sábado, março 22, 2008

Ainda os professores...

A nossa amiga Rosalinda, a quem aproveito para agradecer o excelente texto que nos enviou, trouxe o assunto dos professores à baila, tema que já por algumas vezes me tinha ocorrido abordar, mas, por me parecer excessivamente complexo para tratar neste formato, não o fiz.
Depois de ver o vídeo que anda por aí acerca do comportamento de uma aluna e respectiva turma para com a professora, filme que parece estar a gerar grande indignação, como se não se soubesse da frequência destas situações e outras piores dentro das salas de aula (e fora delas), como se fosse preciso o registo-vídeo para convencer os “São Tomés” da dificuldade com que os professores se debatem diariamente, perante a permissividade e impunidade do sistema, decidi escrever sobre o assunto. Não vou abordar a questão da disciplina e da falta de autoridade que inquinam o sistema, isso levar-me-ia muito para além do que um post alcança, vou tão somente realçar alguns aspectos legislativos com que este governo decidiu brindar os professores, e faço-o na esperança que, dito de uma forma simples, quem ler este artigo perceba o que está em causa.
Na sequência de um discurso político que elegeu a função pública como monstro a abater, a classe dos professores foi igualmente arrastada pela lama e sobre eles recaiu o anátema da culpabilidade. Se o ensino vai mal a culpa é dos professores, são uma classe privilegiada, não fazem nada e ganham bem, ouve-se recorrentemente nos cafés.
Mais do que todos os meandros deste conflito entre a classe dos professores e governo, está a mensagem que ficou no ar para a opinião pública, a ideia que o fracasso do ensino em Portugal era da responsabilidade directa e indirecta dos professores. E o governo não parou para pensar, centrou quase toda a política do governo para a educação, em matéria legislativa, na carreira e no estatuto da classe docente, dando a entender que era ali que estava o cerne da questão.
Todos sabemos, à excepção da ME, pelos vistos, que os problemas do ensino são conjunturais, resultado de anos e anos de experiências ao sabor dos diversos governos que foram incapazes de pensar um projecto de educação estável e bem definido. A política de educação requer um pacto de regime, que estabeleça o modelo adequado e que, independentemente de quem estiver no poder, se comprometa a cumpri-lo, não é com remendos nem com sucessivas alterações, muitas delas contraditórias e sem nexo, de forma precipitada e descontinuada, que se criam os pressupostos curriculares e pedagógicos necessários para que o tempo verifique o sucesso da sua aplicação.
Mas com isto não se preocupa a ME. Para se afirmar, direccionou de forma arrogante, arbitrária e economicista as suas reformas quase exclusivamente para a carreira dos professores, como se neles residisse o problema dos números que nos envergonham perante a CE.
Vejamos: A avaliação do desempenho é uma treta burocrática, ninguém vai ser melhor ou pior professor por causa da sua implementação. O que se verifica é que, por força do limite de quotas fixado para reconhecimento do mérito, o processo de avaliação vai condicionar a progressão na carreira, isto é( para quem não está mto por dentro do sistema), imaginem que há 100 professores numa escola, uma vez que a quota da menção de avaliação mais alta está limitada a 5%, só 5 professores podem obter essa avaliação, se houver 10 que efectivamente sejam excelentes, lá vai o avaliador ter que fazer malabarismos na ficha de avaliação para que cinco desses professores sejam excluídos do excelente. Ora isto vai ter repercussões na progressão remuneratória do professor, pois a alteração de posicionamento remuneratório está dependente da avaliação do desempenho. O que este sistema faz é determinar que à partida só 5% de professores podem ser excelentes e 20% relevantes, todo o resto é adequado ou inadequado, agora desenrasquem-se, metam a malta nestes números e ponto final. Para isto não era preciso aquela grelha diabólica, aliás a famigerada grelha só vem de uma forma atabalhoada tentar credibilizar uma avaliação que à partida já está condicionada pelas quotas. Conclusão, podes ser excelente mas para ti não há dinheiro. E os tão falados prémios de desempenho (desconheço se este ano os professores são abrangidos) alinham pela mesma bitola, limitados este ano a 5% dos funcionários públicos, não basta ser excelente, é preciso sê-lo e caber dentro da quota. Isto é economicismo puro, disfarçado pela suposta avaliação do mérito.
Quanto à categoria de Professor Titular é outra vergonha, e já nem falo nos critérios relativos e injustos do concurso, isso daria pano para mangas, limito-me a referir o corte abrupto que tal categoria veio introduzir nas expectativas de progressão da carreira. Imaginem um professor no oitavo escalão da categoria (em circunstâncias normais atinge-se esta posição por volta dos quarenta anos), longe da reforma portanto, que como se sabe também foi adiada. No sistema antigo, se a avaliação fosse favorável e não houvesse outro qualquer impedimento o professor ainda tinha mais duas posições remuneratórias que lhe serviriam de motivação, se não estou em erro, quatro anos para o nono escalão e mais cinco para o décimo, portanto lá para os cinquenta , cinquenta e cinco chegaria ao topo da carreira. O novo sistema veio introduzir a categoria de Titular que arrebanha as últimas duas posições remuneratórias. Assim, quem estava no oitavo, nono e 10 escalões poderia concorrer a Titular, segundo uma fórmula cujos critérios foram mais que injustos (o tal problema das faltas por doença serem consideradas e outros cuja análise não cabe aqui). Com este método quase todas as vagas de Titular foram ocupadas pelos professores detentores do 9º e 10º escalões, acabando as residuais por serem ocupadas por alguns, muito poucos, detentores do 8º. Ora, para aqueles que não obtiveram vaga a sua escala remuneratória esgota-se naquele escalão, o 8º. Congelou-se qualquer possibilidade de progressão. Uma vez que de acordo com a novo estatuto de aposentação a data de reforma aponta para os 65 anos, é fácil prever que os actuais titulares (entre os cinquenta e os sessenta anos) só abrirão vaga entre cinco e quinze anos, isto na melhor das hipóteses, porque se a faixa etária do corpo docente da escola for mais baixa, nem para as calendas gregas. Mas isto ainda é mais complexo, as vagas são afectadas à especialidade (agrupamento disciplinar), o que pode estagnar indeterminadamente a evolução na carreira de um professor que leccione Português, e permitir a evolução de um de outro agrupamento, mesmo com menos tempo de serviço, isto para não falar de níveis de qualificação e outras apetências, que dada a sua subjectividade nem ouso falar, pois isso levava-nos a reflectir sobre as relações inter-pares e outros mecanismos perigosos para distinguir aquilo que não é distinguível. Para além disto, este processo, no futuro, gera uma reacção em cadeia, os professores evoluem com mais ou menos sobressaltos até ao oitavo escalão e ali caducam afunilados a acenarem aos seus pares Titulares, aguardando que algum tenha o bom senso de morrer rapidamente, perdoem-me a humor-negro.
Claro que esta alteração não concorre em nada para a melhoria do ensino, chavão que a ME tanta gosta de usar, muito pelo contrário, desmotiva qualquer alma, por mais aplicada que seja ao exercício da sua profissão, mas, feitas as contas, poupa uns milhões ao estado, sonegados vergonhosamente aos professores por artifícios legislativos deliberadamente pensados para esse efeito e ao arrepio de qualquer política efectivamente pedagógica.
A criação da categoria de Titular, embora sirva o propósito, não foi realmente pensada para qualificar os professores na gestão e coordenação pedagógica das escolas, foi, isso sim, uma maneira encapotada de economicismo, fazendo estagnar a carreira de um professor numa altura (por volta dos 40 anos) em que, por norma, qualquer profissional com vinte anos de experiência e outros tantos por cumprir sente necessidade de ver reconhecido não só o valor do seu percurso, como também garantidas as expectativas futuras de progressão na carreira.
A ME não tem qualquer ideia nem rumo para o ensino em Portugal, limita-se a alinhar na política mesquinha do governo, protagonizada pelo PM, que elegeu os funcionários públicos em geral e os professores em particular como “persona não grata”, causa de todos os males do país. Não há nada como arranjar um bode expiatório para que a sociedade exorcize o mau estar que lhe vai na alma e para disfarçar a incompetência política que grassa no sector da educação.

quarta-feira, março 19, 2008

Sou professor: tirem-me daqui!

Sou professora há tempo suficiente para já estar no antigo oitavo escalão da carreira quando foram decretados os célebres congelamentos que aceitámos contrafeitos, mas justificados na nossa boa intenção do bem comum e na retórica propagandística do nosso primeiro-ministro.

