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terça-feira, fevereiro 12, 2008

São Valentim

Quaresma. Acabou a folgaria, o Carnaval e a carne a rodos.
Bem sei que já ninguém leva isto a sério, os mecanismos económicos não se compadecem com tradições que apelem à contenção. Pelo contrário, criam artifícios a coberto de pseudo-boas-intenções para vender mais e mais. O dia dos namorados é um exemplo desse mecanismo. E então é ver os pombinhos a rematar o amor jurado com bagatelas e inutilidades. Azar do desgraçado ou da desgraçada que não afina pela moda, não honrará a jura, que isto de palavras leva-os o vento, e ao presentinho há-de arranjar-se arrumação.
Sempre achei estas trocas-baldrocas uma valente hipocrisia, de quem as fomenta e de quem nelas alinha. E os pombinhos deviam questionar quanta hipocrisia partilham ao abrigo do infortúnio de São Valentim.
Por isso meu querido, não me venhas com bilhetinhos. Esta Asterius quer-te sensato.


quarta-feira, novembro 07, 2007

Morabéza


A minha cachopa sabe a chocolate, não sei de mulher que melhor me trate.
Já lá vão uns anos desde a primeira vez que ouvi esta música do Sérgio Godinho, longe de imaginar que um dia teria uma cachopa assim.
A minha cachopa é morena de cintura. Adoro apanhá-la desprevenida no banho, toma aquela posição característica das mulheres surpreendidas na intimidade, uma mão a tapar os seios e outra a fazer de parra, depois relaxa, sou só eu que venho besuntá-la com creme de amêndoas, dizem que é bom para as estrias, que ela não tem, diga-se de passagem. O que ela tem é um corpo perfeito, pele lustrosa e uns cabelos negros que lhe chegam ao rabo. Não é alta, mas é toda proporcionada, a minha cachopa.
Gosto de a ouvir falar crioulo, fica tão doce quando fala crioulo, até quando disparata. Ouve uma altura que lhe pedia para dizer o que lhe passasse pela tola enquanto fazíamos amor, em crioulo, está claro de ver. Ui! Tive que desistir, lá se iam os “timings” requeridos. Agora limitamo-lo, o crioulo, aos preliminares.
Fico sempre de boca aberta quando a vejo nua em contra-luz, só a minha cachopa conseguem captar a luz daquela maneira. A pele retém toda a luz de um lado e a parte oculta é-me revelada de uma forma ténue, criando a ilusão de um semi-corpo fundido no espaço envolvente, a silhueta é um desafio aos sentidos, um quadro sublime, uma foto de antologia, um poema a preto e branco. E os cabelos!? Ai os cabelos. Às vezes parece um leão, põe-se de gatas na sala e desafia-me para a brincadeira, outras, quando vem do banho, faz de gueixa, cabelo arrematado ao alto e vestida com aquele roupão vermelho tentação. De todas as vezes acabo enrodilhado na sua juba.
Ainda não vos contei mas a minha cachopa tem tanto de envergonhada como de desinibida. Parece estranho mas é verdade. A primeira vez que me chamou para a ajudar a depilar as virilhas fiquei aterrorizado. Nunca ninguém me tinha pedido tal. Engoli em seco e, que remédio, uma coisa destas não se nega à nossa cachopa, lá encetei a, como lhe hei-de chamar, a honrosa, a dolorosa, a curiosa, a deliciosa, bem… a tarefa solicitada.
Homem que é homem sabe sempre aproveitar estas deixas, vai daí, propus-lhe uma depilação completa pois era um fetiche que há muito alimentava. Agora tenho que manter o terreno limpo com regularidade, e acreditem, é sempre uma festa. Trata com cuidado, tem tesouro a caixinha da menina, diz-me ela sorridente, em crioulo. Nem imaginam como isto soa bem em crioulo. Pena não dar para transcrever.
É catraia a minha cachopa de S. Vicente, não traz nos olhos a saudade que a Cesária canta nem cachupas no Pantagruel, traz no hálito o morno sabor do cacau de S. Tomé e no corpo uma vontade insaciável de sexo, diz ela que nas virtudes sai à mãe que é sãotomense, se é que o sexo é uma virtude, arremata hesitante, com dúvidas mal dissipadas pela educação religiosa do colégio de freiras, mas certa da competência maternal, demonstrada largamente nos seus sete irmãos.
A minha cachopa veste bem, não é que tenha muito dinheiro, tem é a sorte de trabalhar numa conceituada loja de alta-costura. Não sei como ela faz, mas a indumentária vai e vem como se fosse dela. Ainda bem, faço um figurão quando entro com a minha cachopa em qualquer lado, eu bem vejo os olhares dos paspalhos, hehehe, mas é delas que eu me rio mais, especialmente aquelas mais esclarecidas nestas coisas da moda, ficam de cara à banda a mirar a minha mulata aparecer todos os dias vestida de forma diferente e caríssima. Depois olham para mim avaliando a improbabilidade de ser eu a pagar a ostentação. Sentamo-nos à mesa e rimo-nos disto tudo, destas saborosas trivialidades, como ela faz questão em dizer.
Às vezes é uma chata, a minha cachopa. Quando está com os azeites fica escorregadia de tão lustrosa, ninguém a torce, deve ser herança genética dos degredados das ilhas. O seu pai era português, morreu em Santiago, no Tarrafal. Dele, nenhumas recordações tem, mas qualquer defeito que se lhe aponte e que não encontre paralelo na mãe, é inevitavelmente culpa do pai. Uma boa desculpa. É engraçada a minha cachopa.
Muito havia a dizer sobre a minha cachopa, as cantorias, os amigos músicos, as amigas obstinadas, o seu jeito para contar anedotas, a sacralização da cueca (palavras dela), o padre que lhe prometeu casamento, enfim, não se consegue falar de uma pessoa em tão poucas linhas, quanto mais da minha cachopa.


