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sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Diálogos crispados, no bar


- Fui corrido.
- Assim, sem mais nem menos!
- Sim, fria e decididamente.
- Então e porquê, alguma razão em especial?
- Acho que vocês quando nos põem a andar têm sempre razão, mas o importante no meu caso não é tanto a razão, é a atitude.
- Pois, ninguém gosta de ser corrido sejam quais forem as razões, mas olha que entre uns cornos e uns patins, sempre são preferíveis uns patins, com alguma destreza podes descrever uma curva larga e voltar ao ponto de partida…
- Sim, mas isso é quando somos namorados, aí a sensação de ruptura é mais atenuada, cada um para seu lado e até ver… agora quando o dia a dia é partilhado, cama, hábitos, projectos, o amor tranquilamente instalado… aí o mundo fica do avesso.
- Tem calma, nestas coisas do amor nada é definitivo.
- Mas eu detesto abanões, a relação nunca mais é a mesma, é como as paredes quando abrem fissuras, podem tapar-se mas a estrutura fica irremediavelmente afectada.
- Olha que há muitas relações que envelhecem com desmoronamentos e reconstruções… deita mas é mãos à obra antes que apareça algum construtor a querer escorar a parede…
- Essa é boa. Ela destrói e eu é que tenho que reconstruir! Bem, não é que eu não queira, o orgulho é que não me deixa.
- Mas vais ter que fazer alguma coisa.
- Pois.
(pausa)
- Então e de resto, como tens andado?
- A sopa, broa e azeitonas.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Diálogos Encrespados, Carnaval


Aproxima-se o Carnaval. O meu Juvenal pela-se por esta época, aproveita os bastidores do evento como justificação para me chegar a casa tarde e sabe Deus como.
- Então isto são horas? - Pergunto-lhe estremunhada.
Meio cambaleante, naquela gaguez delatora de quem já enfiou uns copázios, lá se vai desculpando como pode:
- Ai e tal, os carros estão atrasados, a malta diz que vem e depois não vem, este ano é o último, já estou farto disto…
- Ouve lá, mas pensas que sou tó-tó. Vens para aí aos tombos, a cadela que trazes contigo vem a ladrar desde que entraste ao portão e queres convencer-me que estiveste nos carros!
Ficou muito ofendido. Que não era nada disso, se vinha tonto era por causa da cola…
- Da cola!!!
- Sim da cola, o cheiro entra pelo nariz adentro e fica-se assim…
- Assim mentiroso, com nariz de Pinóquio não é? No ano passado foi o aparelho de soldar que te deu cabo dos olhos. Lá foste para Viseu às urgências e só apareceste em casa às sete da manhã… eu nunca engoli essa história, foste mas foi arregalar o olho sabe-se lá para onde, ou pensas que eu nasci ontem?
Ficou atrapalhado com a revelação, se calhar pensava que eu não sabia destes desvios carnavalescos.
- Mas, mas… então não viste o carro que saiu feito por nós?
- Aquele zingarelho com dois paus ao alto! Foi aquele monumento que te reteve até altas horas da noite durante mais de 15 dias?
- É pá, mas o que é que tu percebes disso para questionares as horas de trabalho… fica sabendo que aquilo exigiu intrincados cálculos físicos e mecânicos, relação esforço/potência do motor, aerodinâmica, peso/contra-peso, ângulos de inclinação, rotores, transmissão, alimentação etc., etc…ou pensas que os movimentos oscilatórios não têm que ser devidamente equacionados? Se fosse tão simples como insinuas porque é que achas que o Rossio não faz carros dinâmicos?
- Pois, pois, dá-me música. Os tais movimentos oscilatórios sei eu muito bem como são equacionados, um copo aqui, outro ali, mais um além, e é ver os movimentos oscilatórios em progressão…
- Bem, não há nada a fazer, estás com um mau feitio que é obra. Deixa-me dormir que amanhã vou bulir.
- Está bem, mas fica sabendo que as chouriças estão contadas. É que nesta época do ano desaparecem misteriosamente da despensa.
- Raios partam a mulher.

Deixei-o em paz por agora. Desconfio que há cinco anos não põe as patas na associação, e se lá vai não é certamente para actividades de intrincada engenharia, como diz. Vamos ver se não tenho que o pôr a pão e água.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Diálogos encrespados. Ao telefone.