E quando veio o novo estatuto não se fez grande alarido. Além das institucionais vozes de protesto, a que ninguém liga, desgastadas que estão pelo ritual político-partidário e pelo profissionalismo sindical, ouviam-se na sala de professores os contestatários habituais com os quais todos concordávamos pontualmente mas nunca ao ponto de pormos em causa o facto de sermos avaliados.

Nem mesmo a sinistra figura do professor titular nos assustou, convencidos que estávamos que a credibilização do ensino em Portugal passava pela criação de corpos estáveis, e devidamente qualificados, na gestão e coordenação pedagógica das escolas. Nem tão pouco, ficámos em pânico quando percebemos que tínhamos que trabalhar durante muito mais anos para ganhar menos, arrastados que íamos na necessidade urgente do sacrifício geral, em particular da função pública, para bem da salvação económica do país e do bem-estar da nossa velhice.

Mas quando vimos que o concurso a professor titular introduzia as maiores injustiças em termos de reconhecimento do nosso trabalho e que, em vez de assegurar a qualidade dos quadros de gestão pedagógica das escolas, apenas introduzia diferenças arbitrárias entre colegas, sobretudo se forem de escolas diferentes, tendo como efeito prático tão-somente reduzir as despesas do Estado, sentimo-nos malogrados na nossa boa fé.

Quando nos vimos feitos os bodes expiatórios da má qualidade do ensino no nosso país e confrontados com um modelo de avaliação que a todos queria passar um atestado de incompetência, sentimo-nos revoltados.

Sentimo-nos revoltados porque fomos nós que, bem ou mal, fomos todos os dias para dentro das salas de aula e assegurámos ao longo destes anos o ensino em Portugal, num ambiente de completa deriva legislativa e completo desgoverno educativo. Somos nós que damos a cara e nos responsabilizamos diariamente por um ensino que nunca teve um rosto coerente, que tem andado às apalpadelas desde que se democratizou à pressa.

Somos acusados, pelo sistema que nos formou, por nos termos visto em papos de aranha para interpretar toneladas de despachos contraditórios, por termos tido de seguir directrizes vagas e incoerentes, por termos tido de pôr em prática currículos cujos conteúdos programáticos são incompatíveis com os objectivos pedagógicos e com as finalidades do ensino. Somos responsabilizados pelo insucesso e pelo abandono escolar como se a degradação geral do tecido social não tivesse nada a ver com isso. Somos publicamente denegridos pelo mau resultado dos números quando isso é apenas um dos indicadores do fraco nível do desenvolvimento global do país.

Os milhares de professores que no dia 8 de Março se manifestaram fizeram-no porque se sentiram enganados pelo Sr. Primeiro-ministro, insultados pela Sra. Ministra da Educação, ludibriados pelos pais que delegam nos professores a responsabilidade exclusiva pela educação dos seus filhos, difamados pela opinião pública invejosa dos privilégios mas ignorante do seu preço, esmagados contra um tecto de carreira cada vez mais baixo e assustador, sufocados na heresia dos relatórios descritivos, dos planos de recuperação, das justificações e das fichas disto e daquilo, paralisados nas aplicações informáticas que o Ministério manda ensaiar na escola e que engata todo o trabalho já feito e por outros tantos papéis aos quadradinhos que cada vez mais insistem em tornar-nos simples burocratas. Tudo isto desviando os professores da sua verdadeira função – o acto de ensinar.

Os professores vieram finalmente para a rua para fazer lembrar ao nosso Primeiro-Ministro, à nossa Ministra da Educação e ao país em geral que podemos não ser os professores ideais mas somos os professores reais, aqueles sem os quais, quer queiram quer não, não será levada a cabo nenhuma reforma no ensino.

E somos competentes, tão competentes que não saímos a espectáculo público por razões de gratuito descontentamento, tão competentes que fizemos questão de dizer que sabemos quando nos estão a atirar areia para os olhos, tão competentes que percebemos aquilo que o Sr. Primeiro-ministro parece não ter percebido – não é lançando abruptamente a grande maioria dos professores do nosso país (os que estão mais ou menos a meio da carreira) para o fim da sua progressão na carreira, que encontrará a energia positiva necessária para melhorar o seu desempenho.

Esta maioria de professores sabe muito bem dar aulas e não tem medo de ser avaliada, não terão de fazer senão aquilo que sempre têm feito para defender a sua categoria. E, uma vez que lhes rouba todas as expectativas de promoção, também não terão de fazer muito mais nos outros tantos anos que ainda permanecerão no ensino. O efeito será, no mínimo, paralisante, Sr. Primeiro-ministro. Afinal não se distinguirá muito do actual estado de coisas, só que ainda mais triste.

E é escusado acenar-nos com a outra carreira, a de titular, pois como todo o país já percebeu, nem o Sr. Primeiro-ministro acredita nisso.[Rosalinda]

quarta-feira, março 12, 2008

sem nome

Arrecadou calmamente a angústia. Estranhou a serenidade com que o conseguiu, tanto melhor, afinal alguma coisa aprendemos nas andanças desta vida.
Tirou a pintura e encheu o bidé com água fria. Doíam-lhe as entranhas, se calhar estava na altura de tomar outro analgésico. Apetecia-lhe beber qualquer coisa forte, alcoólica, mas o antibiótico desaconselhava essa possibilidade.
Lavou-se cuidadosamente. A água transparente descansou-a. Tudo bem, não há indícios alarmantes. Foi ao frigorífico, encheu um saco com gelo e deitou-se no sofá tão comodamente quanto possível. Colocou o saco na barriga e olhou o relógio, quinze minutos, depois tinha que o tirar, aguardar outros quinze e voltar a pôr. Ligou a televisão por ligar, pegou num livro mas logo desistiu, não conseguia concentrar-se em nada. Ela bem sabia o porquê desta dificuldade, ele havia de telefonar a perguntar se tudo tinha corrido bem e ela haveria de dizer que sim. Mas lá no fundo, lá no fundo macerado do seu corpo, morava o vazio. Tão irreversível como despojado. Ele dir-lhe-ia, vou já ter contigo, e ela, não, não venhas, hoje é um dia de solidão absoluta.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Provocação 12

Ele: Viva, não nos encontrámos já uma ou duas vezes?
Ela: Só pode ter sido uma. Nunca cometo o mesmo erro duas vezes.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Caranguejola

Sinto-me seca por dentro… e amedrontada, mas não me dói nada, estou completamente encortiçada.
Sempre achei fascinante a expressão “sensação de cortiça”, aplicada ao efeito da anestesia que o dentista nos aplica. O facto é que é bem conseguida, certamente pelo aspecto leve e rijo da cortiça. É a sensação de leveza e rigidez que a anestesia provoca que induz a comparação.
Pois é, e eu hoje sinto-me encortiçada. A rigidez ainda a compreendo, agora a leveza é-me completamente estranha. Creio que é uma leveza enganadora, o peso ludibriado pelo alheamento dos sentidos, uma forma inconsciente de suportar a angústia.
Por quanto tempo durará? E qual o poder desta estranha anestesia, que tende a libertar a dor oculta e a iludir a mágoa instalada? Tenho medo que o caldo se entorne, que a rede se rompa e que de repente todo o meu corpo ceda à tentação do abismo. Ir por aí a baixo e deprimir nas entranhas do sofá, ser eu própria o sofá.

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

MSC

sábado, fevereiro 16, 2008

Cenas


Cena 1
Vi-te entrar sorridente. Engoli em seco. Atrás de ti a sombra inseparável da tua namorada, zelosa e submissa. É bonita a tua namorada.
Viste-me. O teu sorriso abriu-se um pouco mais. Abraçaste-me e beijaste-me efusivo. Correspondi. Cumprimentei a tua namorada e notei nela um certo mau estar. Estava bem de ver, contaste-lhe! Essa cabecinha de vento nunca soube avaliar inconveniências.

Cena 2
Não foi preciso muito para que à tua volta se juntasse um grupo de convivas. Tens esse encanto, atrais as pessoas, há algo irresistível no teu olhar, uma irreverência sedutora no teu discurso, um humor refinado e oportuno.
Fiquei por ali, nem tão perto que demonstrasse um interesse especial, nem tão distante que me privasse de te ver e ouvir. Falavas arrebatadamente sobre o desnorte deste governo e no ping-pong do futuro aeroporto de Lisboa.
Sentia o incómodo da tua namorada, que de tempos a tempos não resistia em olhar-me. Media-me, provavelmente comparava bustos e outras redondezas. O pouco que encontrava ainda a deixava mais desconcertada. Pior que ser encornada é ser encornada por uma mulher feia, devem pensar as belas.