Oh, nha bida, dj'u sabi, ma n'qrê torna flau
Ma n'ta amau, y nôs passado cata squecedo
N'qrê canta na bo caminho
N'qrê badja, co tudo carinho
Di bo morabéza


Lisboa, 25 de Julho de 1987

terça-feira, março 20, 2007

Correio Registado


Escreve minha querida, escreve. Fosse eu tão bom a amar como tu a escrever.
Podes sempre derramar a espaços estorias do teu dia a dia, ornadas pela tua extraordinária capacidade de reflexão. Também podes aproveitar esse espaço para falares sobre coisas fúteis, ou outras, de que supões estar mal informada. Ligas-te à net e matas dois coelhos de uma cajadada... ou três: criação, informação e conhecimento... quase um tratado.
A tempos podes falar de mim, ou sobre mim. Com ou sem contemplação. Agradece a máquina, que perfilha novas páginas para consumir nas entranhas da mother board, entre bits e bytes de vocação lógica... será menino ou menina, homem ou mulher?(E Deus! Onde guarda a máquina Deus? Sim porque se somos feitos à Sua imagem deveria a percepção da máquina por nós criada reconhecer a simbiose e aconchegar no desktop um shortcut divino que nos levasse imediatamente a Ele, uma espécie de altar cibernético onde pudéssemos reclamar da sua distracção); agradeço eu, que me encontraria no alinhamento das tuas palavras escritas.
As palavras escritas são mais intensas, pausadas e pensadas, logo, reclamam mais atenção nas entrelinhas. A quantidade de coisas que se podem dizer nas entrelinhas de uma opinião escrita. Se a opinião for criativa e a estética sincopada está-se próximo da poesia. A poesia é quase isso, sistematizar as emoções por forma que o muito que lá não está é induzido pelo suficiente que lá está. Mas a narrativa pode fluir sem preocupações poéticas, ganhando assim a humanidade de quem as escreve e de quem as lê. Sem arte, só pelo prazer de reter e ser retido num momento de escrita, num momento de leitura.
Nunca é compremetedora esta máquina onde depositas horizontalmente as tuas vivências e preocupações. Vendo bem não passa de um depositário pseudo-inteligente que atenta erros de escrita. Fosse o Woord um pidesco manancial programático de virtudes e teríamos ondinhas a vermelho por todo o texto. Mas não é! Podemos sempre despejar verborreia nestas plataformas cor de leite cego, como no romance, e achar que ninguém nos lê. É um descanso.
(Ass. O homem da pizza)