Trimmmmmm
Ele - Olá, estás bem? Tens algum compromisso hoje?
Ela - Não estou a entender nada...
Ele - Estás sem filhos?
Ela - Sim.
Ele - Estava a pensar irmos jantar, conversar um bocadinho...
Ela - Vou aos anos da Leonor.
Ele - Ah, então diverte-te...

Trimmmmmmm
Ele - Viva! Então, estás bem?
Ela - Nem por isso.
Ele - O que é que se passa!
Ela - Estou doente, acho que me vão tirar o útero.
Ele - O quê!
Ela - Diagnosticaram-me um tumor...
(pausa)
Ele - Não te preocupes, vais ver que tudo se resolve.
Ela - Mas estou bem, sinto-me é um pouco fragilizada. Queres sair, conversar um pouco...
Ele - É pá, prometi ir aos anos da Leonor, mas amanhã vou ter contigo.
(Ela em pensamento)
- Filho da puta.
(Ele em pensamento)
- Fosga-se.

terça-feira, setembro 11, 2007

Diálogos crispados. Na piscina.

ela - Tira os óculos. Não falo de nós contigo escondido.
ele - Não quero que me vejas chorar…
ela - Devias ter pensado nisso antes. Agora encara-me e diz-me se eu tenho o olhar límpido, como antes fazias questão em afirmar.
ele - Não, não está.
ela - Pois não. Escureceste-me o olhar, aquele olhar que segundo dizias iluminava caminhos, ofuscava luas cheias. E eu acreditei que o meu olhar te servia, então, para que te banhasses melhor nos meus olhos, perdia-me ao espelho a levantar as pestanas, a liquefazer o rímel, para que te pudesses ver reflectido em mim, para que a transparência dos meus olhos disfarçassem as mazelas que as noitadas denotavam nos teus. Não te chegaram os meus olhos!
(silêncio)
ele - Acho que nunca a olhei nos olhos.
ela - Nunca a olhaste nos olhos! Nunca a olhaste nos olhos! Quero lá saber se olhaste ou não olhaste…
ele - Eu seu, eu sei, é uma maneira de dizer.
ela - Queres saber como vamos resolver isto?
ele - Hum hum.
ela - Vou pôr-te os cornos para ficarmos quites.
(silêncio)
ele - Tenho alguma alternativa
ela - Eu tive?
ele - Não.
ela - Então…
(pausa)
ele - É justo.

sexta-feira, junho 22, 2007

Diálogos encrespados. Jantar comemorativo do 1º aniversário do Mulherio.

Riça ...porque vocês não têm noção do infinito? A relação do “criador” vs “o criado”...
M.- Parece-me demasiado infinitesimal...
Achadiça - Pois, tipo abordagem romântica entre uma roda e um parafuso.
Riça - Não te despistes por causa do parafuso, o universo é uma engrenagem completa...
Cristalinda - Ou entre um parafuso e uma roda! Já agora que simbologia atribuis à roda? E ao parafuso? Eu cá tenho uma tendência vulgar para sexualizar tudo isto. Cá para mim isto é tudo conversa de sexo!! Roda, parafuso… está bem de ver.
M.- Lá tínhamos que ir parar ao sexo! O difícil e a queda residem na ruína do abismo, fundo e vazio. A conversa acerca de Deus é grande e diz-se que se há universo não pode ser infinito. O infinito é um oito deitadinho a dormir uma insónia grande que não há doutor que remédio dê…
Achadiça, Cristalinda - Porra!! É lá!!
Cristalinda - Eu insisto no sexo e para esse há doutores e remédios e… doenças. Precisamos urgentemente de uma terceira via sexual, uma forma de…
M.- Não há mais via nenhuma, o sexo é limitado, uma porta transparente aberta de par em par mas sem entrada nem saída. O clímax está no penetrar? No sair ou no entrar? No orgasmo transparente ou no disfarçado? É só ruído, o sexo é só ruído.
Riça - Ó M. não bebes mais, estás a ficar tó-tó de todo.
Achadiça - Depois disto sexo com cavalos é pêra-doce.

terça-feira, junho 19, 2007

Diálogos Crispados. Na cama.