Cena 3
Envio-te uma mensagem, não te envio uma mensagem? Interrogava-me, receosa que, despassarado como és, desses nas vistas quando a recebesses. Quero lá saber, hoje apetece-me ser putinha.
Click, mensagens, criar mensagem, apeteces-me vou para casa tens duas horas para aparecer, enviar mensagem, mensagem enviada com sucesso.
Aguardo. Desloquei-me de forma a poder ver-te. Levas a mão ao bolso e ainda antes de leres a mensagem apercebes-te que é minha. Procuras-me pela sala. Vês-me e sorris descaradamente. És mesmo bronco.
Visto o casaco, despeço-me e saio.

Cena 4
Ateio a lareira. Não respondeste à mensagem, mas isso não quer dizer nada, és deliciosamente imprevisível. Coloco uma garrafa junto ao lume para o vinho ficar mais espirituoso. Ligo a net, dou uma vista de olhos pelo “Mulherio”, nada de novo. Às vezes apetece-me dizer-te que sou a Cristalinda. Abro o Word e começo a escrever este texto. Não sei como acaba, mas pelo sim pelo não, fechei o cão na arrecadação.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Diálogos crispados, no bar


- Fui corrido.
- Assim, sem mais nem menos!
- Sim, fria e decididamente.
- Então e porquê, alguma razão em especial?
- Acho que vocês quando nos põem a andar têm sempre razão, mas o importante no meu caso não é tanto a razão, é a atitude.
- Pois, ninguém gosta de ser corrido sejam quais forem as razões, mas olha que entre uns cornos e uns patins, sempre são preferíveis uns patins, com alguma destreza podes descrever uma curva larga e voltar ao ponto de partida…
- Sim, mas isso é quando somos namorados, aí a sensação de ruptura é mais atenuada, cada um para seu lado e até ver… agora quando o dia a dia é partilhado, cama, hábitos, projectos, o amor tranquilamente instalado… aí o mundo fica do avesso.
- Tem calma, nestas coisas do amor nada é definitivo.
- Mas eu detesto abanões, a relação nunca mais é a mesma, é como as paredes quando abrem fissuras, podem tapar-se mas a estrutura fica irremediavelmente afectada.
- Olha que há muitas relações que envelhecem com desmoronamentos e reconstruções… deita mas é mãos à obra antes que apareça algum construtor a querer escorar a parede…
- Essa é boa. Ela destrói e eu é que tenho que reconstruir! Bem, não é que eu não queira, o orgulho é que não me deixa.
- Mas vais ter que fazer alguma coisa.
- Pois.
(pausa)
- Então e de resto, como tens andado?
- A sopa, broa e azeitonas.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

São Valentim

Quaresma. Acabou a folgaria, o Carnaval e a carne a rodos.
Bem sei que já ninguém leva isto a sério, os mecanismos económicos não se compadecem com tradições que apelem à contenção. Pelo contrário, criam artifícios a coberto de pseudo-boas-intenções para vender mais e mais. O dia dos namorados é um exemplo desse mecanismo. E então é ver os pombinhos a rematar o amor jurado com bagatelas e inutilidades. Azar do desgraçado ou da desgraçada que não afina pela moda, não honrará a jura, que isto de palavras leva-os o vento, e ao presentinho há-de arranjar-se arrumação.
Sempre achei estas trocas-baldrocas uma valente hipocrisia, de quem as fomenta e de quem nelas alinha. E os pombinhos deviam questionar quanta hipocrisia partilham ao abrigo do infortúnio de São Valentim.
Por isso meu querido, não me venhas com bilhetinhos. Esta Asterius quer-te sensato.


sábado, fevereiro 09, 2008

Está tudo bebedo ou quê!?

Sinceramente não percebo, então agora sair para a rua em dia de carnaval tem que ser objecto de concordatas! Queriam que saíssemos na sexta, na quinta? Se calhar queriam que não houvesse carnaval, sempre se poupavam à humilhação.
O Rossio é maior e vacinado e não precisa de autorização para sair, sai quando quer, com quem quer e, se não fosse cá por coisas até vos diria que para sair tão mal acompanhado mais valia ficar por casa, que lá no fundo foi o que fizemos no Domingo. Mas mesmo assim fomos invejados e criticados, parecem aquelas mulheres solteironas e invejosas da beleza alheia. Frustradas pelo desprimor que lhes calhou em sorte, passam a vida a falar mal de quem se diverte e negam o direito aos outros de o fazerem. Só há uma palavra para descrever o vosso estado de espírito – despeito.
E o despeito é tanto maior quanto a vossa arrogância. Já ouvi falar de bailes de carnaval cheios, carros alegóricos fantásticos, grupos originais, trajes fantasiosos, rebéubéu, rebéubéu… e repetem a mentira até à exaustão para ver se pega como verdade. Taditos, ainda estão naquela fase ingénua do boato, agarrados àquela máxima de que uma mentira dita muitas vezes passa a ser uma verdade.
Desta vez tiveram azar, nem bailes, nem marcha, nem carros correspondem aos testemunhos isentos que tive oportunidade de ouvir. Quanto aos bailes era preciso binóculos para encontrar par; a marcha, o costume, um grupo de feios e feias sem graça nem talento, a arrastar uns fatos de triste figura, pese embora a audácia da encomenda; os carros, o jardim zoológico do costume, borboletas, perus, dinossauros, num desacerto de cores e de formas contra-natura, e lá mais para trás, a encerrar o desfile, finalmente um carro apropriado, uma jaula encarcerava adequadamente a restante bicharada.
Esta é que é a verdade, doa a quem doer, custe o que custar. Portanto, façam-me um favor, escrevam sobre o carnaval quando vos passar a bebedeira. Ouviste Achadiça!?

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Cingab vs Achadiça

Cris (deu o mote)
Mal se fala em chouriça
O Cingab do meu Rossio
Com saudades da Achadiça
Faz-se logo ao desafio

Achadiça
Para deixares tal recado
mais valia calares o pio
O Cingab está arrumado
desde o último desafio

Cingab
Cristalinda e Achadiça
Deixem-se lá dessas histórias
Na nossa passada liça
Eu só somei é vitórias

Achadiça
Ó Cingab, ó vã glória
Isso faz parte do passado
Se da derrota fez vitória
é porque ficou baralhado

Cingab
Não diga isso, ó menina,
Olhe que vais ser uma maçada
porque você ainda quina
nesta nossa nova “entifada”

Vá antes à foz do Mondego
Com carteira, alugar fatiota
Podem ser belas, não nego
Mas são um bocado batota

Também se quer que lhe diga
Mas, não me leve a mal
Vai levar uma corrida
Nem lhe valerá o Juvenal

Isso se tiver a coragem
De reconhecer o melhor
Lhe deixarei a mensagem
E lhe darei algum valor

Achadiça
Nesta nova “intifada”
P’ra cumprir a tradição
Vai levar uma panelada
Vou-lhe pôr um pisão

Pum pum pum no seu portão
Zás trás pás na sua escada
Venha o queijo e o salpicão
E a chouriça bem assada

Mas nem um naco de pão
Para afugentar este frio
É o que dá pôr um pisão
A um gajo do Rossio

Isto é tempo perdido
O rapaz tem mau feitio
Triste sina ter nascido
Lá no bairro do Rossio

Cingab
Mas por agora acabou
Espero não ter levado a mal
Não sei se você gostou
Deste nosso Carnaval

Claro que ganhou o meu Rossio
Mas o Paço não esteve nada mal
Foi é pena perderem o pio
No nosso despique final

Mas o entrudo está queimado
O bacalhau já foi cozinhado
Dou-lhe agora a minha mão

Para o meu bairro vencer
O seu tem de perder
Assim manda a tradição

Achadiça
Acabou, está acabado
Mas tem que admitir
O Rossio foi derrotado
Não val’a pena insistir

O Paço foi o mais brilhante
Queimou-vos com o dragão
E também foi exuberante
Com o seu garrido pavão

Mas nesta fase final
O melhor para mim
É enaltecer o carnaval
De Canas de Senhorim

Para todos os canenses
Em particular os do Rossio
Um abraço dos pacenses
E um beijo do Mulherio