PS: Quem não conhecer o meu homem da pizza recomendo a leitura, pela ordem indicada, das seguintes bicadas:

O meu homem da pizza
Mexericos
Ainda o meu homem da pizza

segunda-feira, novembro 20, 2006

Ainda o meu homem da pizza

Nunca tive um caso no local de trabalho. Até há pouco tempo.
Quando saí de casa, o meu irmão mais velho, nas suas recomendações, limitou-se a desaconselhar-me homens casados e namorados com residência a mais de 15 quilómetros. Ri-me dele, percebendo-lhe a ironia. Tinha ganho muito cedo a árdua tarefa de substituir o nosso pai, assumindo por inteiro, ainda que por intuição, o estatuto de educador e a tarefa ingrata de me proteger dos “galifões”, designação que ele dava aos meus namoraditos impúberes, que ele, convicto do seu papel paternal e já conhecedor das angústias do corpo, desaprovava sistematicamente - não estão à tua altura - dizia ele, mais preocupado que a irmã, a despertar sexualidade por tudo quanto era poro, o presenteasse com um sobrinho precoce, do que propriamente com a qualidade moral dos meus pretendentes, ou dos meus pretendidos!
Tivemos muitas desavenças, por causa daquele medo latente. Lembro-me que por essa altura, a propósito de um comentário inocente sobre um ligeiro atraso menstrual, ele e a minha mãe entraram em pânico, obrigando-me a confessar aquilo que eu não tinha feito. Não sei se foi por me sentir ultrajada, se por gozo, se por maldade, remeti-me a um silêncio comprometedor. Sucedeu-se um interrogatório confrangedor, com a minha mãe a tentar pôr água na fervura e o meu irmão, histérico, cuidando em questionar os meus dotes mentais. E eu moita-carrasco. Voltou a serenidade àquela casa passados uns dias, quando, já saturada com o mau ambiente e os olhares furtivos que me eram dirigidos, lhes dei a notícia tão desejada por ambos – voltou-me o período. A partir daí o meu irmão reformulou a sua posição quanto aos “galifões”. Talvez tivesse concluído, que uma vez iniciada, de nada lhe serviam agora desaprovações e que o melhor era prevenir males maiores - consulta de ginecologia - arriscou ao jantar, consultando a reacção da minha mãe. A minha mãe ainda sugeriu o Dr. Pega, mas concordou que para o efeito o melhor era mesmo “uma” ginecologista.
A minha primeira visita a “uma” ginecologista também dava uma história assaz curiosa. Ficará, quem sabe, para outra altura. O meu irmão casou, eu cresci e a nossa relação ganhou contornos de intimidade que se distanciaram definitivamente dos princípios conservadores e paternalistas exercidos na educação da irmã adolescente. Assim, quando fui para a faculdade, fez questão em dizer-me, com um sorriso matreiro – homens casados e namorados a mais de quinze quilómetros, nunca. Olhei-o com ternura e lembrei-me do pai. O que diria o pai se ali estivesse? Acrescentaria “colegas de trabalho”? Nunca saberei, mas agrada-me pôr estas palavras na boca do meu pai, em jeito de prenúncio.
- Homens casados, colegas de trabalho e namorados a mais de quinze quilómetros, são de evitar.

Boas minhocas
PS: Para quem o título desta bicada não fizer qualquer sentido, recomendo a leitura, pela ordem indicada, das seguintes bicadas:
2ª Mexericos