- Onde é que isto nos vai levar?
- Agora é que perguntas, está feito, está feito, amanhã se verá…
- Foi bom não foi?
- Hum hum.
(silêncio)
- Achas que podiamos continuar a ver-nos?
- Não me digas que queres namorar, assim de repente, só porque dormiste comigo! Vais ver que amanhã isso te passa, portanto não me faças perguntas idiotas.
- Não é namorar, é sairmos mais vezes, conhecermo-nos melhor…
- É pá ouve lá, já me conheces as entranhas, a partir daqui é só para nos martirizarmos. Ficamos com esta recordação mais ou menos perfeita e, se se der o caso, reincidimos um dia destes, sem compromisso, que a vida já me foi dura para insistir na companhia.
- A vida já me foi dura para insistir na companhia! Já ouvi isso em algum lado.
- Pois já, adoptei a frase feita como lema. É pouco original mas traduz muito bem o meu cepticismo.
- Olha, desculpa lá a minha humanidade, desculpa o facto de não resumir isto a sexo, desculpa lá ainda acreditar, desculpa lá gostar de ti…
- Não tentes manipular-me com lérias, não vieste por gostar de mim, que sabes tu disso? Vieste porque te agradei visualmente, vieste porque eu quis, querias sexo, eu também… e agora já queres andar de mão dada e amanhã, quem sabe, queres-me a marcar consultas para a próstata.
(risos)
- Pelo menos podias dar-nos o benefício da dúvida. Não me podes impedir de gostar e tu sempre poderias reaprender…
- Ó meu romanticozinho, então andei uma data de anos a desaprender de gostar para agora vires armado em catedrático reensinar-me a matéria dada!
(pausa)
- A tua ironia é cruel, mesmo assim gostei da entoação…
- És mesmo um lérias. Vou dormir que amanhã é dia de trabalho. Dorme bem.
(silêncio)
- Gostava tanto que jantasses comigo amanhã?
(silêncio)
- Telefona-me. Amanhã se verá.

terça-feira, maio 22, 2007

Diálogos Encrespados. Na Esplanada.


- Apetece-me quando chove.
(sorriso)
- Pois. Quem anda à chuva fica toda molhadinha…
(risos)
- Ó M. essa é de caserna. É verdade, quando chove apetece-me fazer amor.
- Sexo. Apetece-te é fazer sexo amiga.
- Lá estás tu a separar as águas. Eu preciso de ambos, volteio a caldeira e não me tenho dado mal.
- Já sei. Já sei que consegues pôr amor em tudo o que mexe. És uma depravada do amor.
(sorrisos)
- Não é bem assim. Convenço-me disso para… para… deixar fluir a volúpia, digamos assim.
- É lá, fluir a volúpia! Fluir a volúpia é cá um xarope!
(risos)
- Eu gostava de ser como tu, hedonista militante.
- Hedonista militante és tu, ou não fosse essa combustão de amor e sexo o prazer supremo. Eu fico bastante aquém nessa escala dos sentidos. O amor arrepia. É absoluto prazer. E eu ando muito afastada desses encrespanços.
- Muitas vezes dói. Onde é que está o prazer aí? Nem os masoquistas gostam do género.
- Ai gostam gostam, que conheço alguns que sim. Mas tens razão, o amor é uma canseira nesta coisa do prazer.
(pausa)
- O sexo dá pano para mangas...
- A não ser que o tecido não chegue.
(risos)
- Depois faz bem à saúde e não está sujeito a IVA.
- Nem a IRS.
(silêncio)


- Para ser sincera há já algum tempo que a toca não vê coelho.
(risos)

sexta-feira, maio 18, 2007

Diálogos Crispados. No Kebra.

- Diz meu amor, sou todo ouvidos...
- Todo, todo?
- Vou tentar!
- Então revê-te no silêncio.
(pausa)
- Já disse tanta coisa...
- E já fizeste a tanta coisa que disseste?
- Não.
(silêncio)
- E estás a pensar fazê-lo?
- Sabes, meu amor, pensar e fazer são verbos difíceis...
- Pois são.... mas mais difícil é fazer o que pensamos ser o correcto. Entre o pensar e o fazer há um abismo. Felizes são os que fazem o que realmente pensam.
- Palavras e mais palavras, redondas, inúteis...
- Resposta previsível meu caro! Não te esqueças que foste tu a convidar-me a chafurdar nas palavras. Mas sabes, meu amor, as palavras são máscaras, mostram aquilo que escondem.
- Claro. E mostras o quê nas palavras que escondes?
- O mesmo que tu.
- É tudo tão difícil contigo. Acabas por vergar-me no ardil das palavras...
- E fazes bem em vergar-te, sobretudo se fores para a cama comigo!

terça-feira, maio 08, 2007

Diálogos encrespados. Na Felgueira.