Vexame

Com e sem chuva o carnaval lá se cumpriu. Fiquei expectante no Domingo, o meu Paço não se mostrou, o que rompia um pouco com a tradição, e o Rossio, ainda que envergonhado e tolhido de movimentos, veio dar um ar da sua pouca graça às Quatro Esquinas. Apuradas as razões de o Paço não ter saído, mais uma vez nos deparámos com o incumprimento das promessas do Rossio. Foi acordado entre as duas direcções que dadas as condições climatéricas o melhor era não saírem, eis que o Rossio, fiel ao habitual desrespeito pelos compromissos assumidos, fez ouvidos de mercador à palavra dada e baralhou os poucos populares que por ali se encontravam. Então o carnaval de Canas é isto, uma carripana a debitar música de cassete-pirata e uns quantos sacos pingões a badanar adereços de mau gosto? Ainda me ri com o comentário… mas verdade verdadinha é que para espectáculos daqueles mais valia ficarem debaixo do aconchego do barracão onde fabricam aquelas caranguejolas vergonhosas que trouxeram à rua na terça-feira e num último esforço dar-lhes alguma dignidade.
De resto, nada de novo há para comentar, o Paço continuou exuberante a todos os níveis. Excelente nos carros alegóricos, criativo nas performances dos diversos grupos que integravam o corso, brilhante na diversidade de cores, na escolha dos trajes e imbatível no despique. Gostei particularmente das acções de rua da ASAE e da ciganagem, do trabalhoso dragão e do fantástico pavão. Estes sim, dignos do carnaval de Canas.
O Rossio sofreu uma derrota humilhante, a todos os níveis, mas o que me deu mais gozo foi a inversão de papéis verificada nos bailes. Parece que o Rossio não tinha lá vivalma e os do Paço abarrotavam. A continuar assim o melhor é alugarem o Kebra por três dias, quebranto por quebranto ao menos que vos dê algum rendimento. Até para o ano, se entretanto ultrapassarem o vexame.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Provocação 11

Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um pirilampo. Ele fugia com medo da feroz predadora, mas a cobra não desistia. Um dia, já sem forças, o pirilampo parou e disse à cobra:
- Posso fazer três perguntas?
- Podes. Não costumo abrir esse precedente, mas já que te vou comer, podes perguntar.
- Pertenço à tua cadeia alimentar?
- Não.
- Fiz-te alguma coisa?
- Não.
- Então porque é que me queres comer?
- PORQUE NÃO SUPORTO VER-TE BRILHAR!!!
E é assim....
Diariamente, tropeçamos em cobras!

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Crónicas da Galinha Riça - Carnavalite crónica


O carnaval de Canas de Senhorim é genético. Algures, na memória dos tempos, os canenses sofreram uma mutação no seu ADN. Este gene mutante, transmitido de geração em geração tomou conta da estrutura celular e foi ganhando proporções virulentas. Não fosse a natureza do fenómeno benigna e o risco infecto-contagioso limitado e estaríamos perante uma pandemia carnavalesca de proporções catastróficas. Estão a imaginar o que é que isto dava à escala nacional, se a nossa rivalidade entre bairros extrapolasse para as cidades e regiões, Lisboa vs Porto, Alentejo vs Algarve, Norte vs Sul… seria caótico, uma ameaça para a integridade nacional. Mas não, a virose está limitada no tempo e no espaço, três simples dias em que o vírus agita o sistema imunitário dos canenses, com as respectivas febres, calafrios, convulsões, arrepios e outras dores de somenos importância. Nada que três pastilhas de mebocaína, três konpensan e outros tantos gurosan não resolvam.
Efectivamente, a “doença”, em determinadas circunstâncias, pode revelar-se contagiosa. Habitualmente o contágio é de origem sexual. Vem o rapaz ou a rapariga de fora, acasala com um nativo e quando dá conta já cantarola as marchinhas. Mas o contágio também pode ser por simpatia, existem casos clinicamente comprovados de achadiços que sem "coiso e tal", vivendo em Canas há dois ou três anos padecem do mesmo mal. Quando dão conta lá vem, escarrapachado no relatório das análises clínicas um alto teor de carnavalite; outros ainda, mais sensíveis ao fenómeno, bastou-lhes passar cá um Carnaval e pronto, chegada a época o bichinho acorda e lá vêm até Canas de Senhorim passear a maleita.
Até a comunidade de Nelas, um lugarejo aqui perto, foi ligeiramente contagiada, não se sabe bem como nem porquê (há coisas que a ciência não explica). Porém os organismos inoculados tinham uma malformação congénita e a nova estirpe degenerou num fiasco, isto apesar do investimento na sua encubação e na manipulação in-vitro da cultura original. Claro que ficámos compadecidos com o fracasso, então anda o edil a brincar ao Carnaval todo o ano e depois na altura de colher os louros, nem corso, nem vestimentas nem foliões… uma arrelia!
A“carnavalite” canense manifesta-se durante três, quatro dias e, regra geral, não deixa sequelas, se bem que há casos isolados de carnavalite aguda devidamente referenciados. Nos primeiro e segundo dias a doença apresenta sintomas débeis, os pacientes podem manifestar tremuras passageiras e desacertos mentais esporádicos, porém ao terceiro dia o vírus recrudesce e toma conta do organismo do doente. Os desacertos mentais iniciais transformam-se em desvario e a tremedeira em frenesim. Estímulos nervosos induzidos pelo vírus nos tecidos neurológicos produzem quantidades substanciais de endomorfina que por sua vez accionam a excitabilidade muscular, ao que o sistema circulatório responde com elevados índices de adrenalina. É o culminar da doença. Nesta fase os doentes revelam comportamentos agressivos e uma euforia descontrolada, só aplacados pelo confronto tribal que ocorre em pleno centro da vila e após descargas maciças de urros, vaias e vitupérios.
Ao quarto dia está tudo acabado, a carnavalite retrocede e volta ao processo cíclico que caracteriza as doenças crónicas. Só passado um ano é que retorna, nem mais nem menos perigosa, nem mais nem menos atenuada. Parece que não tem cura, há quatrocentos anos que afecta esta terra e promete perdurar enquanto houver, pelo menos dois canenses. O que já esteve mais longe.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Diálogos Encrespados, Carnaval


Aproxima-se o Carnaval. O meu Juvenal pela-se por esta época, aproveita os bastidores do evento como justificação para me chegar a casa tarde e sabe Deus como.
- Então isto são horas? - Pergunto-lhe estremunhada.
Meio cambaleante, naquela gaguez delatora de quem já enfiou uns copázios, lá se vai desculpando como pode:
- Ai e tal, os carros estão atrasados, a malta diz que vem e depois não vem, este ano é o último, já estou farto disto…
- Ouve lá, mas pensas que sou tó-tó. Vens para aí aos tombos, a cadela que trazes contigo vem a ladrar desde que entraste ao portão e queres convencer-me que estiveste nos carros!
Ficou muito ofendido. Que não era nada disso, se vinha tonto era por causa da cola…
- Da cola!!!
- Sim da cola, o cheiro entra pelo nariz adentro e fica-se assim…
- Assim mentiroso, com nariz de Pinóquio não é? No ano passado foi o aparelho de soldar que te deu cabo dos olhos. Lá foste para Viseu às urgências e só apareceste em casa às sete da manhã… eu nunca engoli essa história, foste mas foi arregalar o olho sabe-se lá para onde, ou pensas que eu nasci ontem?
Ficou atrapalhado com a revelação, se calhar pensava que eu não sabia destes desvios carnavalescos.
- Mas, mas… então não viste o carro que saiu feito por nós?
- Aquele zingarelho com dois paus ao alto! Foi aquele monumento que te reteve até altas horas da noite durante mais de 15 dias?
- É pá, mas o que é que tu percebes disso para questionares as horas de trabalho… fica sabendo que aquilo exigiu intrincados cálculos físicos e mecânicos, relação esforço/potência do motor, aerodinâmica, peso/contra-peso, ângulos de inclinação, rotores, transmissão, alimentação etc., etc…ou pensas que os movimentos oscilatórios não têm que ser devidamente equacionados? Se fosse tão simples como insinuas porque é que achas que o Rossio não faz carros dinâmicos?
- Pois, pois, dá-me música. Os tais movimentos oscilatórios sei eu muito bem como são equacionados, um copo aqui, outro ali, mais um além, e é ver os movimentos oscilatórios em progressão…
- Bem, não há nada a fazer, estás com um mau feitio que é obra. Deixa-me dormir que amanhã vou bulir.
- Está bem, mas fica sabendo que as chouriças estão contadas. É que nesta época do ano desaparecem misteriosamente da despensa.
- Raios partam a mulher.

