitorioso no confronto, em suma, quem ficaria com a derradeira trincadela do fruto da árvore do Entrudo. Quem ganharia o Carnaval.
Foi nessa altura que, irrompendo do Seu sossego celeste, surgiu Deus. Ainda estremunhado por ter sido arrancado ao Seu sono divino pelo desaforo dos beligerantes, apresentava um semblante carregado, nada próprio da Sua habitual placidez. Dirigiu-lhes a palavra num tom pouco amistoso:
- O que vos disse eu quanto à arvore do Entrudo?
- Mas, Senhor a culpa foi do Rossio, que não atendendo à Tua recomendação colheu o fruto… – desculpou-se o Paço.
- Mas quem lhe tomou o gosto foste tu – retorquiu o Rossio.
Deus impacientou-se e mandou-os calar. Depois na Sua eterna sabedoria sentenciou:
- Perante o vosso desrespeito condeno-vos a digladiarem-se perpetuamente uma vez por ano durante três dias e, para remissão do pecado, a arderem em praça pública ao quarto dia. Além disso, tu, Paço, por terdes aceite comer do fruto proibido, haveis de marchar eternamente para o Rossio, para aí vos sujeitares ao confronto.
Regozijou o Rossio com a sentença aplicada ao Paço. No entanto…
- E tu Rossio, por terdes desobedecido às minhas ordens, até ao fim dos tempos nunca haveis de ganhar um só confronto. Cumpra-se a minha vontade.

E assim, ao longo dos anos se tem cumprido a vontade de Deus em Canas de Senhorim. E assim será até à eternidade. Ámen.