terça-feira, novembro 07, 2006

Mexericos

Diz o senso comum, seja lá isso o que for, que as mulheres são muito dadas a mexericos. Talvez o papel que lhes esteve reservado desde os primórdios da sua existência, confinadas à exiguidade da caverna, cuidando filhos e afazeres domésticos, tenha determinado essa apetência para o convívio e para a conversa. Matavam assim o tempo e outros temores, na espera dos homens que, lá fora, silenciavam palavras no ofício da caça, não fosse o ruído transformá-los em presas. Assenta neste cenário a teoria vigente das diferentes capacidades do cérebro humano, que atribui à mulher aptidão para se desmultiplicar ao mesmo tempo em diversas tarefas e raciocínios , por oposição ao homem que privilegia a concentração num só assunto de cada vez.
O papel caseiro das mulheres alterou-se substancialmente com o advento da revolução industrial. As mulheres romperam o circuito fechado do lar e o tempo e predisposição que antes lhes sobravam para manter o “diz que disse” com a vizinha e as amigas, tornou-se escasso. Sim, porque o facto de trabalharem fora de casa não as privou dos cuidados domésticos e da educação da prole, circunstância que só a revolução sexual dos anos 60 do século XX e o advento dos electrodomésticos viria alterar ligeiramente. Com estas alterações sociais, as mulheres perderam a exclusividade do mexerico a favor dos homens, os quais, a coberto de maneirismos socialmente autorizados, se permitem, agora, exercer com idêntica mestria e superior desempenho o cochicho e a maledicência.
Vem isto a propósito do mexerico que o Hipólito da contabilidade partilhou com o Sr. Teodoro do 5º andar:
- Verdade pá. Vi-os no jardim a partilhar uma pizza. O cagão do “João Cerimónias” com a jurista, aquela alta, cavalona, que anda sempre de calças de ganga. Não, não é a pencuda, é a outra. Aquela que se divorciou há pouco tempo.
O Teodoro, de olhar arregalado, chegou-se mais e murmurou com cumplicidade:
- A doutora e o “Cerimónias”! Essa nunca me enganou… Cá p’ra mim já andava com o gajo quando estava casada. Mas esse gajo não anda a comer a Ritinha da recepção?
- Ó Teodoro ele anda a comer é num sítio que eu cá sei. De onde pensas que lhe vem a alcunha do “Cerimónias”. É só palavrinhas mansas a dar ao delicado, amigo Hipólito para aqui, amigo Hipólito para ali. Sabes o que é que ele me disse há tempos… “amigo Hipólito acomode-me lá os números antes que eu desvaneça”. Achas isto linguagem de homem? E mais “na relação entre a empresa e o cliente o mais importante é a sedução…”. A sedução, os afectos e por aí fora, dizia o gajo. Achas isto normal?
- Bem, é um bocado suspeito. Mas a Ritinha, agora a doutora…
- Qual Ritinha qual quê. Essa é uma “vai com todos”, desde que tenham carro com cilindrada acima dos 1600 cc. e estofos de cabedal.
- É pá, não sejas injusto, a Ritinha é uma querida. Lembras-te do almoço de Natal? Bebeu uns copitos e tive que levá-la a casa. Os copos deram-lhe para o sentimento e desabafou amores inconfessáveis pelo caganças do “Cerimónias”. Uma coisa deprimente.
- Levaste-a a casa! E comeste-a?
- Então! Já esqueceste as regras. Isso nunca se pergunta.
- Está bem, mas comeste-a ou não?
O Hipólito não obteve resposta. Ambos sorriram perante a cumplicidade que emanava desta última troca de palavras. Os códigos masculinos são muitas vezes insondáveis e a subtileza com que assuntos destes são tratados surpreendente. Ficou no ar a impressão de que efectivamente algo se tinha passado com a Ritinha da recepção e o Teodoro, porém, sem o vínculo da palavra expressa ninguém poderia assegurar que ele afirmou aquilo que sugeriu nem ignorar que não possa eventualmente ter acontecido. Técnicas de mexerico masculino na primeira pessoa.Nove horas da manhã. Na recepção, a Ritinha, elegante como sempre, exibia excesso de maquilhagem, na tentativa desesperada de disfarçar olheiras recentes. Saúdo-a a contra-gosto e dirijo-me ao elevador que já era aguardado pelo Sr. Hipólito.
- Bom dia doutora.
- Bom dia Sr. Hipólito.
A forma como me cumprimentou, não sendo desrespeitosa, soava, na entoação, a um nível de confiança despropositado. No olhar deixou entrever um sorriso malicioso, só corrigido após a minha indisfarçável desaprovação.
Entrámos no elevador. Eu bem sabia o que lhe ia no espírito. O que ele me quis transmitir foi, muito simplesmente, que era portador dos meus segredos, conhecedor dos caminhos da minha intimidade e eu, no mesmo sítio onde já me senti tão confortável, apanhada na surpresa de um beijo atrevido, sinto-me agora nua, desconfortavelmente despida pelo olhar insidioso do Hipólito da contabilidade.
Boas minhocas