Deixei-o em paz por agora. Desconfio que há cinco anos não põe as patas na associação, e se lá vai não é certamente para actividades de intrincada engenharia, como diz. Vamos ver se não tenho que o pôr a pão e água.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Crónicas da Galinha Riça - A Nova Intifada

Foi com elevada consternação que alguns distintos lapenses receberam a notícia do novo trajecto do IC12 e da respectiva localização do nó de acesso a Canas de Senhorim. Agradados pelas expectativas que o antigo projecto apresentava, com a possibilidade de o referido nó ficar nos limites da localidade, circunstância porventura já devidamente equacionada em termos de rentabilidade pessoal e colectiva, viam-se agora despojados do magnífico nó e preteridos no empreendimento a favor da Póvoa de Sto António que, sendo lugar de santo não é mais santificado que a Lapa do Lobo que já teve a piedosa presença do Sr Bispo. E acrescentavam: Mesmo que a comparação entre o santo e o bispo nos seja desfavorável, pois a tanto ainda não chegou a Igreja na santificação dos eclesiásticos vivos, é por demais conhecida a ligação de São Francisco de Assis ao lobo, animal que deu o nome a esta terra. Mesmo que seja improvável ser o animal de S. Francisco o mesmo que o da Lapa também não há provas em contrário. E mais que não fosse não seria o Vale do Boi o melhor sítio para o redondel, local cuja nomenclatura é espiritualmente apropriada para evocar esse animal sagrado que é a vaca, ou o boi, alargando assim o sentido ecuménico aos fieis? Portanto, em matéria de santos, bispos e bestas estamos resolvidos. Neste particular não está a Póvoa melhor apetrechada para que lhe seja oferecida de mão beijada o altar rodoviário.
É claro que estes considerandos canónicos eram a voz da populaça, que, incapaz de perceber os labirintos técnicos do projecto, recorria à velha explicação divina ou semi-divina para tentar resolver a afronta. Do mesmo mal não sofriam os distintos lapenses que convocaram o plenário onde estas opiniões se fizeram ouvir. Após aturados esforços de esclarecimento lá convenceram os populares que isto não era uma competição de santos ou de religiões, apesar de a ideia ser tentadora, conforme afirmou um dos oradores. Trazia-se à congregação São Cristóvão, protector dos automobilistas, São Tiago, promotor dos caminhantes, e, com a teimosia argumentativa de Santa Catarina, nossa padroeira, talvez Santo António abdicasse da sua vocação casamenteira e deixasse de andar para aí a dar nós ao desbarato…
Foi uma alusão oportuna. Os entendidos sorriram, cúmplices da ironia oratória e dos laços conspirativos que o comentário exerceu nos crentes. Agora era preciso dar a volta à questão para que o assunto fosse tomado em consideração pelas entidades competentes, e a melhor forma de o fazer era alertar determinadas organizações para os malefícios ambientais que o traçado do novo percurso iria trazer. Elas encarregar-se-iam de solicitar ao Ministério Público uma providência cautelar que embargasse a obra e a devolvesse ao percurso inicial, acautelando o local do ambicionado nó. Mas aqui punha-se um problema, que fundamento iriam utilizar para convencer os ambientalistas? Não temos pinturas rupestres, ossadas de dinossauro, formigas pirilau, sardaniscas pintalgadas, o estorninho não está em vias de extinção, a carriça também não, raios, que vamos nós preservar? O sapo Cocas?
Foi então que um ilustre lapense, até então silencioso, pediu a palavra:
- Meus amigos a vossa visão é pequenina, andam à procura da parte quando têm o todo à disposição. O que é preciso preservar é aquele lugarejo moribundo, semi-abandonado ao seu triste destino. Sim, o que é preciso salvaguardar é a vila de Canas de Senhorim. Se este projecto se confirmar como está previsto, a já agonizante vila ficará sufocada entre a linha de comboio e a auto-estrada, a ver passar carros de um lado e comboios do outro, um garrote fatal, um enclave em “V” a abrir para Carvalhal Redondo e para Nelas, empurrando os canenses de encontro aos seus eternos detractores. É este o fundamento que vocês procuram, evitar a todo o custo aconchegos indesejados, e terá o apoio de todas as partes, dos envolvidos, que por certo não aspiram à aproximação nem são dados a abraços, e das entidades políticas que não arriscarão nestas circunstâncias colocar à disposição dos habituais insurrectos as duas principais vias de acesso ao interior beirão, a linha da Beira Alta e a auto-estrada A35.
Esta sim foi uma tirada iluminada. Logo ali se prepararam alforges e merendas, sem descurar o milagroso líquido de Canã. A ideia era rumar à pedreira do Vale do Boi, tomar as instalações da empresa e ali entrincheirados resistir ao insidioso projecto.
Anuncia-se assim em primeira mão uma nova intifada na Vila de Canas de Senhorim, a qual, desta vez, a avaliar pela matéria-prima que o local proporciona, promete aguerrida resistência.

domingo, dezembro 30, 2007

Provocação 10

Meu Deus peço-Vos sabedoria para entender o meu homem, amor para perdoá-lo e paciência para suportar as suas atitudes, porque se vou pedir força bato-lhe até o matar

terça-feira, dezembro 18, 2007

UCI


A Unidade de Cuidados Intensivos é apertada e a maquinaria que mantém os pacientes sob vigilância electrónica ocupa a maior parte do espaço. Na unidade estão sete doentes.
Com a regularidade das visitas cria-se empatia com os familiares, trocam-se experiências, suposições, especulações, para daí tentarmos extrair uma lógica comum no evoluir da situação. E não adianta virem os técnicos dizerem-nos que cada caso é um caso, que cada doente tem a sua própria forma de recuperar e por aí fora, precisamos de um caso em que tudo correu bem para relacionarmos e verificarmos se o nosso doente vai por esse caminho. A “psicologia” dos enfermeiros na abordagem da situação é académica, são evasivos por formação (ou por deformação), sobretudo quando a coisa está má. Quando o caso corre como esperado, “dentro dos parâmetros normais para este tipo de intervenção”, como dizem naquela linguagem estudada que nos descansa mas não diz nada, lá vão deixando cair esporadicamente uma ou outra informação. Compreendendo as reservas destes profissionais que trabalham com os nossos doentes, restam-nos informações laterais na boca dos familiares mais antigos. Se temos a sorte de confidenciar a intimidade da doença do nosso ente querido com alguém a quem a situação correu bem, vimos de lá animados, confiantes que a natureza humana não é assim tão diferente e se àquele foi assim ao nosso assim será; mas há sempre um mensageiro da desgraça, há sempre alguém que faz questão em fazer-nos lembrar que a Lei de Murphy é extensível à fragilidade humana.
Aguardo pacientemente no corredor e deambulo o pensamento sobre assuntos triviais, como o dinheiro que o estado gasta na gestão destas unidades, um balúrdio. Mas sinto-me satisfeita, estamos sempre a dizer mal do nosso país e acabei de constatar que temos o que há de mais moderno e sofisticado para acudir aos nossos doentes, talvez seja difícil arranjar atempadamente uma vaga, que a procura é muita e a oferta do estado, a avaliar pelas listas de espera para as intervenções cirúrgicas, não chega a todos, mas, talvez pela gravidade do estado de saúde do meu doente, todo o processo se desenrolou com uma brevidade surpreendente, facto que só me deixou mais apreensiva, com tanta rapidez o doente desconfia. São milhões de euros dispostos à volta e à disposição dos enfermos, cada cama tem três monitores que registam através de dezenas de terminais e outros tantos aparelhos cada palpitar do corpo, depois as tais máquinas de apoio, ventilador, ressuscitador, etc. etc., aquelas que mantêm os mortos vivos. Em constante azafama, no silêncio compenetrado que a responsabilidade das tarefas exige, o corpo de enfermeiros analisa os valores de toda aquela maquinaria e ministra os cuidados aos pacientes, tudo de forma pragmática e eficiente, gestos meticulosos, sem hesitação. Este cenário pode parecer mórbido mas se nos abstrairmos dos nossos dramas pessoais, podemos, sem esforço, apreciar este palco “fantástico”, onde vida e morte se debatem, num “espectáculo” onde a ciência humana joga, desta vez, a favor da vida.
Espero cá fora, no corredor, confinada a um cantinho, para não incomodar o exército de salvação. Como todos os exércitos este também tem as suas patentes e as suas fardas. Os médicos fardam de branco e trazem sempre o estetoscópio ao pescoço, os administrativos também mas sem estetoscópio, os enfermeiros trajam de verde-escuro e os auxiliares de azul-bebé. Estes pormenores podem parecer vulgares à primeira vista mas ganham especial importância na nossa primeira incursão à unidade, precisamos de referências, são eles o elo de ligação com o nosso doente, são eles que tomam conta dele, e depois não devemos tratar os enfermeiros por doutores… não é que eles não gostem (lol), mas seria profissionalmente incorrecto um enfermeiro acatar o título num meio onde os doutores são efectivamente os médicos. Lá ao fundo, nas enfermarias, o corpo clínico acode placidamente aos chamamentos dos desafortunados que ainda têm um sopro de energia para clamar, é uma procissão de enfermeiros, técnicos, macas, aparelhos, doentes, e sei lá mais o quê…
Finalmente a médica de cabelos grisalhos, elegante, aparece. Tem um sotaque enganadoramente algarvio. Confidencia-me na penumbra do corredor alguma tranquilidade, o meu doente é mimoso, diz sorridente, as dores que tem não justificam o alarido, vou dar-lhe alta. Simpatizei com ela, ao contrário de uma ou outra auxiliar hospitalar que, aproveitando a fragilidade da situação a que todos ali estamos sujeitos, exercem uma autoridade indisposta, baseada no poder comezinho que lhes é concedido para nos barrar as portas, para questionar o porquê da nossa presença, para nos mandar aguardar eternamente sem qualquer explicação… em caso algum, solícitas para efectivamente auxiliar, como a sua categoria profissional supostamente indica.
Abandono a UCI, a porta fecha-se nas minhas costas, respiro fundo, uma lufada de ar fresco enche-me o peito, sinto uma satisfação interior muito grande, ou um alívio. Levo o meu doente pelo braço, já resmunga, sinal que não deixou o mau feitio na sala de operações. Na sala de espera já se acumulam os próximos candidatos à UCI, lembro-me de estar ali com o mesmo olhar perdido que agora lhes detecto. Apetece-me confortá-los, dizer-lhes que vai correr tudo bem, contar-lhes o meu caso… mas nunca se sabe, como dizem os enfermeiros, cada caso é um caso.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