A Cris agora deu-lhe para a lamentação. Amores perfeitos para aqui, amores imperfeitos para ali, uma coisa que não leva a netos. Anda “crispada” de tão farta, a minha amiga. Nem a primavera a arrebita.
Estou a escrever isto e a pensar nas consequências que podem advir deste texto. Logo agora que ando um pouco ausente e é ela que tem aguentado o galinheiro. Ingrata é o que eu sou. Pronto, aceito.
Mas esta lamechice causa-me fornicoques. Que a malta se queixe de barriga vazia ainda vá que não vá, agora andar aqui a cacarejar de papo cheio, armada em vítima, ai o amor, ai o amor… quase me apetece mandá-la amar para aquele lado que a gente sabe.
Tudo bem, uns textozitos às flores também encaixam, até sabem bem, mas pelo menos que sejam honestos! Se quer escrever sobre desamores desame, não aproveite a eloquência para, de cima dos despojos, a derramar fartura, desancar sobre os desgraçados que lhe enchem a inspiração e outros recantos afortunados.
Disse-me ela este fim-de-semana, adulterando a letra de uma música do Fausto, “grata ventura é queixarmo-nos da muita fartura”. Vinha isto a propósito dos meus textos aqui no berloque que, segundo ela, eram recorrentes em carências e desafectos. Fiquei a pensar na evidência. Esta velhaca de tão satisfeita que anda já só tem olhos para o próprio umbigo. Olha, minha querida, se o gajo da pizza te enche a mula isso não te dá o direito de desdenhares da parca dieta que me cabe. “Mas, então o teu Juvenal não…”. O meu Juvenal não é para aqui chamado… se queres mudar o rumo ao berloque só porque andas veleirinha entre pernas estás muito enganada, ou achas que a tua “coisa” é bitola para a linha do berloque!
Desatou a rir. Ainda hei-de escrever qualquer coisa sobre esta conversa, disse, lançando-me um olhar muito característico nela, terrível, a meio caminho entre a ameaça e a benevolência.
Eu, que conheço as manhas literárias de que ela é capaz, antecipei-me no atrevimento. Quem vai escrever sobre esta conversa sou eu. Bem sei que me vou arrepender, mas não resisti.

Boas bicadas

quarta-feira, maio 02, 2007

Diálogos Cris(pados). No carro.

- Nem que me fizesses diabruras por debaixo das rendas.
- Pois, as tuas rendas…
- O que é que querias! Pensavas-me incondicionalmente tua? Eu disse-te que estava fugida de mim. Eu avisei, eu não te enganei.
- Pensei que gostasses de brincar com as palavras. “Fugida de mim!”, o que querias que eu entendesse com “fugida de mim”?
- Que eu não era eu. Que naquele momento não era eu.
- E agora estás a ser tu?
- Agora estou a ser eu.
(silêncio)
- Então porque aceitaste jantar comigo?
(silêncio)
- Tentei de novo a transmutação mas não consegui. Hoje estou agarrada a mim, não consigo despegar-me do eu que normalmente habito.
- Deixa-me amar esse eu.
- Não suportarias o outro eu de que gostaste.
(silêncio)
- Essa dualidade existe mesmo ou é só uma conveniência estratégica?
- Conveniência estratégica! Uma estratégia pressupõe um fim. Eu não tenho princípio nem acabo, como diria o outro.
- Quem?
(silêncio)
- Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí.
- Ah esse? Não és assim tão negra…
(risos)
- Sou mais negra do que pensas, daquelas retorcidas a rondar o macabro.
- Lá estás tu…
- É verdade, já o meu ex dizia que eu era insuportavelmente verdadeira.
- Tu és é insuportavelmente bonita.
- Já cá faltava o piropo fácil. Escusas que não há rendas para ninguém.
- Pois, é mais rendilhados…
- Se não te agrada podemos mudar de assunto.
- Não. Adoro ouvir-te, com ou sem rendas, com ou sem rendilhados.
- Ó homem! Com ou sem, assim ou assado… ninguém gosta assim tão pouco.
- Tu és demais. Estás sempre na retranca. Mas o facto é que vieste e não me interessa qual dos eus trouxeste.(pausa) Gostava de amar-te no permeio dos teus eus… sempre sonhei ter duas mulheres na cama.
(risos)
- Seria catastrófico. Os meu eus não se dão bem, são incompatíveis, existem mas não coexistem.
- E hoje estás com o eu que se recusa aceitar-me. Já sei, já disseste.
- Que recusa trair-te.
- O quê!
- Que recusa trair-te, meu querido. Que recusa trair-te.