domingo, outubro 29, 2006

O meu homem da pizza

Ontem enviou-me uma mensagem muito pouco profissional. Hoje atirou-se de cabeça. Logo no elevador, onde não raras vezes me ocorre que deve ser um sítio excelente para amar. Creio que é no filme “Atracção Fatal“, que a Glenn Close e o Michael Douglas têm uma cena escaldante no elevador. Embora no filme aquela paixão acabasse muito mal, não me apoquentaram receios nem eu me revi no papel trágico de uma Glenn Close desmesurada.
Soube-me bem ser atirada contra a parede fria de alumínio e invadida por aquele cheiro a perfume masculino. Foi um beijo rasgado, quase roubado pela surpresa do gesto. Teve a delicadeza de não me tocar com as mãos. Só a boca dele rasgando a minha e a pressão do corpo dele sobre o meu. Entrevi-me no espelho, braços descaídos, na mão direita a pasta, o braço esquerdo sabia-o ocupado pelo saco. Não me lembro onde ele tinha as mãos, sei que não me tocou com elas. Eu também não. Ficámos suspensos pela boca, a trocar paladares de café matinal e hálitos a menta dentífrica.
Plim, 5º andar. «Vemo-nos ao almoço…», não percebi se perguntou se afirmou, nem a porta do elevador deu tempo para mais qualquer esclarecimento. Fiquei sozinha, descomposta por dentro, a saborear.
Plim, 7º andar. Saí.
Devolvida à realidade do escritório comecei a congeminar desgraças. Logo agora que já tinha conseguido a tranquilidade emocional que o divórcio me privou. Tão bem que estava, eu a gata e os meus livros, a minha música, os meus filmes, sem nenhum homem no horizonte, livre de mágoas e desamores. Um beijo, um simples beijo veio agitar e criar tumulto nesta minha cabeça, que em vez de estar concentrada no que diz o meu interlocutor, paira e gira e roda com o vento, como liceal iniciada em baile de finalistas.
Passei uma manhã em desassossego, desejando e temendo a hora de almoço. Se ele não telefona é porque vai aqui aparecer. Ele é que disse «vemo-nos ao almoço». Será que perguntou e espera que eu lhe ligue a confirmar. Se quer almoçar comigo é ele que deve telefonar. Eu sou uma rapariga prática, mas nestas coisas de jogos amorosos sou uma nulidade. Não, não lhe posso telefonar. E se ele não telefonar, provavelmente está à espera que eu diga qualquer coisa, pois o elevador não deu tempo para eu responder, mas, se está interessado, podia ligar para combinar. Já sei, vou ligar a dizer que tenho uma reunião perto do meio dia e que não sei se consigo ir almoçar, qual almoçar qual quê, ele não me convidou para almoçar, vermo-nos ao almoço pode ser vermo-nos no bar, onde costumamos tomar café, vou é dizer-lhe que, que… que se lixe, não vou dizer nada.
A cada retinir do telefone nova esperança e eu a sentir-me cada vez mais ridícula, lembrando-me daquela brincadeira da Achadiça a propósito de uma reunião. Nunca mais é meio-dia. Uma manhã inteira e eu não consegui alinhar duas palavras no raio do memorando. Lá vou ter que levar TPC, logo hoje que dá o Empire Falls. E se for almoçar com ele, provavelmente venho tarde e “sabe deus como” e então é que não vou fazer nada...
- Está aqui um moço da “Pizza na Brasa” com uma pizza p’ra doutora.
Uma pizza para mim! E com um bilhetinho... «Espero-a no jardim. Pode trazer a encomenda por favor, enquanto está quentinha?».
Cabrão. Ai que lá vou eu outra vez.

PS: Detesto pizza.