sexta-feira, novembro 30, 2007

Provocação 9

Aquele que, ao longo de todo o dia é activo como uma abelha, forte como um touro, trabalha que nem um cavalo, e que ao fim da tarde se sente cansado que nem um cão... deveria consultar um veterinário.
É bem provável que seja um grande burro.

sábado, novembro 24, 2007

05:30

Julgava vencer a insónia da noite com escritos inconsequentes ao correr da imaginação, mas há dias que os pensamentos correm tão depressa que não existe caneta ou teclado para os fixar, estatelam-se no chão e perdem-se a caminho da urgência do sono, no vai-vem do corredor que me leva ao quarto e me devolve à sala. Esvaem-se como vêm. Nem no hospital há corredores assim, aí as insónias são devidamente assistidas se tivermos a sorte dum enfermeiro enfastiado com as nossas queixas. Não há nada pior que uma insónia entre o quarto e a sala, entre o sofá e a cama, uma insónia de corredor, solitária. O que eu queria mesmo era uma insónia assistida, com companhia, para desbaratar a angústia do copo vazio, essa companhia de merda.
Vale-me não ir trabalhar, como se a folga de trabalho fosse passaporte para a inactividade. Não é, especialmente este fim-de-semana, carregada de filhos, que sendo dele são tão meus como o legítimo… raios que não encontrei outra forma de dizer isto.
Li uma vez um texto que me deixou perplexa, nunca em tão poucas palavras alguém conseguiu descrever tão bem a insónia, pelo menos em português, não me lembro de cor, só sei que está lá tudo o que a insónia tem e o que desesperadamente deixa entrever. Esperem, vou ver se o encontro…
Encontrei, já lá vão dez minutos surripiados à desdita…
Pensei que fosse de um daqueles poetas enciclopédicos, de A a Z, mas não! Chama-se Carlos de Oliveira e sobre o assunto disse:

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa: “o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração”.


qed

terça-feira, novembro 13, 2007

Terapia da afirmação


A necessidade de afirmação pode resultar de um sentimento de insegurança, de um complexo de inferioridade ou da falta de auto-estima, mas manifesta-se nas nossas relações pessoais das formas mais caricatas, que podem ir de uma selvática agressividade, como é o caso da violência doméstica, até ao comportamento ridículo do peão na passadeira, que faz que anda mas não anda.
As passadeiras para peões são uns autênticos altares à afirmação pessoal, ali, novos e velhos, eles e elas, impõem-se ao condutor e à máquina, satisfazem as frustrações do quotidiano impondo o seu ritmo, ou a falta dele, e uma razoável centelha de dignidade acende-se lá no íntimo das suas almas. Aqui sou gente, aqui mando eu, ponho e disponho, ao abrigo da lei do tráfego. Não havendo pressa há que aproveitar ao máximo o momento. Então, arrastam-se vagarosamente pela zebra desafiando com o olhar, do alto da momentânea superioridade, o condutor impaciente. Aqueles curtos metros de distância transformam-se num domínio absoluto do tempo e do espaço, numa travessia só equiparada em glória à do Mar Vermelho por Moisés, enfim, um breve momento de elevação existencial. Aqui contam, sentem-se importantes, aqui alguém reage à sua presença, noutro sítio qualquer ninguém é obrigado a cumprimentá-los, ninguém os ouve, ninguém levanta os olhos para ver a cor dos seus, mas aqui, o condutor tem que reduzir, desengatar e engatar a primeira, travar, parar, tudo por sua causa. Aqui são senhores, ou senhoras, aqui sentem-se completos, por isso atrasam infinitamente o passo para saborear a plenitude que o momento proporciona.
Descoberta a eficácia deste tratamento para o ego já não são só as passadeiras o único consultório clínico onde estas práticas são exercidas, já qualquer local serve desde que este também sirva o trânsito, mas aqui tiveram em conta o risco do tratamento personalizado, não fosse algum condutor mais ousado desconsiderar o paciente isolado e acabar-lhe ali com o ego e com o canastro. Assim, estes pacientes da afirmação, agrupam-se aos magotes no meio da estrada, pode ser à saída de um casamento, de uma discoteca, à entrada para o futebol ou em qualquer ponto, tem é que ser numa via de trânsito, e ali petrificam, convictos no êxito desta nova forma de terapia psiquiátrica.
E que ninguém interrompa a horda destes tiranos da afirmação, ninguém se atreva a buzinar, a acelerar o motor ou a criticar o vagar ou a inacção dos transeuntes, estamos perante um direito aparentemente adquirido e as retaliações podem ser-nos imediatamente aplicadas no local, sem apelo mas com agravo, pelo que o melhor é sintonizar o rádio na Antena 2 e rezar para que esteja a passar uma daquelas obras clássicas relaxantes.

quarta-feira, novembro 07, 2007

Morabéza


A minha cachopa sabe a chocolate, não sei de mulher que melhor me trate.
Já lá vão uns anos desde a primeira vez que ouvi esta música do Sérgio Godinho, longe de imaginar que um dia teria uma cachopa assim.
A minha cachopa é morena de cintura. Adoro apanhá-la desprevenida no banho, toma aquela posição característica das mulheres surpreendidas na intimidade, uma mão a tapar os seios e outra a fazer de parra, depois relaxa, sou só eu que venho besuntá-la com creme de amêndoas, dizem que é bom para as estrias, que ela não tem, diga-se de passagem. O que ela tem é um corpo perfeito, pele lustrosa e uns cabelos negros que lhe chegam ao rabo. Não é alta, mas é toda proporcionada, a minha cachopa.
Gosto de a ouvir falar crioulo, fica tão doce quando fala crioulo, até quando disparata. Ouve uma altura que lhe pedia para dizer o que lhe passasse pela tola enquanto fazíamos amor, em crioulo, está claro de ver. Ui! Tive que desistir, lá se iam os “timings” requeridos. Agora limitamo-lo, o crioulo, aos preliminares.
Fico sempre de boca aberta quando a vejo nua em contra-luz, só a minha cachopa conseguem captar a luz daquela maneira. A pele retém toda a luz de um lado e a parte oculta é-me revelada de uma forma ténue, criando a ilusão de um semi-corpo fundido no espaço envolvente, a silhueta é um desafio aos sentidos, um quadro sublime, uma foto de antologia, um poema a preto e branco. E os cabelos!? Ai os cabelos. Às vezes parece um leão, põe-se de gatas na sala e desafia-me para a brincadeira, outras, quando vem do banho, faz de gueixa, cabelo arrematado ao alto e vestida com aquele roupão vermelho tentação. De todas as vezes acabo enrodilhado na sua juba.
Ainda não vos contei mas a minha cachopa tem tanto de envergonhada como de desinibida. Parece estranho mas é verdade. A primeira vez que me chamou para a ajudar a depilar as virilhas fiquei aterrorizado. Nunca ninguém me tinha pedido tal. Engoli em seco e, que remédio, uma coisa destas não se nega à nossa cachopa, lá encetei a, como lhe hei-de chamar, a honrosa, a dolorosa, a curiosa, a deliciosa, bem… a tarefa solicitada.
Homem que é homem sabe sempre aproveitar estas deixas, vai daí, propus-lhe uma depilação completa pois era um fetiche que há muito alimentava. Agora tenho que manter o terreno limpo com regularidade, e acreditem, é sempre uma festa. Trata com cuidado, tem tesouro a caixinha da menina, diz-me ela sorridente, em crioulo. Nem imaginam como isto soa bem em crioulo. Pena não dar para transcrever.
É catraia a minha cachopa de S. Vicente, não traz nos olhos a saudade que a Cesária canta nem cachupas no Pantagruel, traz no hálito o morno sabor do cacau de S. Tomé e no corpo uma vontade insaciável de sexo, diz ela que nas virtudes sai à mãe que é sãotomense, se é que o sexo é uma virtude, arremata hesitante, com dúvidas mal dissipadas pela educação religiosa do colégio de freiras, mas certa da competência maternal, demonstrada largamente nos seus sete irmãos.
A minha cachopa veste bem, não é que tenha muito dinheiro, tem é a sorte de trabalhar numa conceituada loja de alta-costura. Não sei como ela faz, mas a indumentária vai e vem como se fosse dela. Ainda bem, faço um figurão quando entro com a minha cachopa em qualquer lado, eu bem vejo os olhares dos paspalhos, hehehe, mas é delas que eu me rio mais, especialmente aquelas mais esclarecidas nestas coisas da moda, ficam de cara à banda a mirar a minha mulata aparecer todos os dias vestida de forma diferente e caríssima. Depois olham para mim avaliando a improbabilidade de ser eu a pagar a ostentação. Sentamo-nos à mesa e rimo-nos disto tudo, destas saborosas trivialidades, como ela faz questão em dizer.
Às vezes é uma chata, a minha cachopa. Quando está com os azeites fica escorregadia de tão lustrosa, ninguém a torce, deve ser herança genética dos degredados das ilhas. O seu pai era português, morreu em Santiago, no Tarrafal. Dele, nenhumas recordações tem, mas qualquer defeito que se lhe aponte e que não encontre paralelo na mãe, é inevitavelmente culpa do pai. Uma boa desculpa. É engraçada a minha cachopa.
Muito havia a dizer sobre a minha cachopa, as cantorias, os amigos músicos, as amigas obstinadas, o seu jeito para contar anedotas, a sacralização da cueca (palavras dela), o padre que lhe prometeu casamento, enfim, não se consegue falar de uma pessoa em tão poucas linhas, quanto mais da minha cachopa.


Oh, nha bida, dj'u sabi, ma n'qrê torna flau
Ma n'ta amau, y nôs passado cata squecedo
N'qrê canta na bo caminho
N'qrê badja, co tudo carinho
Di bo morabéza


Lisboa, 25 de Julho de 1987

quarta-feira, outubro 31, 2007

A menina que amava escrever

Todos nós, uma vez ou outra
Amamos desmedidamente sob lençóis ásperos


Teresinha cresceu sozinha no pátio, entre os líquenes da fossa comum, brincando com as gordas minhocas que o montículo de estrume fornecia. Sem bonecas nem livrinhos aos quadradinhos o seu universo infantil resumia-se a olhar e escutar o mundo lá fora, para lá das grades do portão.
Tinha uns olhos grandes de ver e uma expressão permanentemente matutina, como se tivesse acabado de nascer adulta e estremunhada. Pouco falava, os olhos serviam-lhe de linguagem.
Passou o tempo e o portão do pátio abriu-se para ir à escola. Descobriu que para aprender a ler tinha que falar, um esforço sobrenatural que superou quando se apercebeu que aprendendo a ler também aprendia a escrever. Foi a grande viragem. A partir daí esparramava no papel frases atrás de frases, um rosário interior de pensamentos que nunca tinha ousado dizer.
Escreveu histórias sobre as pessoas que habitavam do lado de lá do portão, historias imaginadas para lá das grades, alheando-se assim da miséria onde fora concebida. Inventou romances e alimentou-os entre linhas e linhas de amor, forjando cenários atrevidos, quiçá inspirada na degradação que reinava lá por casa.
A mãe mete-se nos copos, uma desavergonhada e os outros irmãos estão lá para Coimbra, numa casa de reinserção social, do pai não se sabe, temos que fazer alguma coisa, ouviu Teresinha dizer ao professor de Português, enquanto esperava cá fora, no corredor. O director queria falar com ela por causa de uma composição que tinha feito. Estava assustada, o que é que teria escrito de mal?

"Só quero amar. E tenho tudo para o fazer, tenho uma caneta, um papel e muita vontade. A mãe diz que o amor não traz dinheiro, só desgosto. Eu não concordo, está bem que o dinheiro é preciso, mas amar deve ser a melhor riqueza que podemos alcançar e não entendo como escrever pode trazer desgosto. O meu maior desgosto seria não ter uma caneta e um papel e esta grande vontade de escrever.[...]"

O director tirou os óculos, olhou a miúda enternecido. Escreves muito bem, disse-lhe, mas olha que há outras formas de amar para além de escrever. Ela, moita-carrasco, mas arregalou os olhos grandes de ver, agora, talvez, enormes de amar, como que indagando que outros métodos eram esses.
Um dia bateu com o portão definitivamente, virou as costas ao pátio, sem saudade. Os livros que o director lhe emprestara ao longo dos últimos 4 anos tinham-lhe ensinado muita coisa. Julgou-se preparada para amar. E, quem sabe, ser amada.


terça-feira, outubro 30, 2007

Provocação 8

Marido é como a menstruação, quando chega incomoda, quando se atrasa preocupa.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Hips!

Hoje deu-me para andar por aí a navegar a ver os vídeos que a malta coloca nos blogs...
Desesperei! Então não é que ouço e vejo tudo aos soluços. Em verdade isto não é novo, mas como não era uma área que eu explorasse muito não me preocupava, porém agora começa a fazer-me fornicoques esta gaguez. O contrato é de 512 kbps, banda larga, fui verificar a velocidade real a qual ronda uma velocidade de download de 390 kbps, e de upload, 70 kbps.
Isto para mim é chinês. Será que estes valores estão aquém do ideal para ver aqueles vídeos que a malta habitualmente põe nos blogs? Haverá outra razão qualquer, além da velocidade de tráfego, que possa afectar a visualização dos vídeos e dos clips de música? Haverá algumas solução para optimizar este aspecto? Amigos engenheiros digam qualquer coisa sff, hips!

sexta-feira, outubro 26, 2007

Génio Benigno


Já há algum tempo percebemos que não estávamos sozinhas, agora é altura de admitir como estamos bem acompanhadas.
Pode passar despercebido, dada a natureza pessoal do blog e o carácter reservado da sua autora, Citizen Erazed, no entanto tornou-se visita obrigatória para quem acompanha a berlocosfera canense. Estou a falar do Génio Maligno.
Citizen Erazed vai-nos dando conta dos seus gostos musicais, entrecortando a apresentação por pequenos comentários, ora íntimos, ora coloquiais. Um formato muito próximo de um possível programa de rádio.
Atenta ao que se passa no circuito musical do rock alternativo, tendenciosamente britânico, apresenta-nos algumas novidades, quase sempre desalinhadas do mainstreem habitual. Não é por acaso que escolheu um tema dos “Muse” para se identificar…
A sua sensibilidade e um notório conhecimento das obras sugeridas suscitam-lhe uma opinião objectiva, à qual o leitor mais atento não fica indiferente. A escrita é directa, sem redondinhos, eficiente na comunicação, a fazer lembrar uma bem apreendida técnica jornalística.
As suas “curtas” são incisivas, por vezes visam um interlocutor, talvez aquela alma gémea a quem expomos as nossas intimidades; outras, são estados de espírito da própria, sublinhados aqui e ali por passagens literárias ou frases adequadas.
É fresco, atraente e mordaz, revela inteligência e sobriedade. O nome “Génio Maligno” faz justiça à genialidade da sua criadora. Pelo menos a parte do “Génio”. Parabéns, continue a dar-nos música.

Milho, muito milho!


Foto Município Canas de Senhorim

Andamos aqui numa excitação digna de adolescentes em dia de romance. Então não é que depois de muito barafustar, de muito pregar, de muito reclamar, somos presenteadas, para não dizer surpreendidas, com esta excelente produção de milho.
Já tínhamos indicações que este Verão tinha sido propício à produção do referido cereal, mas a contagem levada a efeito no local pelo nosso delegado excedeu as melhores expectativas.
Sim, enviámos um delegado isento, um homem, conforme podem verificar nesta prova documental, isto para evitar apropriações indevidas, pois bem sabemos a fome de milho que infelizmente ainda graça por aí. E se ele está hesitante na contagem não é porque o cálculo se lhe apresente complexo, é tão só porque o amarelo dourado do cereal lhe cega a vista e lhe enriquece a imaginação.
Agora há que saber administrá-lo convenientemente. Em doses equitativas e a intervalos satisfatórios. Nada de desperdícios meninas, amealhem no Verão para que não nos falte no Inverno.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Crónicas da Galinha Riça - O Mártir


Após o coffee-break retomaram-se os trabalhos pelas 11H30. S. Exa. a presidente solicitou que lhe fosse transmitido o ponto de situação do "Projecto Colapso". Tomou a palavra o Eng. Encarregado:
- O projecto progride de acordo com as directivas de V. Exa. Estabelecemos contactos informais com especialistas da Al-Quaeda que fizeram deslocar ao local dois conceituados operacionais, os quais nos asseguraram o êxito do empreendimento. Questionados sobre a diferença de procedimentos, uma vez que o cenário da acção era rural e, como sabemos, estes técnicos estão mais vocacionados para operações urbanas, logo nos surpreenderam com a diversidade de recursos e alternativas. Constitui-se um Gabinete de Estudo e após algumas incursões ao terreno os referidos peritos apresentaram-nos um plano viável e tecnicamente infalível. Uma vez que o terreno já está minado por baixo, a norte, em resultado da exploração do minério, e minado por dentro por força da eficácia política de V. Exa., o plano consiste em minar por cima, a sul, criando assim um abraço fracturante que destabilizará o equilíbrio do território e levará toda a zona envolvente ao derradeiro colapso.
Os presentes aprovaram a ideia acenando afirmativamente. O Eng. Encarregado continuou:
- Devo esclarecer V. Exas. que estes contactos e respectivas despesas foram suportados pela própria organização terrorista através de um estratagema digno da sua reputação. É que eles eram parte interessada. Lembram-se daqueles camiões de urânio que saíram da Urgeiriça com destino à Alemanha? Foi no Gabinete de Estudo para o "Projecto Colapso" que toda a operação foi montada. Através de mecanismos alfandegários que ultrapassam a minha compreensão a rede da Al-Quaeda conseguiu desviá-los do destino inicial para o Afeganistão. Sabe-se lá para quê!
-Está bem – impacientou-se a presidente - poupe-nos a pormenores e diga-nos concretamente o que foi feito para pôr em prática o Projecto Colapso.
O Eng. Encarregado pediu licença para ligar o seu portátil ao projector. São passados vários fotogramas da Avenida da Igreja, em Canas de Senhorim, cujos planos incidem exclusivamente no remeximento do terreno em toda a extensão da artéria.
- Como podem constatar neste slide-show, a cintura sul da vila, definida aqui pela Avenida da Igreja, já foi completamente armadilhada. As cargas de TNT foram dispostas ao longo do percurso a intervalos de 10 metros e ligadas a um sistema de controlo remoto que é accionado pelo timbre da voz de V. Exa a cantar aquela música tradicional do “Ponha aqui o seu pezinho devagar devagarinho…”. Agora é só aguardar pelo Inverno para que o terreno esteja mais permissivo ao efeito de aluvião e a explosão faça implodir o lugarejo...
A presidente interrompe bruscamente o Eng. Encarregado.
- Ponha aqui o seu pezinho devagar devagarinho?! Ó Eng. você está bom da cabeça? Ponho lá o pezinho e vou parar à Ribeira Grande, que é o mesmo que dizer vou desta para pior…
- Queira desculpar, mas permita-se corrigi-la, os nossos conselheiros da Al-Quaeda asseguram que vai desta para melhor, que a esperam 100 virgens para a servir e aquela lenga-lenga do costume. Para além disso não abdicaram deste procedimento. Os seus métodos exigem um mártir, e não nos ocorreu pessoa tão qualificada para o efeito como V. Exa, tanto pela experiência em pôr o pezinho no tal lugarejo como na notoriedade que por lá lhe é reconhecida.
A Presidente recostou-se no cadeirão pensativa - ai vocês querem um mártir, pessoa notável e de pé fincado no lugarejo - pegou no telefone e marcou um número interno:
- Ó arquitecto cante-me aí o Pezinho da Vila.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Baixa produtividade da blogosfera canense






    De acordo com o publicado no blog Município de Canas de Senhorym a blogosfera canense obteve no terceiro trimestre de 2007 resultados pouco satisfatórios. As causas apontam, segundo aquele blog, para a desistência de muitos dos participantes e da perda de entusiasmo dos habituais comentadores.
    O Mulherio está em condições de afirmar que a quebra de produtividade se prende mais com a época estival que atravessámos do que propriamente com a motivação ou desmotivação dos participantes. Esta terra é quente e todos sabemos que quando o calor aperta o botão desaperta. Os corpos dilatam e homens e mulheres não são de ferro, se bem que, ainda que o fossem, não estariam a salvo dos alongamentos a que o referido metal está sujeito pela acção da canícula.
    Ao fenómeno já deram atenção engenheiros e arquitectos, designadamente na construção civil, cujos materiais sofrem distensões significativas, na casa dos centímetros. Ora, se a estes materiais acontece isto não menos acontecerá ao corpinho da malta, que vê assim por força do fenómeno as medidas acrescentadas. Ora vejamos, se a um carril de 20 metros o sol acrescenta um centímetro, à carninha, cuja densidade molecular é bem menor, acrescentará… bem é fazer as contas. De qualquer maneira não é o cálculo seguro, que isto de estímulos e medidas cada um é como cada qual e nesta matéria não há ninguém igual.
    Se a isto somarmos o efeito de estufa, o torpor próprio da época e a aberração legislativa do governo de Sócrates, só nos resta mesmo aproveitar a disposição física que o fenómeno induz e mergulharmos reconhecidamente no suor morno do parceiro ou da parceira, preferivelmente à tardinha, para que o efeito da insolação não definhe. Que se lixem os blogs.
    Em jeito de conclusão, pode dizer-se que a produção bloguista é inversamente proporcional à prática sexual. Mas isto já eu venho defendendo há muito tempo, portanto nada de lamentações, pois o baixo índice de produtividade da blogosfera canense é o consolo de muita gente.

    sexta-feira, outubro 05, 2007

    Diálogos encrespados. Ao telefone.

    Trimmmmmm
    Ele - Olá, estás bem? Tens algum compromisso hoje?
    Ela - Não estou a entender nada...
    Ele - Estás sem filhos?
    Ela - Sim.
    Ele - Estava a pensar irmos jantar, conversar um bocadinho...
    Ela - Vou aos anos da Leonor.
    Ele - Ah, então diverte-te...

    Trimmmmmmm
    Ele - Viva! Então, estás bem?
    Ela - Nem por isso.
    Ele - O que é que se passa!
    Ela - Estou doente, acho que me vão tirar o útero.
    Ele - O quê!
    Ela - Diagnosticaram-me um tumor...
    (pausa)
    Ele - Não te preocupes, vais ver que tudo se resolve.
    Ela - Mas estou bem, sinto-me é um pouco fragilizada. Queres sair, conversar um pouco...
    Ele - É pá, prometi ir aos anos da Leonor, mas amanhã vou ter contigo.
    (Ela em pensamento)
    - Filho da puta.
    (Ele em pensamento)
    - Fosga-se.